
Se existe a crença popular de que as relações entre cunhados costuma ser marcada por ciúme, rivalidade ou outros sentimentos que passam longe da lista das virtudes humanas, Letícia Turchetto, 25, assim como as demais pessoas que compartilham suas histórias nesta data em que se comemora o Dia do Amigo, vai na contramão do clichê.
Durante boa parte da infância, em Caxias do Sul, Letícia cumpriu um ritual diário: espiar, pela janela do quarto para a casa vizinha. A hora que a cortina se abrisse, era sinal de que a cunhada, Grasiela, que trabalhava á noite, estava acordada e que as duas poderiam, então, passar a tarde entre assistindo filmes e comendo biscoitos.
- Ela praticamente me viu nascer, era quem fazia meu penteado antes de ir para a escola. Sempre foi a minha companhia preferida e é assim até hoje. Até o meu irmão sabe que ela é mais minha irmã do que ele - ri Letícia.
Algumas das melhores lembranças que Letícia guarda da infância foram construídas no convívio com o irmão e com a cunhada, como viagens à praia, passeios no zoológico e idas às lojas de brinquedo.
- Acho que eles estavam, aquele tempo todo, me usando para treinar para serem pais _ brinca Letícia, que é também madrinha dos dois filhos de Grasiela e do seu irmão, Tiago.
Há 10 anos o convívio entre ambas deixou de ser diário e se tornou semanal, pois Letícia se mudou para Nova Roma do Sul, cidade que desde 2025 ela representa como soberana. Até nos momentos de maior expectativa gerados pelo concurso que escolheu a 15ª La Piú Bella Ragazza foi a cunhada quem ajudou a acalmá-la e quem comandou a torcida. Para Letícia, ter na família uma pessoa que é como se fosse a sua "memória viva", por ter sido desde a infância uma companhia inseparável, é um tesouro precioso:
- É a pessoa que me viu crescer, que sabe tudo da minha vida e com quem eu sei que sempre vou estar confortável e que sempre vou ter assunto para conversar.
Da infância para a vida

Os caxienses Iandra Magnabosco e Joilson Speguem são daqueles casais que se conheceram na infância, depois passaram alguns anos sem contato e foram se reencontrar e se apaixonar na vida adulta. E quem acompanhou de perto cada capítulo desta história foi Samuel, irmão mais velho de Joilson, a quem Iandra considera também um irmão.
Além do convívio diário na empresa da família, a amizade entre os cunhados envolve finais de semana no sítio, idas a bailes e encontros para comer hambúrguer, mas vai além dos momentos de diversão. Também nas horas de dificuldade um sabe que pode contar com o outro. Foi assim em 2016, quando Samuel sofreu um acidente doméstico e quase precisou amputar um dos pés. Naquele momento de angústia, Iandra fez uma promessa que depois coube também a Samuel ajudar a cumprir, como ele recorda com bom humor.
- Nunca vi uma pessoa fazer uma promessa para o outro pagar (risos). Depois de me recuperar do acidente e não ter perdido o pé, tive que acompanhá-la numa trilha de quase 20 quilômetros até um capitel. Mas como eu estava curado, só agradeci e nem reclamei - conta.
Para Iandra, o que ajuda a explicar o vínculo tão forte entre ambos é a maneira como a personalidade de um complementa a do outro. Mesmo quando discordam, o argumento que o outro oferece contribui para que as melhores decisões sejam tomadas:
- A gente sempre se entendeu muito bem, dando ao outro muita liberdade para falar sobre qualquer assunto. Eu sempre levo as coisas para um lado mais emocional, enquanto o Samuel é mais racional. Acho que isso ajuda a explicar nossa afinidade, porque a opinião do outro sempre vai ajudar a considerar um outro ponto de vista - diz Iandra.
Conexão desde a primeira conversa

Jéssica Albuquerque gosta de dizer que o "amor à primeira vista" da sua vida não foi pelo companheiro, Lucas, mas sim pela futura cunha, Daiane. Assim a caxiense, de 38 anos, resume a conexão criada já no primeiro encontro entre ambas, 12 anos atrás.
- Eu fui até a casa do Lucas para conhecer a família dele, e naquela época eu era mais inibida, por isso estava nervosa. Mas quando ele me apresentou a Daiane, foi como se já nos conhecêssemos há muito tempo: não paramos de conversar um minuto. Naquele dia eu fui buscar alguém para amar e ganhei uma irmã - resume Jéssica, que trabalha como recepcionista.
A forma espontânea como se deu a afinidade entre as futuras cunhadas surpreendeu até a própria família. Isso porque Daiane já carregava a fama de ser a irmã ciumenta, que preferia esperar pelo relacionamento se firmar antes de criar intimidade. Um símbolo de que a conexão com Jéssica se deu de forma imediata foi quando, poucos meses após aquele primeiro contato, Daiane anunciou que o casal seria padrinho da filha que ela estava aguardando.
- Foi um momento muito emocionante, e que demonstrou a confiança que ela tinha no nosso relacionamento, mesmo que ainda estivesse começando. Também fez aumentar a nossa responsabilidade em fazer certo - recorda Jéssica.
Se hoje Jéssica considera a família do companheiro como a sua segunda família, muito se deve à forma como a cunhada a recebeu, com os braços abertos. Morando perto uma da outra, mesmo com a rotina intensa elas aproveitam os finais de semana para colocar a conversa em dia. Sempre que possível, descontraem indo a alguma festa de colônia. Cada momento renova um laço tão forte que elas costumam dizer que ultrapassaria até uma eventual separação do casal.
- Tenho várias amigas que falam sobre ter relações complicadas com as cunhadas, por isso acho que é um privilégio eu ter essa relação tão próxima com a minha. Sempre que o Lucas e eu temos alguma discussão eu digo pra ele: "só não te largo por causa da Daiane" - diverte-se Jéssica.




