A Igreja São Pelegrino e Nossa Senhora da Pietà, em Caxias do Sul, será palco de uma celebração inédita no dia 1º de agosto. A partir das 17h, uma missa de Exéquias (rito fúnebre católico) marcará oficialmente a deposição das urnas cinerárias do pintor italiano Aldo Daniele Locatelli e de sua esposa, Maria Mercedes Biancheri Locatelli, no átrio do templo (espaço que antecede a porta principal) que abriga a principal obra do artista no Brasil.
A cerimônia será presidida pelo bispo da Diocese de Caxias do Sul, dom José Gislon, e reunirá familiares, autoridades religiosas, representantes do poder público, integrantes de entidades culturais e a comunidade. As urnas já estão na igreja desde maio, após um processo de exumação, cremação e translado iniciado em outubro do ano passado em Porto Alegre, onde os corpos haviam sido sepultados.
O momento central da celebração será a entrada das urnas cinerárias, conduzidas pelos filhos do casal, Cristiana Locatelli Duarte e Roberto Locatelli. A celebração contará com a participação do Grupo Família Guerra e do Coral Schola Cantorum da Basílica Nossa Senhora das Dores, de Porto Alegre, responsável pelos cantos litúrgicos.
Após a missa, as urnas serão depositadas em um columbário construído no átrio da igreja, junto à entrada principal, próximo às portas de bronze. O espaço será abençoado durante a cerimônia.
O pároco da Paróquia São Pelegrino, padre Oscar Chemello, ressaltou que a presença das urnas no templo segue uma tradição existente em outras igrejas.
— Essa prática é comum em muitas igrejas do Brasil e da Europa. Em diversos locais, autoridades religiosas e também civis estão sepultadas dentro das igrejas pela importância que tiveram para a comunidade. É uma prática permitida dentro do processo legal e canônico.
No caso de Aldo Locatelli e da esposa, como eles não são santos, beatos ou sacerdotes, o espaço adequado é o átrio da igreja.
Processo envolveu autorização da família e da Diocese
A transferência dos restos mortais foi articulada pela Sociedade de Cultura e Arte Aldo Locatelli (Scala), em conjunto com a Paróquia São Pelegrino e a Diocese de Caxias do Sul. Conforme o presidente da entidade, Ivan Furlan, a ideia de trazer o artista para junto de sua principal obra era um desejo antigo.
— Há anos, gostaríamos de ter trazido o Locatelli para cá. Sempre achamos que a maior obra dele está na Igreja São Pelegrino. O padre Eugênio Giordani (1910-1985) também tinha esse sonho de trazer os restos mortais do artista para cá — contextualiza.

Segundo Furlan, a autorização da Diocese foi concedida por dom José Gislon ainda em outubro de 2025, mas havia uma condição imposta pelos filhos do casal.
— A Cristiana e o Roberto só autorizariam que os restos mortais de Aldo viessem para cá se a mãe deles viesse junto. O dom José também achou importante que o casal permanecesse unido, porque representa a história dos imigrantes italianos que vieram para cá, construíram a família, a fé, o trabalho e a cultura juntos — afirma.
A partir da autorização, foi iniciado um processo burocrático que envolveu documentação da família, autorização para exumação, licença para translado e cremação.
Os restos mortais foram exumados no Cemitério São Miguel e Almas, em Porto Alegre, e trazidos para Caxias do Sul, onde o Grupo L. Formolo realizou a cremação. As urnas foram entregues à Paróquia São Pelegrino em maio.
Além das cinzas do casal, cada urna receberá elementos simbólicos que remetem às suas origens.
— Dentro das urnas cinerárias, temos terra da Itália, de Villa d'Almè, onde Aldo Locatelli nasceu, acompanhadas de um terço. Também será colocada, dentro do columbário, uma cápsula do tempo contando toda essa história, com documentos e reportagens, para que, no futuro, quando ela for aberta, as pessoas conheçam todo esse processo — conta.
A expectativa da organização é reunir um grande público. Além de autoridades municipais, serão convidados o cônsul honorário da Itália em Caxias do Sul, Gelson Castelan, o cônsul-geral da Itália em Porto Alegre, Valerio Caruso, o governador Eduardo Leite, o secretário estadual de Turismo, Raphael Ayub, além de familiares do casal.
O artista que transformou São Pelegrino em referência da arte sacra
Nascido em 18 de agosto de 1915, em Villa d'Almè, na região de Bérgamo, na Itália, Aldo Daniele Locatelli chegou ao Brasil em 1948 e se tornou um dos principais nomes da arte sacra do país. Em Caxias do Sul, dedicou cerca de uma década à execução dos afrescos e demais pinturas da Igreja São Pelegrino, considerada sua obra-prima.
Ao longo da vida, foi acompanhado pela esposa, Maria Mercedes Biancheri Locatelli, com quem se casou durante a Segunda Guerra Mundial. Aldo Locatelli morreu em 1962. Sua esposa, em 1979.
Em novembro de 2025, a Igreja São Pelegrino foi reconhecida pela Organização Mundial de Jornalismo Turístico (OMPT) como a "igreja mural mais deslumbrante da América Latina".
Considerada sua obra-prima, a pintura na igreja levou 10 anos para ser concluída, entre 1950 e 1960. Locatelli executou um vasto conjunto de afrescos e pinturas que incluem:
- A Santa Ceia
- O Juízo Final
- A Criação do Cosmos
- A Criação da Mulher
- A Expulsão do Paraíso
- A Via-Sacra (14 telas monumentais)
- Grandes figuras de anjos e cenas bíblicas distribuídas por toda a igreja.
Entre muitos outros trabalhos, Locatelli também teve obras na Catedral São Francisco de Paula, em Pelotas; Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Conceição, em Santa Maria; Palácio Piratini e Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre; e a prefeitura de Caxias do Sul, onde produziu importantes murais relacionados à imigração italiana e ao desenvolvimento da Serra.
Programe-se
- O quê: Missa de Exéquias e deposição das urnas cinerárias de Aldo Daniele Locatelli e Maria Mercedes Biancheri Locatelli
- Quando: 1º de agosto de 2026 (sábado), às 17h
- Onde: Igreja São Pelegrino e Nossa Senhora da Pietà (Avenida Itália, 54, bairro São Pelegrino).

