
"Nós estávamos trabalhando em um prédio onde havia 14 vítimas. Dessas, conseguimos localizar apenas sete e, infelizmente, todas sem vida." Esse é um dos vários relatos do bombeiro voluntário caxiense Salatiel Slongo, que desde sexta-feira (3) auxilia no resgate de vítimas do terremoto que atingiu La Guaira, na Venezuela, no dia 24 de junho.
Salatiel está atuando ao lado de outros colegas gaúchos da Associação Estadual dos Bombeiros Voluntários (Voluntersul) e de equipes do México, da Argentina e do Chile. As buscas e os resgates são realizados diariamente.
— Nós dividimos os grupos por células. Na minha célula, estamos eu, outro brasileiro, um mexicano, uma argentina e um chileno. Não temos como ficar caminhando de um lado para o outro, porque são muitos prédios. Ontem (segunda-feira), estávamos trabalhando em um deles, onde havia 14 vítimas. Dessas, conseguimos localizar apenas sete e, infelizmente, todas sem vida. Inclusive, foi retirada uma família inteira. Eles estavam juntos, abraçados: pai, mãe, uma filha e um filho. E as buscas continuam — contou Salatiel.
Pelas dificuldades de acesso, os trabalhos demoram mais do que o esperado. Ainda assim, há esperança de encontrar sobreviventes, como ocorreu em uma das ocorrências atendidas por Salatiel, em que uma vítima foi encontrada presa na garagem de um prédio.
— Durante a remoção dos escombros, juntamente com as máquinas, sempre precisa haver uma equipe de resgate, porque, às vezes, encontramos pessoas vivas. Em um dos prédios foi localizada uma vítima que estava na garagem. Pela profundidade, ninguém conseguiu ouvi-la, e ela já estava bastante desidratada, sem forças para pedir socorro. Mesmo assim, foi localizada. Então, ainda há chances. A nossa expectativa é encontrar pessoas com vida, e quanto mais, melhor — destacou.
Contudo, a tristeza e o desespero das famílias são evidentes. Muitas permanecem por horas acompanhando os resgates, agarradas à fé de encontrar um ente querido.
— Nosso ponto de trabalho fica próximo de Playa Grande. Muitos moradores passam por aqui, deixam seus telefones caso encontremos algum parente ou permanecem em frente aos prédios esperando as equipes retirarem os corpos. Alguns encontram fotos, documentos e os deixam na frente das casas. Teve um caso em que encontramos fotos e diplomas. Infelizmente, para aquela pessoa, a história dela acabou ali — relatou.

A previsão é de que a equipe gaúcha retorne no dia 11 de julho. Salatiel destacou que as temperaturas elevadas também dificultam os trabalhos, tornando necessário atuar durante a madrugada. Além disso, reforçou que o trabalho exige muito mais da resistência mental do que da física.
— Algumas pessoas podem até achar que é pouco tempo, mas, para o nosso corpo, é muito desgastante. Muitas vezes, os trabalhos avançam pela madrugada, porque o clima é mais ameno e temos um rendimento melhor, além de sofrermos menos com a desidratação. Apesar de conseguirmos dormir e nos alimentar, o psicológico fica muito abalado. Trabalhar aqui por uma semana é mais difícil do que trabalhar durante meses em outras ocorrências — refletiu.
A próxima equipe deve chegar alguns dias antes do retorno do grupo gaúcho e dará continuidade aos trabalhos.
União e agradecimento

O bombeiro voluntário também relatou o reconhecimento da população local, que demonstra gratidão pelo trabalho das equipes e oferece ajuda constantemente.
— As pessoas passam de carro nos oferecendo comida e água, agradecendo, aplaudindo. Pessoas já de idade nos dão bênçãos, oram por nós e agradecem o nosso trabalho. É comovente ver as pessoas pedindo ajuda e, ao mesmo tempo, demonstrando tanta gratidão — disse.


