
Marcado por sintomas que podem comprometer o desempenho escolar, profissional e as relações sociais, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) afeta crianças, adolescentes e adultos. No Brasil, estima-se que 11 milhões de pessoas convivam com esta condição, segundo o Ministério da Saúde. Na mesma medida em que o tema ganha cada vez mais espaço nas redes sociais e no debate público, especialistas alertam que o aumento da visibilidade deve vir acompanhado de informação qualificada para evitar tanto o subdiagnóstico quanto diagnósticos equivocados.
Celebrado em 13 de julho, o Dia Mundial de Conscientização sobre o TDAH busca ampliar o conhecimento da população sobre o transtorno e reforçar a importância do diagnóstico criterioso e do tratamento adequado. A neuropsicóloga Gabriella Pombo Casalicchio, diretora da clínica Neuro Espaço, em Caxias do Sul, esclarece as principais dúvidas sobre o TDAH, explica como diferenciar de outros quadros que podem apresentar sintomas semelhantes, e comenta os desafios impostos pelo excesso de telas, pela banalização do diagnóstico e pelos preconceitos em torno da medicação.
O que é o TDAH e quais são os principais sinais de que uma pessoa pode ter o transtorno?
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, que envolve dificuldade de atenção, impulsividade e hiperatividade. Os sinais mais comuns são desatenção, dificuldade de concentração, esquecimentos frequentes e dificuldade para concluir tarefas. Em alguns casos, há necessidade constante de se movimentar e falar; em outros, a impulsividade aparece na dificuldade de esperar a vez, controlar as próprias reações e na tendência de interromper conversas ou responder antes da pergunta terminar. Os sintomas são individuais, variam de pessoa para pessoa. Por isso o diagnóstico deve ser feito por um profissional capacitado.
É possível receber o diagnóstico somente na vida adulta?
Sim, é possível que o TDAH seja identificado na vida adulta. Na maioria dos casos, os sintomas já estavam presentes desde a infância, mas só passam a ser percebidos quando as demandas da vida aumentam e as dificuldades começam a afetar o trabalho, os estudos, os relacionamentos e a organização da rotina. Como o transtorno compromete funções executivas, como planejamento, organização, atenção e execução de tarefas, muitos adultos procuram uma avaliação em busca de autoconhecimento e de respostas para dificuldades que os acompanham há anos. Por isso, a avaliação precisa levar em conta todo o histórico de vida do paciente e testes específicos para diferenciar o TDAH de outros quadros, como ansiedade, transtornos de aprendizagem ou de personalidade.

Em que medida o acesso facilitado à informação, especialmente na internet, ajuda ou atrapalha?
Costumo dizer que esse é o ônus e o bônus da internet e do maior acesso à informação. O lado positivo é que as pessoas passaram a reconhecer melhor os sinais e a buscar ajuda, por isso conseguimos rastrear melhor o TDAH e outros transtornos, inclusive em adultos, que antes dificilmente chegavam aos consultórios. Por outro lado, as redes sociais também popularizaram conteúdos simplificados e testes rápidos, que percebo existir especialmente no TikTok, que muitas vezes estimulam o autodiagnóstico. Comportamentos como procrastinação, dificuldade de concentração e desatenção podem fazer parte do funcionamento humano ou estar relacionados à ansiedade, ao estresse, ao ritmo de vida ou a outros transtornos, e não necessariamente ao TDAH.
Quais são os tratamentos disponíveis? Existe um preconceito contra a medicação?
Existem medicamentos muito interessantes e que apresentam resultados bastante positivos em um cérebro com TDAH, contribuindo para a melhora da qualidade de vida e de funções executivas, como planejamento, organização e controle da atenção. Além da medicação, a terapia, a psicoeducação para o paciente e a família e as adaptações necessárias na escola ou no ambiente de trabalho também têm um papel essencial. Muitas vezes, a pessoa com TDAH não tem uma dificuldade cognitiva, mas sim uma dificuldade executiva, e isso pode gerar críticas, baixa autoestima e passar a sensação de que ela não se esforça.
O que ainda falta para que pessoas com TDAH sejam mais acolhidas na sociedade?
O principal caminho é a compreensão. Precisamos entender o que é o TDAH, que ele é um transtorno do neurodesenvolvimento e que aquele funcionamento cerebral diferente não é uma escolha da pessoa, nem um comportamento voluntário. A avaliação não deve servir apenas para chegar a um diagnóstico, mas também para compreender como aquele indivíduo funciona, quais são suas potencialidades, quais desafios ele enfrenta. O diagnóstico não define uma pessoa; ele abre portas para entendermos melhor aquele indivíduo e pensarmos em estratégias que favoreçam seu desenvolvimento e sua qualidade de vida.



