
Certas coisas não mudam nunca. Como o costume que a paraense Iara Rafaele, 25 anos, mantém desde a infância: não ir dormir sem antes pedir a bênção ao pai, Jorge, e à mãe, Cléia. Desde agosto do ano passado, quando migrou de Santarém, a 700 quilômetros da Capital, Belém, para Caxias do Sul, o hábito se manteve mesmo à distância, só que por vídeo chamada. Mais do que uma tradição, é uma demonstração de carinho que ajuda a amenizar a saudade que Iara, assim como muitos imigrantes, sentem de casa e dos familiares.
É também por isso que datas como o Dia dos Pais, celebrado neste domingo, mantêm sua importância. Na última semana, Jorge e Cléia atravessaram o país de Norte a Sul, numa viagem de três escalas ao longo de um dia inteiro, para visitar a filha na Serra Gaúcha.
- A gente é muito apegado, não fica um dia sem se falar, mas chegou a hora que a saudade apertou e que a internet não bastava para amenizar. E também existia essa vontade de conhecer o local que ela (Iara) escolheu para viver. Foi uma longa viagem, mas valeu a pena. A gente volta para casa aliviado, por ter visto de perto que ela está num lugar muito tranquilo, próximo a tudo e com uma estrutura muito boa - comenta Jorge Xavier, 45.

Junto com o casal veio Bruna, a filha mais nova, que ainda mora com os pais. Reunir a família permitiu também a Iara tirar uns dias de descanso para conhecer melhor a região onde vive com o noivo, que é farmacêutico. Estudar muitas horas por dia para passar em um concurso público na sua área de formação, a Biomedicina, fez reduzir os momentos de lazer.
- Saí muito pouco neste primeiro ano morando em Caxias, mas pude aproveitar a visita dos meus pais para conhecer um pouco mais da região. Fomos a Canela, no Parque do Caracol, a Bento Gonçalves, para conhecer algumas vinícolas e passear na Maria Fumaça - conta Iara, que nunca tinha deixado a casa dos pais até migrar para o Sul.
Aproveitando ao máximo cada minuto do reencontro, a família também aproveitou para conhecer a famosa gastronomia típica da região, além de experimentar - e aprovar - o chimarrão. Na bagagem, o espaço que na vinda foi ocupado por alimentos como farinha, tapioca e bombons de cupuaçu para mimar a filha, voltará preenchido com pinhão e frutas típicas da região, como o caqui. Nos quase quatro mil quilômetros que terão de atravessar até chegar de volta ao Pará, não somente as malas, mas também o coração de Cléia e de Jorge vão estar preenchidos por amor e afeto.
Uma família mineira escolheu recomeçar em Caxias

Cinco anos atrás, o nascimento de Bernardo realizou o sonho do casal mineiro Tiago Costa e Lelislane, de formar família. Junto com a alegria, porém, veio a responsabilidade de tentar garantir ao filho o melhor futuro possível. A vida não estava fácil na pequena cidade de Itaguara, no interior mineiro, e o casal identificou Caxias do Sul como o local ideal para começar uma nova vida.
_ Nossa cidade foi tomada pela violência desde a chegada das facções criminosas. Além de oferecer poucas oportunidades, não era mais seguro para criar um filho. Migrar foi uma escolha difícil, mas necessária _ conta Tiago, 35.
O mineiro partiu rumo ao Rio Grande do Sul em junho. Tão logo chegou a Caxias do Sul, deixou o currículo na metalúrgica Guerra. Foi contratado 20 minutos depois, iniciando no dia seguinte o trabalho no setor de solda. Garantir o emprego era o passo mais importante para dar a Lelislane, 29, o sinal verde para vir com Bernardo juntar-se a ele em Caxias.

Mãe e filho chegaram em meados de julho, colocando fim a uma espera que teve momentos de angústia, segundo recorda Tiago, agora com Bernardo no colo:
_ Perdi muitas noites de sono, com o coração apertado, sabendo que lá em Minas meu filho estava triste por não ter o pai por perto. Mesmo ligando todas as noites, tinha vezes que ele choramingava e não queria nem conversar. Tive de ter muita firmeza no propósito.
A adaptação à Serra foi facilitada pelo que o casal destaca como um dos pontos positivos de Caxias do Sul: a hospitalidade. Quando ainda estava sozinho na cidade, Tiago recebeu uma doação de cobertores por uma entidade que atende a migrantes, sediada no bairro Charqueadas. Agora, enquanto prepara a mudança da quitinete que Tiago locou mobiliada para um apartamento mais espaçoso, o casal conta com a ajuda de membros da mesma igreja que frequenta para mobiliar o novo espaço.
- Está sendo uma experiência muito boa até aqui. Não é nada fácil deixar toda a vida que você tinha para trás, mas tudo que aconteceu até aqui nos faz acreditar que fizemos a escolha certa - diz Tiago.
Na figura do pai, o porto seguro para ajudar a venezuelana Vicmar a superar a fase mais difícil

Semelhante a de inúmeras famílias que migram de outros países para a Serra Gaúcha, a história da venezuelana Vicmar Azuaje, 35, e do pai, Victor, 59, é marcada por momentos de separação na busca por melhores condições de vida. No caso de Vic, como é mais conhecida, a adaptação foi dificultada por um desafio que não estava previsto: o diagnóstico de que o filho, Noah, possuía um tipo raro de câncer, aos dois anos.
Morando em Caxias do Sul desde 2022, Vic pôde contar, a partir do ano seguinte, com o apoio do pai, que antes morava no Equador. Ter a presença paterna em Caxias foi fundamental para a venezuelana se manter manter forte e conseguir, assim, conciliar o cuidado com o filho enfermo e as dificuldades impostas pelo recomeço em outro país.
Afastada do trabalho, enquanto o esposo seguia trabalhando para garantir o sustento familiar a venezuelana passou a viver entre a casa e o hospital, Vic passava boa parte dos dias acompanhando Noah em consultas médicas, exames e sessões de quimioterapia, até novembro do ano passado, quando o filho passou pelo último procedimento.
- Faz toda a diferença ter o pai por perto. A gente se sente menos sozinho e vulnerável, sabendo também que nosso país continua em crise e que seria difícil pensar em outa maneira de star com a família que não fosse aqui _ conta a migrante, que trabalha em uma metalúrgica e já adquiriu imóvel em Caxias.
Se ao longo dos últimos cinco anos a relação de Vicmar com o pai foi marcada por desencontros, hoje praticamente toda a família vive em Caxias. Vicmar tem irmãos, tios e primos espalhados por bairros como Esplanada Santa Fé e Santa Catarina. A rotina não permite o convívio diário entre os familiares, mas toda oportunidade de estar junto aos finais de semana é aproveitada. Assim será neste Dia dos Pais, em que o patriarca será mimado com delícias como cachapas e arepas, pratos que não podem faltar toda vez que os venezuelanos se encontram.





