
— É preciso gostar de pessoas e ter paciência consigo mesmo.
É assim que Paula Fernanda Camassola dos Santos, de 45 anos, define a profissão de cuidadora de idosos. A atividade tem ganhado cada vez mais espaço, impulsionada pelo envelhecimento da população brasileira.
Em Caxias do Sul, por exemplo, o Censo de 2022 apontou um crescimento de 73% no número de moradores com 60 anos ou mais em comparação com o levantamento feito em 2010. Apesar disso, ainda há dificuldade para encontrar profissionais qualificados para a função.
Paula trabalha há sete meses como cuidadora no Lar da Velhice São Francisco de Assis, no bairro Marechal Floriano, em Caxias, auxiliando na higiene pessoal, na alimentação, no acompanhamento diário dos idosos e na realização de atividades de integração com os demais moradores da instituição. Para a profissional, que sonha em fazer o curso de Técnico em Enfermagem, a profissão surgiu após a experiência de cuidar da própria avó, já falecida.
— Eu cuidava da minha avó quando ela ficou doente, mas acho que sempre tive vontade de trabalhar com pessoas, mesmo já tendo atuado com o público antes. Depois que ela faleceu, decidi buscar emprego nesta área e agora quero fazer o curso técnico, que é meu sonho — conta.

A cuidadora também destacou que o trabalho exige muita paciência, tanto com os idosos quanto consigo mesma.
— Há vários desafios. Por um lado, é muito gratificante, por outro, às vezes é cansativo e pode sobrecarregar um pouco. É preciso gostar do que faz, porque, caso contrário, não se consegue permanecer no trabalho. Também é necessário estar bem consigo mesmo e ter paciência, porque o idoso, em algumas situações, pode precisar de cuidados semelhantes aos de uma criança — afirma.
E essa questão da paciência é uma das maiores dificuldades quando se busca profissionais qualificados, revela a enfermeira responsável pelo Lar, Joanete Salvi.
— Geralmente, a gente pede que ele tenha o curso de cuidador ou esteja fazendo um curso na área, principalmente técnico de enfermagem. Nem sempre a gente consegue, porque realmente está bem escasso. Não temos pessoas muito preparadas e que tenham aquele cuidado, aquela empatia que precisa para cuidar de pessoas idosas. Então, é bem complicado, não é uma tarefa fácil — comenta.
Aumento na profissionalização

A busca por qualificação na área, no entanto, tem crescido. O supervisor técnico da Escola de Saúde Pompéia, Khaleu Barbosa Pacheco, instituição que oferece curso de cuidador de idosos, já percebe um aumento na procura.
— É uma área que está em alta. Há grande procura devido ao número de pacientes internados, às casas de repouso e ao crescimento do cuidado domiciliar. Muitas famílias preferem manter um cuidador em casa em vez de encaminhar o idoso para uma instituição de longa permanência, o que acaba aquecendo o mercado — destacou.
Segundo Pacheco, o perfil dos alunos também mudou. Antes, predominavam mulheres com mais de 40 anos em busca de recolocação profissional. Hoje, há um número maior de jovens que já atuam em áreas semelhantes.
— Algumas pessoas procuram o curso para se recolocar no mercado, outras já trabalham em lares e buscam qualificação para continuar na função. Entre os mais jovens, é comum haver influência da própria família, como ter um pai ou uma mãe que necessita de cuidados — explica.

No curso, Pacheco explicou que as aulas são voltadas para o ensino das atividades básicas da função.
— Por exemplo, um banho de leito atendendo um paciente acamado, a movimentação com o paciente, os cuidados com sondas, com drenos, porque, dependendo do paciente acamado, ele vai precisar disso, o auxílio para comer e tudo o que envolve estes cuidados — exemplifica.
Junto disso, a legislação é um fator importante durante a formação, já que muitos contratantes confundem as atribuições do cuidador com as do técnico em enfermagem.
— Um dos principais pontos, inclusive, que a gente aborda aqui na escola, é o que não fazer. O papel do técnico em enfermagem e o do cuidador têm uma discrepância muito grande. O técnico de enfermagem vai conseguir mexer nos drenos e sondas, fazer um curativo, aplicar uma medicação. O cuidador não tem esse amparo legal para fazer esses cuidados especializados, no máximo no sentido de ajudar o paciente a tomar um comprimido no horário determinado — explica.
Dicas para escolher um bom cuidador

Para a consultora em políticas públicas para o envelhecimento e ex-presidente do Conselho da Pessoa Idosa de Caxias do Sul Danielle Rech, a atenção dos familiares precisa ser além do profissional, dado que aquela pessoa fará parte da rotina, da intimidade e da vida da pessoa idosa.
— Na hora da escolha, é importante verificar se o profissional possui formação, experiência e boas referências. Mas isso, por si só, não basta. Um bom cuidador também precisa demonstrar ética, responsabilidade, boa comunicação e, principalmente, respeito à história, às escolhas e à autonomia da pessoa idosa — destaca.
Além disso, Danielle frisou que é preciso analisar as necessidades da pessoa idosa antes da contratação, justamente para não deixar o assistido em uma situação de dependência.
— O cuidador deve oferecer o apoio necessário para que ela mantenha o máximo possível de independência, e não substituir aquilo que ainda consegue fazer sozinha. Também é importante lembrar que nem toda pessoa idosa precisa de um cuidador em tempo integral. Cada situação é única e deve ser avaliada considerando o grau de autonomia, as necessidades de apoio e a rede familiar existente. Em alguns casos, pequenas adaptações na rotina ou um acompanhamento parcial já podem ser suficientes — pontua.
A consultora ainda destaca como o cuidador é uma forma de qualidade e segurança ao idoso, dado o aumento dessa população e as urgências da rotina.
— Vivemos uma realidade em que a população idosa cresce rapidamente e, com ela, aumenta também a necessidade de falar sobre cuidado. Mais do que um serviço, o cuidado é uma forma de garantir dignidade, segurança e qualidade de vida. Afinal, cuidar não é tirar a independência de alguém, mas ajudá-lo a viver com mais segurança e qualidade de vida — opina.
