
As escolas públicas de Caxias do Sul reduziram o número de alunos com dois anos ou mais de atraso escolar no ensino médio. É a chamada taxa de distorção idade-série, um dos indicadores medidos e divulgados anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
Em 2024, 18,3% dos alunos do ensino médio da rede pública estavam nesta situação em Caxias, número que caiu para 14,8% em 2025. Em 2018, quando a taxa alcançou o pico na última década no município, o indicador alcançava 34,9% dos estudantes. No Brasil, a idade apropriada para a conclusão da educação básica é 17 anos.
Os motivos principais para a defasagem entre a idade do aluno e o ano em que ele está são o abandono escolar temporário e as reprovações. O doutor em Letras e professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS) Delcio Antônio Agliardi lembra que é preciso observar para além dos números e entender o contexto desta etapa da trajetória escolar:
— Historicamente, o ensino médio é o "patinho feio" da educação básica em termos de ingresso, permanência e conclusão. Ele coincide com uma idade que começa a despertar o jovem para o trabalho informal e formal, desperta a questão das crises familiares, do projeto de vida. E tem os atravessamentos, como a gravidez na adolescência. Costumo dizer que a escola não fica isenta de tudo isso, não é? Atender o aluno do ensino médio é atender uma conjuntura de vida que passa por uma série de transformações — analisa.
Segundo o professor, o despertar de políticas públicas para a manutenção do estudante nas escolas pode ser uma pista que explica a queda na taxa nos últimos anos. São programas federais e estaduais que oferecem auxílio financeiro mensal para incentivar que os alunos permaneçam e concluam o ensino médio.
— O Pé-de-Meia seria um exemplo (nele, o estudante contemplado recebe o pagamento de incentivos mensais de R$ 200, entre outros benefícios). Tem uma relação econômica pedagógica: dá-se um incentivo financeiro para que o aluno permaneça e conclua — exemplifica o professor.
Para a pós-doutora em Letras e professora da Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG) Fabíola Ponzoni Balzan, a queda no indicador passa diretamente pela ação didático-pedagógica dos professores, ou seja, o conjunto de práticas e estratégias usado em sala de aula para que o aluno aprenda efetivamente.
— São dados vitoriosos, sim, mas é preciso continuarmos com políticas públicas pensando em ensino médio, (pensando) a identidade do ensino médio no Brasil, porque ele ainda é muito tratado como um privilégio, mesmo no Rio Grande do Sul. Precisamos também, necessariamente, focarmos na formação dos professores. Não há política pública que dê certo, que se mantenha, que se consolide, sem formação de professores — defende.
As estratégias da EETCS

Em 2025, a Escola Estadual Técnica Caxias do Sul (EETCS) apresentou taxa de distorção idade-série de 5,8%. Na prática, significa que a cada 100 estudantes, aproximadamente seis estavam com atraso escolar de dois anos ou mais. É um dos melhores resultados dentre as escolas públicas de Caxias, conforme os dados do Inep.
Uma das estratégias utilizadas pela escola para diminuir a defasagem é a busca ativa dos estudantes que apresentam faltas frequentes. Atualmente, a instituição atende a cerca de 800 alunos no ensino médio e outros 200 em cursos profissionalizantes.
— Quando percebemos que o aluno está infrequente, ligamos para os pais para entender o que está acontecendo. Também pedimos para que os próprios professores nos sinalizem imediatamente quando os alunos não aparecem nas aulas — aponta a supervisora pedagógica da EETCS, Débora Marques Mendes Domingues.
Acolher e manter o aluno interessado pelo ambiente escolar também são outros pontos listados. Por isso, a escola investe em metodologias que favoreçam a integração entre os estudantes e reduzam as chances de abandono das aulas.
Um exemplo mencionado é a festa agostina prevista para esta semana. A celebração ocorreria antes das férias escolares, em julho, mas foi adiada em função dos temporais. A intenção de não cancelar o evento vai ao encontro da proposta de manter os alunos interessados pelas atividades.
Tecnicamente, se eles estiverem aqui, conseguirem participar de todas as atividades e acompanharem os demais, é mais difícil ficarem na reprovação no final do ano
DÉBORA MARQUES MENDES DOMINGUES
Supervisora pedagógica da EETCS
Para a diretora Janete de Fatima Borges Santos, a tradição da instituição também colabora para o resultado do indicador:
— Mesmo não sendo uma comunidade bairrista, porque recebemos alunos de diversos locais, existe um pertencimento. Tanto que tivemos mais de 700 alunos interessados para entrar no primeiro ano, sendo que o número de vagas disponíveis é em torno de 380. Isso nos traz um engrandecimento. É uma escola bem conceituada, que tem mais de 57 anos — avalia Janete.
"O que nós não queremos mais é perder o aluno"
A educação voltada especificamente para jovens e adultos é uma das alternativas para garantir que o estudante em distorção de idade-série conclua o ensino médio após alcançar os 18 anos.
Dentre os benefícios mencionados por especialistas, está a aceleração dos estudos, a redução do risco de evasão e o próprio conforto do aluno, que pode se sentir deslocado em dividir a sala de aula com adolescentes de faixa etária inferior na modalidade regular.
— Se o aluno está com um risco muito alto de abandonar os estudos, propomos o EJA, propomos que ele procure um núcleo de educação de jovens e adultos. O que nós não queremos mais é perder o aluno — diz a titular da 4ª Coordenadoria Regional de Educação, Cristina da Silva Boeira Fabris.
A modalidade do EJA permite a conclusão do ensino médio em um período mais curto, em até um ano e meio.


