
O direto à alimentação está previsto em lei, mas nem sempre se reflete no que chega à mesa de crianças e adolescentes de Caxias do Sul. Um programa municipal retomado há três anos, contudo, vem transformando essa realidade para 7,8 mil estudantes de regiões em vulnerabilidade social. Diferentemente da merenda tradicional, o projeto Prato Saudável oferece duas refeições diárias para cada aluno. Atualmente, são 16 escolas participantes da proposta.
Mais do que garantir alimentos nutritivos, a iniciativa contribui diretamente para o rendimento escolar e o desenvolvimento dos alunos. É o que garante a diretora da Escola Municipal Presidente Tancredo de Almeida Neves, Kleia Wollman. A instituição, localizada na Zona Norte, aderiu ao programa neste ano e já vê mudanças comportamentais em sala de aula:
— Os professores nos colocaram que a questão cognitiva, a aprendizagem e a concentração deles melhoraram muito. Um professor de Educação Física, inclusive, nos disse que é o primeiro ano em que os estudantes não passam mal no início da tarde. Porque muitos não comiam (em casa) e ficavam tontos na aula. Depois do Prato Saudável, não tivemos mais isso — relata a diretora.
Para participar do programa, a escola teve que fazer uma reforma na cozinha, além de garantir uma geladeira industrial e um aparelho de bufê com a ajuda de parceiros. O turno da manhã recebe café e almoço. Os alunos da tarde também almoçam e, depois, têm um lanche garantido antes de ir para casa. As refeições são feitas em horários estratégicos, justamente para que os estudantes iniciem o período de estudos bem alimentados.
Eu estou há nove anos no Tancredo e a frase que eu mais ouvia na sala era 'falta muito para o lanche?'. Isso mexia muito com a gente, porque todo mundo sabe que criança com fome não aprende
KLEIA WOLLMAN
Diretora da Escola Municipal Presidente Tancredo de Almeida Neves
— Eu estou há nove anos no Tancredo e a frase que eu mais ouvia na sala era "falta muito para o lanche?". Isso mexia muito com a gente, porque todo mundo sabe que criança com fome não aprende. Não tem como uma criança prestar atenção em um conteúdo novo com a barriga roncando de fome — ressalta a diretora.

No refeitório, as refeições não são obrigatórias: cada aluno é livre para se servir ou não dos alimentos. Na tarde de terça (18), o cardápio do Tancredo tinha carreteiro, feijão e salada de tomate. De sobremesa, bergamota. Alguns optavam somente pela fruta, enquanto outros enchiam o prato com tudo a que tinham direito.
Tímido, o estudante do sétimo ano Enzo Miguel Santos do Santos aproveitava toda a refeição na companhia dos colegas:
— É sempre bem variado — resumiu.
Cardápio é variado e completo

O programa Prato Saudável é uma adaptação do antigo projeto Prato Limpo, implantado em 2006 e interrompido durante a pandemia de coronavírus.
Para aderir a proposta, as escolas precisam estar em uma área de considerada de vulnerabilidade social e ter uma cozinha com capacidade de operar quatro refeições por dia.
O almoço, que é considerada a refeição principal de cada turno, é planejado para garantir uma fonte de energia completa aos alunos. Por isso, os cardápios contam com carboidrato, proteína, salada, além de feijão ou lentilha. Segundo a prefeitura, no mínimo 30% das necessidades nutricionais dos estudantes são supridas durante o período letivo.
Sempre que possível, há complemento com fruta ou suco natural próprios da estação. Os estudantes também são livres para repetirem o prato, caso desejarem.
— (é um programa que) faz toda a diferença e recebemos relatos bem positivos das escolas. É como o ditado antigo fala que saco vazio não para em pé e, neste caso, muito menos consegue aprender. Se estivermos com fome, com a nossa energia reduzida, não conseguimos nos dedicar e prestar atenção — salienta a nutricionista Natália Guerra, gerente do setor de alimentação escolar da Secretaria Municipal da Educação.
Boa parte dos alimentos oferecidos são de produção local, da agricultura familiar. A compra é realizada de cooperativas de Caxias do Sul, Itati e Antônio Prado. Itens como a banana e o suco de uva tinto são orgânicos.
— São incrementos que fazemos para garantir uma alimentação superssaudável e biodisponível — finaliza Natália.
Escolas participantes em 2026
- Escola Afonso Secco – bairro Parada Cristal
- Escola Atiliano Pinguelo – bairro De Zorzi
- Escola Basílio Tcacenco – bairro Esplanada
- Escola Dezenove de Abril – bairro Cidade Industrial
- Escola Dolaimes Stédile Angeli – bairro Centenário II
- Escola Governador Leonel Brizola – bairro Jardelino Ramos
- Escola Guerino Zugno – bairro Planalto
- Escola Machado de Assis – bairro Reolon
- Escola Paulo Freire – loteamento Mariani
- Escola Presidente Tancredo de Almeida Neves - bairro Santa Fé
- Escola Ruben Bento Alves – bairro Vila Ipê
- Escola São Vicente de Paulo – bairro São Vicente
- Escola Senador Teotônio Vilela – bairro Nossa Senhora das Graças
- Escola Vereador Marcial Pisoni – bairro Vila Leon
- Escola Villa Lobos – bairro Villa Lobos
- Escola Zélia Rodrigues Furtado – bairro Parque Oásis.



