
Práticas de capacitação, governança, perfil dos agressores e prevenção aos feminicídios no Rio Grande do Sul foram os temas centrais do 1º Seminário Regional — Masculinidades, Prevenção e Enfrentamento aos Feminicídios promovido pelo governo do Estado do Rio Grande do Sul, em parceria com a Universidade de Caxias do Sul, no UCS Teatro, nesta quarta-feira (10).
O encontro ocorre em um momento em que o Rio Grande do Sul registra 38 casos de feminicídios consumados em 2026.
O primeiro painel do evento apresentou o retrato do autor de violência contra a mulher no sistema prisional. A professora e doutora em Direito Joice Graciele Nielsson detalhou a pesquisa conduzida por ela e uma equipe de doutorandas, mestrandas e graduandas na Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí). No estudo, 80 homens presos por crimes contra a mulher foram entrevistados e tiveram os perfis mapeados pelas pesquisadoras.
Ao todo, até o último levantamento apresentado pela pesquisa, em 20 de março de 2026, eram 6.554 homens presos por crimes de violência contra a mulher. Para se ter uma ideia, em novembro de 2025 foram 5.575. Ou seja, 979 presos a mais em apenas quatro meses.
— A taxa de aprisionamento por crime de violência contra a mulher é maior do que a taxa de aprisionamento geral, com relação a outros crimes. A maioria (dos presos) vai ser por descumprimento de medida protetiva, o que nos chama a atenção. A gente está prendendo e não está sendo o suficiente porque, também, os índices de violência estão aumentando — aponta a professora Joice Nielsson.
Conforme o estudo, a maioria dos entrevistados (56,25%) afirmaram já ter histórico de violência doméstica. Os homens narram que já foram denunciados e já foram para a delegacia, por exemplo. 31% dos entrevistados afirmou já ter praticado outro tipo de crime (roubo, tráfico de drogas, etc).
O contexto dos crimes
As entrevistas apresentaram um dado preocupante para a rede de saúde: 43% dos homens agressores afirmam que consumiam constantemente álcool. 17% deles relatou o consumo constante de drogas. No contexto dos crimes, 33% dos homens afirmaram que o álcool estava presente no momento do ato.
— A gente considera esse dado muito importante para pensar a política pública, a atuação. Para pensar se é efetivo no rompimento desse ciclo — provocou a pesquisadora.
Além disso, foram analisados os históricos familiares dos agressores. 43% deles viveu em um contexto familiar com pai e mãe presentes e 17% apenas com a mãe. Do total, 70% dos homens afirmou que viveu algum nível de conflito ou vulnerabilidade na infância.
— Dos 30% que não relatam vir de lares violentos, eles nos dizem "na minha casa nunca teve violência, só discussão, só alguma briga". E começamos a perceber que essa percepção de que não há violência nos seus lares de origem diz respeito, muitas vezes, a não existência de agressão física. Eles dizem: "não teve violência, minha mãe sempre corria, ela nunca apanhou" ou "antigamente tinha muito mais respeito, a minha mãe ficava quieta". Portanto, esse modelo de um lar e de uma família estruturada hierarquicamente sob a submissão e o silenciamento da mãe não é lido por eles como um lar violento — explica Joice.
Impacto nas famílias
Apenas entre os 80 homens entrevistados pela pesquisa, 234 filhos foram diretamente impactados pela violência doméstica, uma média de mais de dois filhos por caso.
35% dos filhos presenciaram os atos de violência contra a mulher e 11% deles foram vítimas diretas ou vicárias (nova tipificação do Código Penal que descreve o assassinato de descendentes, ascendentes, dependentes, enteados ou pessoas sob guarda de uma mulher para causar-lhe sofrimento).
— Na maioria das vezes, a gente não faz nada sobre esses sujeitos. Eles acabam chegando na rede de infância, mas não de forma integrada. Agora, a gente começa a falar de órfãos do feminicídio. Muito ainda de forma incipiente, mas se a gente quiser pensar em reduzir esse ciclo da violência, precisamos de política pública integrada e que a rede de infância — afirma.
Masculinidades e estereótipos de gênero como fundamentos da violência
As entrevistas com os 80 homens presos por violência contra a mulher apresentaram um contexto de reforço da masculinidade e do estereótipo de gênero.
— Durante a conversa, de forma muito presente, o homem está perdendo a autoridade da casa. Tem uma frase "a responsabilidade da casa era toda comigo. Nossos filhos, sim, só ficavam com ela". O que é a responsabilidade da casa? Qual é o lugar dos filhos? Em um caso de feminicídio, ele fala que "ela nunca tinha falhado como esposa, mas queria passar mais tempo fora de casa". Ele narra que ela seria promovida a gerente, portanto ela teria que passar a semana inteira num outro local — destaca a professora.
De acordo com Joice, a perda do lugar, historicamente masculino, de provedor da casa pode ser um gatilho para a violência.
— Eles consideram o papel de prover um lugar que dá esse poder. O momento em que ela vai trabalhar, em que ela sai desse lugar, que ele considera um lugar que lhe dá honra e que lhe dá poder de sustentar, percebemos que tem um gatilho muito importante para uma situação que possa se agravar.
Responsabilidade pelo crime
90% dos entrevistados não se reconhecem como autores da violência. De acordo com Joice, boa parte desses homens não reconhecem a existência da violência, quando não há marcas físicas. No caso dos feminicídios, boa parte dos autores tenta culpar a própria vítima.
— Ela morreu, não está mais aqui, mas ela é responsável por ter morrido, por eu estar aqui sofrendo. Ou, então, não teve agressão, só discussão. Esse é o caso emblemático porque, de fato, eles não reconhecem como violência muitas práticas que, para nós, são violência — relata.
De acordo com a pesquisadora, grande parte dos presos não se vê como um criminoso no mesmo nível de traficantes e assaltantes, por exemplo.
— Eles dizem "eu estou aqui por causa dela, ela é maluca, só fui me defender, ela me deixou nervoso, ela me traiu". Dizem "eu não sou o bandido que entra e sai da cadeia". Eles, inclusive, se veem de forma diferente dos demais presos — analisa.
A importância de grupos reflexivos

Em outro painel, mas complementando os dados apresentados pela professora Joice Nielsson, a importância e o trabalho desenvolvido pelos grupos reflexivos para homens que cometeram agressões foram detalhados pelo juiz da Vara Especializada em Violência Doméstica da Comarca de Caxias do Sul, Filipe de Almeida Lemos; pela psicóloga do TJ-RS, Nathalia Matos Pereira, pela assistente social no TJ-RS, Lívia Seeling Segui e pela juíza de Direito da Comarca de Canela, Simone Ribeiro Chalela.
Na linha de frente dos grupos em Caxias do Sul, Nathalia e Lívia detalharam de que forma o trabalho é realizado com os homens. Segundo elas, os primeiros encontros tem o objetivo de provocar a reflexão sobre ser homem, masculinidade e o que é violência.
— Os estudos mostraram que não adianta apenas punir. O homem comete uma violência e se tem apenas a punição, ele vai voltar a cometer violência. Então, é necessário esse espaço de reflexão e responsabilização — diz Lívia.
Conforme as profissionais, os grupos possibilitam que os agressores possam compreender o que é um ato violento, para além da agressão física, e de que forma podem agir diferente.
— A gente fala muito sobre masculinidades. O homem traz para uma caixa de que ele tem que ser forte, não pode chorar, tem que aguentar tudo sozinho, que não pode buscar ajuda. E a gente apresenta uma outra possibilidade, onde é possível o respeito, o acolhimento, a escuta, a demonstração de sentimentos. Poder perceber os próprios sentimentos também e lidar com as suas próprias emoções — relata.
CUFA e Banrisul Cultural lançam campanha de combate à violência contra a mulher
Neste final de semana, a Central Única das Favelas do RS e o Banrisul Cultural iniciam a veiculação da campanha “O Rio Grande do Sul diz não à violência contra a mulher e ao feminicídio”.
As entidades promoverão atividades que dialogam diretamente com as comunidades, especialmente em territórios de maior vulnerabilidade social. Entre as entregas, estão previstas a realização de 300 iniciativas, incluindo programas de qualificação profissional voltados para mulheres e iniciativas descentralizadas de geração de renda e autonomia financeira.
Além disso, uma pesquisa sobre a temática, com coleta de dados em todo o Estado será feita e uma cartilha que reunirá informações, dados e orientações sobre prevenção e enfrentamento da violência contra a mulher será produzida. A expectativa é de que as ações devam impactar mais de 100 mil pessoas.
Como pedir ajuda
Brigada Militar – 190
- Se a violência estiver acontecendo, a vítima ou qualquer outra pessoa deve ligar imediatamente para o 190. O atendimento é 24 horas em todo o Estado.
Polícia Civil
- Se a violência já aconteceu, a vítima deverá ir, preferencialmente à Delegacia da Mulher, onde houver, ou a qualquer Delegacia de Polícia para fazer o boletim de ocorrência e solicitar as medidas protetivas.
- As ocorrências também podem ser registradas em outras delegacias. Há DPs especializadas no Estado. Confira a lista neste link.
Delegacia Online
- É possível registrar o fato pela Delegacia Online, sem ter que ir até a delegacia, o que também facilita a solicitação de medidas protetivas de urgência.
Central de Atendimento à Mulher 24 Horas – Disque 180
- Recebe denúncias ou relatos de violência contra a mulher, reclamações sobre os serviços de rede, orienta sobre direitos e acerca dos locais onde a vítima pode receber atendimento. A denúncia será investigada e a vítima receberá atendimento necessário, inclusive medidas protetivas, se for o caso. A denúncia pode ser anônima. A Central funciona diariamente, 24 horas, e pode ser acionada de qualquer lugar do Brasil.
Defensoria Pública – Disque 0800-644-5556
- Para orientação quanto aos seus direitos e deveres, a vítima poderá procurar a Defensoria Pública, na sua cidade ou, se for o caso, consultar advogado(a).
Centros de Referência de Atendimento à Mulher
- Espaços de acolhimento/atendimento psicológico e social, orientação e encaminhamento jurídico à mulher em situação de violência.
Ministério Público do Rio Grande do Sul
- O Ministério Público do Rio Grande do Sul atende o cidadão em qualquer uma de suas Promotorias de Justiça pelo Interior, com telefones que podem ser encontrados no site da instituição.
- Neste espaço, é possível acessar o atendimento virtual, fazer denúncias e outros tantos procedimentos de atendimento à vítima. Para mais informações clique neste link




