
O silêncio toma conta da sala. Em vez de correria, os movimentos são calculados. Cada peça deslocada no tabuleiro representa uma decisão que exige atenção, estratégia e planejamento. Para crianças e adolescentes da Serra, o xadrez deixou de ser apenas um jogo e passou a fazer parte do processo de aprendizagem.
Celebrado nesta segunda-feira (20), o Dia do Xadrez reforça os benefícios de uma modalidade que vem ganhando espaço dentro e fora das escolas. Em Farroupilha, estudantes da Escola Nossa Senhora de Caravaggio aprendem a jogar durante as aulas de Educação Física há mais de uma década.
A proposta vai além de ensinar regras e movimentos. Segundo a professora de Educação Física Lúcia da Silva de Lima, o xadrez contribui para o desenvolvimento de habilidades que fazem diferença na vida escolar e pessoal.
— O xadrez tem essa capacidade de ir além do jogo. A gente costuma dizer que ele imita a vida, porque os alunos precisam desenvolver diferentes habilidades. É um jogo que exige que realmente eles sentem, foquem, se concentrem. Então, eles vão precisar administrar toda essa questão emocional para poder colocar as estratégias, os golpes táticos em ação — explica.
Entre os estudantes, os motivos para jogar são diferentes. Gabriela Ávila, de 14 anos, começou por influência do irmão, que foi campeão de xadrez na escola. Hoje, ela associa o esporte às lembranças da família.
— O xadrez me traz uma sensação de conforto porque me lembra dos momentos bons que vivi com o meu irmão. O principal ensinamento do xadrez é que a gente não vai ganhar sempre. Quando eu perco, o xadrez me ensina que, se eu tentar de novo e me esforçar mais, posso chegar mais longe.
Já Bruno Pasa, também de 14 anos, acredita que o jogo contribuiu para melhorar o raciocínio lógico e até o desempenho em matemática.
— Normalmente eu fico concentrado, bravo quando entrego alguma peça. Normalmente eu fico muito ansioso também, nervoso. O xadrez significa bastante coisa pra mim. Melhora o raciocínio lógico e memória. Acho que também por causa dele eu sou bom em matemática. É bem legal.
Além das competições, a escola busca garantir que todos possam participar das partidas. Meninos e meninas jogam juntos, e alunos com necessidades específicas também integram as atividades.
— Eu sou muito feliz porque o xadrez ele traz essa sensação de superação consigo mesmo. A gente desmistificou também a questão de que o xadrez é difícil, que o xadrez é só para pessoas muito inteligentes, muito habilidosas... E não, a gente vê todo mundo conseguindo jogar xadrez — finaliza a professora.
Casa Anjos Voluntários oferece oficinas
Em Caxias do Sul, o tabuleiro também se tornou um espaço de aprendizado. Na Casa Anjos Voluntários, crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade participam semanalmente de oficinas de xadrez, onde aprendem estratégias do jogo e desenvolvem habilidades que se refletem no dia a dia. Para o professor Marco Antônio Sangalli, a modalidade vai muito além da competição.
— O xadrez significa cultura, estudo e valores. É um jogo de muito respeito, em que, acima de tudo, se busca a vitória, mas sempre da forma mais ética e correta possível.
Os reflexos aparecem dentro e fora das partidas. Yasmin de Oliveira, de 12 anos, conta que passou a se concentrar melhor nas atividades escolares e percebeu melhora no raciocínio e no desempenho em matemática.
— Ah, é inovador, assim, descobrir coisas novas, às vezes o professor passa várias coisas para a gente ir melhorando a nossa forma de jogo e também melhora bastante a minha concentração na escola e também no raciocínio. Xadrez também é matemática, então eu melhorei bastante também nessa matéria.
Já Erik Cardoso, também de 12 anos, pratica xadrez há mais de três anos. Para ele, o maior aprendizado foi desenvolver a paciência.
— Eu aprendi que, de pouquinho em pouquinho, a gente vai conseguindo jogar. O xadrez me ensinou a ser mais rápido com contas, aprendi a ter mais paciência. Eu era muito irritado, mas agora já deu uma melhorada, graças ao xadrez.
Mais do que tudo, o objetivo das oficinas vai além de formar bons enxadristas. A proposta é estimular habilidades como concentração, disciplina, respeito e tomada de decisões, mostrando que os aprendizados do tabuleiro podem acompanhar os alunos em diferentes momentos da vida.



