
Descascar, cortar, mexer a panela e, de vez em quando, até provar um pedaço da fruta. Entre uma tarefa e outra, crianças de cinco e seis anos se revezam para produzir geleias de bergamota na Companhia do Carinho, escola de Educação Infantil da Rede Caminho que fica no bairro Desvio Rizzo, em Caxias do Sul. O que parece apenas uma atividade culinária faz parte de um projeto pedagógico que reúne conhecimentos de ciências, matemática, empreendedorismo e termina com uma lição de solidariedade.
Depois que a geleia atinge o ponto certo, os pequenos pesam o produto, enchem os potes, colocam as etiquetas e se organizam como em uma pequena linha de produção. Cada um assume uma função.
— Eu estava colocando as etiquetas embaixo do pote, o Beni estava tampando e o Mateus estava vendo o peso — conta o aluno Théo de Lima Leiser, cinco anos, orgulhoso da tarefa que desempenhou.
Há mais de 20 anos, bergamoteiras fazem parte da paisagem da escola. O que antes rendia apenas frutos passou a inspirar um projeto interdisciplinar.
Segundo a coordenadora pedagógica, Bruna Murialdo Fávero, uma simples árvore abriu espaço para diferentes aprendizagens.
— Apesar de serem da Educação Infantil, eles trabalham química, biologia, natureza e aprendem sobre o cultivo, a fruta e a estação do ano. Também percebemos mudanças na alimentação. Algumas crianças passaram a comer bergamota por causa do projeto e começaram a trazer mais frutas para os lanches — afirma.
O aprendizado também acontece na prática. Durante a produção, conceitos de peso, medida, quantidade e números são apresentados de forma concreta.
— Enquanto acompanham a receita, eles observam a mudança da consistência da geleia e entendem todo o processo. É um aprendizado muito natural — explica a coordenadora administrativa, Franciele Costella.
O envolvimento começa antes mesmo da cozinha. As crianças participam da colheita das bergamotas, com o auxílio dos adultos, e acompanham todas as etapas da produção.
Mas o destino das geleias é o que dá um significado ainda maior ao projeto. Os potes são trocados por alimentos não perecíveis, que depois são destinados a famílias em situação de vulnerabilidade.
— A gente está fazendo essa geleia para distribuir para pessoas que não têm comida. Cada pessoa traz um alimento para a gente dar para elas — explica a estudante Antonella de Lucena Massochin, também de cinco anos.
Para Théo, o objetivo também está claro.
— Nós vamos vender a geleia para ganhar comida. Dá para quem não tem comida — resume. Ao ser perguntado como se sente ajudando outras pessoas, responde: "Feliz".
Para Bruna, a maior conquista vai além da produção das geleias.
— Acredito que a gente plantou a sementinha da solidariedade e da sustentabilidade para que eles floresçam no futuro. Foram aprendizagens que ultrapassaram o projeto e passaram a fazer parte da vida das crianças — avalia.
Quem participa da troca também percebe esse impacto. A empresária e mãe de aluno, Caroline Fogaça de Lima, que levou três potes de geleia para casa, afirma que o projeto ensina valores.
— Esse sentimento de poder ajudar as pessoas, de ser mais do que alguém que vai para a escola todos os dias, faz muita diferença. Como mãe, ver isso acontecendo dentro da escola toca muito o coração.



