
De quatro em quatro anos, o álbum de figurinhas da Copa do Mundo mobiliza crianças, adultos e famílias inteiras que buscam completar as páginas com os adesivos dos jogadores das seleções. Os encontros para trocar as repetidas são muito comuns nessa época, mas, segundo os pais, desafiam os mais tímidos a socializar para conseguir o adesivo faltante.
Ao mesmo tempo, a demora para completar o álbum, que tem 980 figurinhas, e a ansiedade para abrir os pacotinhos e encontrar as imagens de craques como Messi e Mbappé tomam conta das crianças. Além disso, há a frustração de não encontrar o jogador que estava esperando.
Mas como lidar com esses sentimentos que podem surgir? De acordo com a psicóloga caxiense Fernanda Michelin, eles podem aparecer, mas não precisam ser eliminados de forma rápida e a qualquer custo:
— Muito pelo contrário, eles fazem parte da própria experiência e do desenvolvimento infantil. A criança vai aprendendo, aos poucos, que nem tudo vai acontecer no tempo que ela quer, que existe um tempo de espera. Que é necessário, às vezes, várias tentativas para conseguir conquistar aquilo que se deseja. Também que existe um processo de negociar para conseguir.
Nesse momento, pode ser difícil, também, para os pais aceitarem e entenderem que é preciso deixar com que o filho se frustre e aprenda a lidar com esse sentimento. Por isso, conforme a psicóloga, é papel dos responsáveis oferecer apoio e ajudar a nomear e elaborar aquilo que a criança está sentindo.
— O grande ponto é a questão de permitir que a criança se frustre, que eu acho que é um dos maiores desafios da parentalidade hoje. Permitir entender que nem toda frustração vai, necessariamente, causar um trauma. Muito pelo contrário, a gente precisa aprender a se frustrar, porque ao longo da nossa vida, no nosso desenvolvimento, a gente se depara com muitas frustrações. E uma das grandes problemáticas é não saber lidar com isso — analisa Fernanda.
Experiência importante para o desenvolvimento
Apesar de parecer uma atividade simples, a troca de figurinhas pode ser benéfica para ajudar a criança na tolerância à frustração, na paciência e na capacidade de lidar com as próprias expectativas. Conforme Fernanda, a troca envolve habilidades sociais importantes, como negociar, esperar a vez, compartilhar, lidar com perdas e ganhos.
— Tem também a questão de perceber os outros e de lidar com essa negociação, entender que a outra criança também quer completar o álbum, que não é porque ela tem uma figurinha que necessariamente vai me dar. Tem toda uma questão de habilidade social que tem muito potencial para se desenvolver nessas trocas — observa.
Por isso, é importante permitir que as crianças lidem com os desafios, até conseguir conquistar o seu objetivo, que é completar o álbum de figurinhas. Conforme a psicóloga, isso será benéfico para o desenvolvimento:
— Todas essas experiências, ao longo do processo de desenvolvimento, podem contribuir para que os adultos sejam mais flexíveis emocionalmente, tenham mais capacidade de persistir diante de uma dificuldade e de lidar com situações que não acontecem exatamente da maneira que se quer.



