
Aos 61 anos, o professor Marco Antônio Gonçalves acaba de assumir uma nova missão dentro da igreja católica. Natural de São Paulo (SP), casado há 38 anos com a aposentada Silvia Teresinha Gonçalves, 62, e pai de dois filhos, ele agora é diácono permanente. A ordenação ocorreu no dia 1º de agosto, na Igreja dos Capuchinhos, em Caxias do Sul.
A trajetória religiosa de Gonçalves começou ainda na infância, influenciada pela avó. Na juventude, chegou a ingressar em um seminário com a intenção de seguir o sacerdócio. A vida, porém, o levou por outro caminho. Ele conheceu Silvia e os dois decidiram construir uma família. Anos depois, a possibilidade de homens casados assumirem o diaconato permanente permitiu que retomasse uma antiga disposição de servir à igreja.
A história de Gonçalves ajuda a explicar uma vocação que ainda é pouco conhecida por parte dos fiéis. O diácono permanente não é padre, mas recebe o sacramento da Ordem (rito que confere a um homem uma missão específica de serviço à comunidade) e passa a exercer funções próprias dentro da igreja. Ele pode ser casado, ter filhos e continuar trabalhando em sua profissão.
Em Caxias do Sul, essa vocação ganha destaque neste mês. Ao longo dos cinco sábados de agosto, 20 homens que integram a primeira turma da Escola Diaconal São Filipe serão ordenados. A escola foi instituída em 2022 pelo bispo dom José Gislon, e a formação durou quatro anos.

A primeira das cinco celebrações previstas para agosto reuniu 12 dos 20 candidatos da turma. Eles foram ordenados em uma cerimônia presidida por dom José Gislon. As demais ordenações estão sendo realizadas nos demais sábados do mês, nas diferentes regiões pastorais da Diocese.
Diferenças entre diáconos e padres
O diaconato permanente foi retomado pela Igreja Católica durante o Concílio Vaticano II, realizado em Roma entre 1962 e 1965. A reunião de bispos de todo o mundo foi um dos principais momentos de transformação da Igreja no século 20 e buscou atualizar a instituição e aproximá-la da sociedade. O diaconato, que existia nos primeiros tempos do cristianismo, foi renovado nesse período.
Na opinião do padre Leonardo Inácio Pereira, 49, vigário-geral da Diocese de Caxias do Sul e diretor da Escola Diaconal São Filipe, a principal característica do diácono está na própria origem da palavra: serviço.
— A primeira missão do diácono permanente é o cuidado com os pobres. Hoje nós temos pessoas que vivem em solidão, crianças, idosos, pessoas dependentes de álcool ou drogas e tantas outras situações de vulnerabilidade. A segunda missão é a proclamação da Palavra de Deus e a terceira é o serviço do altar — explica o religioso.

Na prática, o diácono pode proclamar o Evangelho durante a missa e, em algumas situações, fazer a homilia. Também pode realizar batizados, presidir celebrações da Palavra (encontro litúrgico da comunidade cristã focado na leitura e reflexão da Bíblia), conduzir celebrações de exéquias (cerimônias religiosas de sepultamento) e distribuir a Eucaristia.
Há, porém, funções que continuam sendo exclusivas dos padres. O diácono não pode consagrar o pão e o vinho durante a missa, ouvir confissões, conceder a absolvição ou administrar a unção dos enfermos.
A diferença também aparece nas vestimentas. Enquanto o padre usa a estola (faixa de tecido sobre os ombros) de forma reta e a casula (veste sagrada que o padre ou o bispo usa por cima da túnica), o diácono utiliza a estola atravessada e a dalmática, uma veste própria que simboliza o serviço.
Família, trabalho e Igreja
Uma das particularidades do diaconato permanente é a possibilidade de o homem ser casado. Os candidatos podem ser casados ou solteiros. No caso dos casados, a autorização da esposa é necessária, além de outros critérios estabelecidos pela igreja. Se a pessoa é solteira, deve prometer viver a castidade e o celibato.
Segundo o padre Leonardo, o candidato precisa ter mais de 35 anos e, se for casado, apresentar estabilidade matrimonial e familiar. Também precisa manter uma vida profissional, já que o diaconato não significa abandonar o trabalho.
Para Gonçalves, conciliar as três áreas é justamente um dos principais desafios da missão. Ele define a rotina do diácono a partir de um tripé: família, trabalho e igreja.
— A primeira vocação do diácono é a família. Eu tenho que, aqui em casa, com a minha família, já ser um diácono, me colocando a serviço. Depois vem o trabalho, que é essencial para manter a família. E o trabalho em comunidade, ajudando, visitando doentes, fazendo celebrações e auxiliando os mais pobres — exemplifica o agora diácono.
Durante a formação, as esposas também participaram de momentos de reflexão, retiros e atividades. Para Silvia, é uma forma de compreender que, embora a missão seja do marido, ela também interfere na rotina familiar.
— Eu costumo dizer que são dois "sins": o primeiro é o do matrimônio e o segundo é quando começa essa caminhada para o diaconato. É uma mudança grande de rotina, mas a gente vai entendendo que o papel da esposa também é importante — diz Silvia.
Quatro anos de preparação
A Escola Diaconal São Filipe começou em 2022 com 37 candidatos de diferentes comunidades da Diocese. Ao longo do processo de formação e discernimento, o grupo chegou aos 20 homens que estão sendo ordenados neste mês.
Foram quatro anos de preparação teológica, pastoral e espiritual, com encontros presenciais um fim de semana por mês, aulas online, retiros e momentos de oração. As famílias também foram envolvidas no processo.
— Tivemos momentos de aprendizado de toda a teologia, a doutrina da Igreja e a liturgia. Mas, mais do que o estudo, houve também a descoberta de si, a convivência com os colegas e o fortalecimento da oração através dos retiros — revela Gonçalves.

A retomada do diaconato permanente em Caxias começou a ser discutida em 2017. A Diocese já havia tido uma experiência logo após o Concílio Vaticano II, quando dom Benedito Zorzi, então bispo da Diocese, organizou uma pequena escola e ordenou alguns diáconos. Depois, porém, a formação deixou de existir de maneira sistemática.
Com a criação da Escola Diaconal São Filipe, o processo foi retomado. Para o padre Leonardo, a vocação precisa nascer também da própria comunidade. Por isso, o candidato deve ter uma trajetória de participação na paróquia e ser apresentado pelo conselho paroquial de pastoral.
Os 20 diáconos ordenados
Albano Bortoncello, Denis Francisco Pocai, Fernando Marca, Jeferson Pinto Pereira, José Luis Paredes Uribe, Manoel Menor Dresch, Márcio José da Rosa Barreto, Marco Antônio Gonçalves, Marcos Vinícius Cardoso, Maurício Boldori, Nilso Antonio Bevilaqua, Paulo José Echer, Pedro Jones Stedile, Remi Damin, Ricardo Dewes, Roberto Masutti, Sandro Lenz, Tiago Orbach, Valdecir Bergamin e Volmir João Pagliarini.



