
Há dois anos, as cicatrizes deixadas pelos deslizamentos de terra ocorridos em maio de 2024 se tornaram parte da paisagem das encostas da Serra. Com mais de 5 mil pontos mapeados pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 19 municípios, a região foi uma das mais afetadas pelo evento climático.
Na última quarta-feira (29), a equipe do projeto Previne Taquari-Antas, do Instituto de Geociências da UFRGS, finalizou uma visita técnica à região. O grupo avaliou a situação de cicatrizes em Vale Real, Caxias do Sul, Veranópolis e Farroupilha, bem como estão se recuperando.
— Observamos que a regeneração está acontecendo rapidamente. Algumas estão se recuperando, naturalmente, mais rápido que outras. Esse será um dos pontos que iremos investigar — detalha o professor e pesquisador Clódis Andrades Filho.
Preliminarmente, o grupo também notou que os taludes estão expostos a erosões pela ação da água, podendo apresentar queda de blocos e comprometer o fluxo nas rodovias.
Segundo o pesquisador, o panorama entre as cidades é semelhante justamente pelas características naturais parecidas de rocha, solo, relevo e vegetação.
Mais camadas em detalhes
Apesar dessa não ser a primeira vez que o grupo vem à Serra, a ida a campo dos últimos dias contou com uma nova tecnologia: o LiDAR (Light Detection and Ranging).
O equipamento funciona como uma espécie de scanner, que dispara milhares de pulsos de laser para gerar modelos tridimensionais detalhados do relevo. Até agora, o monitoramento vinha sendo realizado principalmente por imagens de satélite.
— As imagens de satélite funcionam como uma fotografia tirada de cima. Elas mostram onde existe vegetação, mas não conseguem indicar a altura das plantas ou o que existe sob essa cobertura. Com o LiDAR, conseguimos enxergar a estrutura da vegetação, as condições do solo e até pontos mais sensíveis dessas cicatrizes onde podem ocorrer novos deslizamentos — explica pesquisadora Beatriz Cargnin.

Além dos levantamentos aéreos, a equipe também realizou medições em campo. Nos locais acessíveis, os pesquisadores identificaram espécies vegetais, mediram altura, diâmetro e registraram características da cobertura existente.
Esses dados irão ajudar a explicar porque alguns pontos estão se desenvolvendo mais rápido do que outros. A expectativa é que os primeiros resultados consolidados sejam divulgados em 2027.
Como o estudo pode ajudar a região
A partir dos resultados será desenvolvida uma ferramenta de gestão de risco voltada para municípios, órgãos ambientais e Defesas Civis. A proposta é criar um guia capaz de apontar quais cicatrizes demandam monitoramento prioritário ou intervenção para acelerar a recuperação.
— A ideia é criar um índice de prioridade. O primeiro critério é a presença de vidas humanas. Se uma área apresenta regeneração lenta e está próxima de casas, estradas ou lavouras, ela precisa receber atenção antes de uma cicatriz isolada e distante de qualquer ocupação — explica Beatriz.
Sem cobertura vegetal adequada, as cicatrizes permanecem suscetíveis à erosão, ao assoreamento de rios e à perda de nutrientes do solo. Em períodos de chuva intensa, como está previso para os próximos meses, também podem favorecer novos movimentos de massa, colocando em risco moradores e propriedades instaladas nas proximidades.

A pesquisa avalia exclusivamente áreas que não receberam obras de contenção nem outras intervenções humanas, justamente para compreender como ocorre a regeneração natural das encostas. A partir desses resultados, o grupo pretende indicar em quais situações o ambiente consegue se recuperar sozinho e em quais será necessário investir recursos para acelerar o processo.
— A ideia é que após um novo evento extremo, seja possível identificar rapidamente quais cicatrizes precisam de atenção imediata e quais têm condições de se regenerar naturalmente. Isso ajuda a direcionar esforços e recursos para os locais onde eles realmente são necessários — conclui Beatriz.
Deslizamentos de 2017 ajudam a entender o padrão de 2024
O trabalho desenvolvido na Serra tem como base um projeto conduzido pela pesquisadora em cicatrizes formadas em 2017 na bacia do Rio Rolante, no Vale do Paranhana. Na ocasião, foram analisados mais de 330 pontos de deslizamento.
O estudo mostrou que a recuperação da vegetação costuma ser mais intensa nos primeiros três anos após o evento.
— Identificamos trajetórias distintas de regeneração, que classificamos como rápida, intermediária e lenta. Dessas cicatrizes analisadas, 25% tiveram crescimento rápido, 48% intermediário e 27% lento. Cruzamos esses dados com informações de elevação e declividade e constatamos que os pontos com recuperação mais rápida estão voltados para o norte, onde existe maior incidência do sol — detalha.
Além da orientação da encosta em relação ao sol, fatores como altitude e inclinação do terreno também influenciam a regeneração. Áreas mais íngremes tendem a sofrer mais erosão e apresentam maior dificuldade para a fixação das plantas. Já as regiões localizadas em vales mais profundos costumam receber menos luz solar, o que pode retardar o desenvolvimento da vegetação.
Outro aspecto observado pelos pesquisadores é que diferentes tipos de deslizamentos produzem respostas distintas da natureza. Os chamados deslizamentos rasos, nos quais há deslocamento de solo sem uma escavação profunda da encosta, costumam apresentar recuperação mais rápida. Já os fluxos de detritos, que removem grandes volumes de material e podem deixar apenas a rocha exposta, estão entre os casos mais difíceis de regenerar.
— Quando resta apenas a rocha, praticamente não há solo para o desenvolvimento da vegetação. Essas cicatrizes são as que apresentam maior dificuldade de recuperação e demandam mais atenção — afirma.



