
A Serra gaúcha pode se tornar a primeira região do Brasil a concentrar dois destinos premiados com o selo Melhores Vilas Turísticas do Mundo. Neste ano, Vila Flores, com 3,7 mil habitantes e cultura típica da imigração italiana no RS, integra os sete destinos brasileiros que concorrem à distinção concedida pela ONU Turismo.
As representantes do país foram indicadas pelo Ministério do Turismo, que levou em conta critérios como população de até 15 mil habitantes, paisagem com atividades tradicionais e a união entre valores e estilo de vida comunitário.
As localidades disputam o selo internacional com outros 261 participantes espalhados por todos os continentes. O resultado das vilas destaque em valorização do patrimônio cultural e natural, sustentabilidade e desenvolvimento local será divulgado em dezembro, em Buenos Aires, na Argentina. As vencedoras passarão a integrar a rede que ganha um selo de boas práticas.

Em 2025, a vizinha Antônio Prado, referência na preservação da herança da imigração italiana com acervo arquitetônico e utilização do dialeto Talian, atingiu o feito e, hoje, compõe a rede de "Melhores Vilas Turísticas da ONU Turismo". A cidade se juntou a Testo Alto, em Pomerode (SC), e a mais de 300 destinos rurais de fora do país.
Além de Vila Flores, concorrem, agora, Conceição de Ibitipoca, em Lima Duarte (MG), Araçá, em Porto Belo (SC), Delfinópolis (MG), Holambra (SP), Lençóis (BA) e São José do Barreiro (SP).
Terra da fé, pão e vinho
Antes um distrito pertencente a Veranópolis, Vila Flores foi elevada à categoria de município em 1988. A população é formada principalmente por descendentes de imigrantes italianos, com economia baseada na agricultura, como soja e milho. Há também produções pecuária, de cerâmica e olaria, e a presença de indústrias.
Nos últimos anos, entretanto, o turismo vem se expandindo e se tornando uma aposta com inúmeras atrações que exploram a autenticidade de Vila Flores e sua comunidade. Em 2025, foram registrados 30,5 mil visitantes, segundo o Ministério do Turismo.
— O que nos agrega é o jeito simples de viver e a forma de acolher. São fatores que atraem os visitantes que querem ter aquele momento para relaxar. Temos comida farta, hospedagem, comércio, cafés, agroindústrias e patrimônios espirituais e religiosos — orgulha-se a secretária municipal de Turismo e Cultura, Fernanda Ana Guadagnin.
A principal atração é o filó italiano que, inclusive, rendeu à cidade o título de Capital Estadual do Filó. A confraternização é herança dos antepassados e consiste em reunir moradores e visitantes à noite para desfrutar da gastronomia típica, brincadeiras, música e conversa.
É servida uma mesa com polenta, salame, queijo, pão artesanal, cuca e grostoli na harmonia de canções como La Bella Polenta e Mérica Mérica, que são entoadas em coro e gaitas.
O Grupo Filó de Vila Flores coordena as atividades há duas décadas e é composto por 20 artistas, que encantam a excursões de até 80 pessoas por vez. Os passeios acontecem por meio de agendamento.
— É o entretenimento que nossos imigrantes italianos tinham à noite: o encontro em família. Esses encontros tinham que ter comida, cantoria, diversão. Tudo que fosse possível para alegrar — descreve Benedita Zandoná Ceccato, 77 anos, presidente do grupo.
As apresentações do Grupo Filó acontecem na Casa do Artesão Pietro Christianetti, construída em 1886 e que chegou a abrigar mais de 30 pessoas naquela época. A residência, de cor marrom com detalhes em verde, foi revitalizada e atualmente é dedicada à exposição e venda dos produtos de cerca de 30 artesãs e artesãos. O endereço também é sede da Secretaria Municipal de Turismo e Cultura.
Elemento obrigatório do filó italiano são as histórias. Vila Flores começou a ser povoada, conforme constam os registros, no fim do século 19, quando a localidade foi inicialmente denominada de Pinheiro Seco. O nome atual surgiu somente em meados de 1920, em referência a uma das primeiras famílias daquele território: os Fiori, nome que, do latim, significa flores.
Morar em Vila Flores é ser solidário, é conhecer todo mundo pelo nome, é dar bom dia a todos que passam. É um local de aconchego
ZELIA BRANDALISE FIORI
Ex-prefeita de Vila Flores
Com a emancipação política há quase 40 anos, nasceu a autonomia, que trouxe consigo os desafios de estruturação de um novo município. Mas essa etapa marcou o início da consolidação de Vila Flores, conforme recorda a professora Zelia Brandalise Fiori, 83, primeira prefeita (1989 a 1992) e única mulher a ocupar o cargo na cidade.
— A gente começou com nada porque não tínhamos lei nenhuma. No dia 1° de janeiro teve festa, posse, tudo lindo. Mas e no dia seguinte, aonde ir? Ficamos seis meses em uma sala de aula da escola estadual que funcionava em cima do salão paroquial, onde formamos a lei orgânica com os vereadores que assumiram na época — conta.
Para desconectar e relaxar
O Complexo Turístico Vila Capuchinhos é outro destaque do município por concentrar atividades voltadas aos visitantes que buscam se desconectar das telas e relaxar.
Além de hospedagem, com 130 quartos, o empreendimento histórico reúne águas termais de poço, capela, restaurante, bar e a Cave dos Frades, com vinhos próprios. As férias de inverno costumam concentrar o ápice anual de procura pela pousada.
Inaugurado como Seminário Santo Antônio, em 1949, o espaço foi aperfeiçoado com reformas ao longo das décadas até ter sua vocação convertida para uma pousada em 2006.
Em mais de 75 anos de história, uma característica não muda e possivelmente defina a Vila Capuchinhos: a espiritualidade. Destaca-se entre imagens e artigos religiosos fixados nas paredes uma charmosa capela no interior da pousada, que convoca hóspedes para um momento de reflexão.
— A capela foi construída há 50 anos, no tempo do Seminário. Ela foi restaurada há uns sete anos e revestida com tijolos de demolição, sem forro e com piso de ladrilhos. É um ambiente tão bonito, acolhedor e agradável que muitos jovens vêm realizar o enlace matrimonial — revela o frei José Lagni, 67, coordenador da Vila Capuchinhos.
O enoturismo também é um dos pilares do negócio. A estadia oferece passeio a bordo de um "tuque-tuque" pelos vinhedos do complexo e, dentro da Cave dos Frades, nos subsolo, é aberta a caixinha de segredos do empreendimento com as experiências de Santa Ceia e de degustação de vinhos.
Um dos produtos mais curiosos que são vendidos é o Vinho Santo, uma bebida doce, que remete a um licor, com 17,5% de teor alcoólico. Normalmente elaborado a partir da uva Isabel, o vinho passa por um processo rigoroso que combina tradição e fé.
— Ele precisa obedecer as normas do direito canônico: não pode ser corrompido com produto químico. Ou seja, para sua conservação, é utilizado o álcool do açúcar da uva ou o álcool de cereais. Ele fica em torno de dois a três anos na pipa fermentando — explica o frei José Lagni.
"As pessoas entram e lembram da avó, da mãe"
Mais do que tomar um café com cuca, pão e biscoitos (o que já é uma delícia por si só), entrar na centenária Casa Fiori é como viajar pela história de Vila Flores e conhecer os costumes e vivências das primeiras famílias de imigrantes italianos que chegaram na região.
Construída pela família Fiori em 1913, a residência possui três pisos e 10 quartos e foi erguida inicialmente para abrigar um casal, Joaquim e Antonina, e 12 filhos.
Integrante da quarta geração da família, Salete Maria Fiori Bortoli, 59, é quem comanda atualmente o armazém e café. Ela conta que, desde quando foi construída, a casa tinha consigo o propósito comercial, com a venda de bebidas, comidas, vestuário e ferramentas.
A casa é um testemunho vivo da história de Vila Flores e nós somos elo dessa história. É maravilhoso poder manter viva a tradição familiar e mostrá-la aos visitantes. É respeito, é honra, é alegria.
SALETE MARIA FIORI BORTOLI
Proprietária da Casa Fiori
Mas foi na década de 1970 que aconteceu a virada de chave, a partir das mãos da mãe, Iracema, e da avó, Sibila, que popularizam a venda de pães artesanais de dois quilos — alimento que é o queridinho do cardápio e pode ser encomendado em tamanhos ainda maiores.
— E aí começa a padaria, com a venda do pão gigante, elas acrescentam a cuca, os biscoitos, o panetone — contextualiza.
A proposta da Casa Fiori, explica Salete, é cozinhar conforme cada instrução deixada pelo livro de receitas da família, preservando a qualidade única conferida a cada alimento desde sua elaboração.
A experiência fica completa com a estrutura do casarão, que foi conservada e decorada com fotos da família Fiori, utensílios domésticos, móveis e ferramentas do século passado.
— As pessoas entram aqui e lembram da avó, da mãe. A casa abraça e faz você reviver emoções do passado, de ser bem recebido, de tomar um café, comer um pão com chimia, um grostoli. É diferente das padarias que existem por aí — garante a proprietária.
Festas locais e natureza preservada
Integrante da rota regional Termas e Longevidade, Vila Flores também tem seus eventos próprios. O maior deles é a Festflor, que acontece a cada quatro anos. A 7ª edição está marcada para novembro de 2027 e já elegeu suas soberanas: rainha Jaqueline Maria Polinski e a princesa Camila Morais Bloss.
Todos os anos, em maio, junto ao aniversário da cidade, ocorre o Festival do Pão Frito, alimento que é patrimônio material e imaterial da cidade e é servido em restaurantes da cidade.

Além da riqueza cultural, Vila Flores integra a área de influência da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica e preserva remanescentes de Floresta Ombrófila Mista, com araucárias, nascentes, vales e vinhedos que favorecem o turismo de natureza e contemplação.



