
Quando nasce um bebê, nasce uma mãe. O ditado popular circula em posts de redes sociais e se espalha em campanhas de marketing, especialmente às vésperas do principal dia para elas: o segundo domingo de maio. O que a frase não revela é o processo de construção da mulher a partir deste novo título.
Para uma parcela considerável delas, a maternidade vem em uma esteira de dúvidas, culpas e a perda da identidade. Em meio a tantas mudanças e a tarefa de cuidado, é fácil esquecer dos próprios gostos, deixar atividades de lado ou, ainda, riscar da agenda as tarefas de autocuidado, como um banho mais demorado, por exemplo.
A realidade é que a mulher de antes não vai embora, mas, sim, é transformada — por mais clichê que a constatação possa soar. A fusão mãe — bebê é natural e esperada, especialmente nos primeiros meses após o nascimento da criança. Entretanto, para a psicóloga Érica Paloschi, é preciso que aos poucos as mulheres façam um resgate de si próprias, deixando de lado pressões e julgamentos sociais.
— No momento em que o filho nasce, a mulher renasce. A partir da maternidade, vai se constituindo uma nova identidade. Porém, muitas pessoas entendem isso como uma sentença, que será péssimo dali para frente, que a mulher vai se perder, vai ser somente mãe. Mas costumo trazer um outro ponto de vista, de que essas mudanças podem ser muito boas. A maternidade também traz muitos atributos, muitas habilidades, que podem ser positivas até para a profissão dela, por exemplo — enfatiza a psicóloga.
Um primeiro passo para se reencontrar neste processo, como sinaliza a profissional, é estabelecer pequenas metas diárias, acionar a rede de apoio (seja familiar ou paga) e lembrar-se que os hobbies ou momentos de autocuidado não precisam ser produtivos. Outra recomendação é evitar as comparações com postagens em redes sociais.
Um dos primeiros passos é ter uma compassividade com a minha vida, o meu contexto. Entender o que eu posso fazer com as ferramentas que eu tenho
— Temos que pensar que muitas vezes as pessoas têm outros recursos e redes de apoio que talvez não se encaixem na nossa realidade. Então, um dos primeiros passos é ter uma compassividade com a minha vida, com o meu contexto. Entender o que eu posso fazer com as ferramentas que eu tenho. Eu falo muito para as mães no puerpério: "o que você pode fazer exclusivamente por ti essa semana?". Talvez um banho mais demorado, sair para pintar as unhas ou tomar um café sozinha. Passos graduais, porque se nos propormos a fazer muitas coisas vamos acabar nos frustrando e desistindo — recomenda.
Dedicar um tempo para si após a maternidade não é futilidade. Pelo contrário, é questão de saúde, segundo Érica. A psicóloga explica que a prática de atividades de lazer e esportivas, aliada ao acompanhamento psicoterápico, funciona como prevenção para o adoecimento psíquico materno, como a depressão pós-parto.
Segundo o Ministério da Saúde, os sintomas típicos da condição são melancolia intensa, desmotivação profunda e ausência de forças para lidar com a rotina. Outro sinal de alerta é a dificuldade de vínculo com o bebê.
"Eu sou maior exemplo que posso dar pra ela"

A carreira nunca foi um ponto negociável na vida da caxiense Marina Vial Felippi, 42 anos. Desde a adolescência, ela foi incentivada pela família a conquistar a independência financeira. Formada em biologia, foi na empresa do pai, anos mais tarde, que encontrou o caminho profissional, no setor administrativo.
Assim, quando Aurora nasceu, há quase quatro anos, Marina sabia que teria que encontrar formas de equilibrar os inúmeros pratinhos: o casamento, a vida profissional, as amizades e as atividades físicas e de lazer.

A base para uma maternidade mais leve e com espaço para cuidados consigo mesma, na opinião dela, é a organização:
— Desde o terceiro, quarto mês, eu fiz toda uma logística fundamentada em três pilares: organização, rotina e previsibilidade. Eu estudei, me informei, não deixei as coisas acontecerem. E, se acontecer alguma coisa, eu tenho uma segunda opção, uma carta na manga — revela, acrescentando:
— Claro que na vida profissional e na vida pessoal nada é 50%. Tem semanas em que é 80% trabalho e 20% maternidade. Em outras, é 100% para a criança. Temos que ter um discernimento emocional do que é prioridade naquele momento — confidencia Marina.
As viagens sozinha com o marido, os encontros com as amigas e a prática de exercícios físicos na academia são essenciais para que ela mantenha uma relação feliz e saudável com a filha.
Eu penso que eu sou maior exemplo que eu posso dar pra ela. E se eu não estiver feliz, vai refletir nela de alguma forma.
MARINA VIAL FELIPPI
— Eu penso que eu sou maior exemplo que eu posso dar pra ela. E se eu não estiver feliz, vai refletir nela de alguma forma. Claro que em alguns momentos a gente se culpa, reflete, mas eu e meu marido procuramos ter muito tempo de qualidade com ela: buscamos na escola, damos banho, janta, vemos algum desenho juntos e, no fim de semana, ela é sempre a prioridade — diz.
O respiro no convívio com os amigos

A maternidade chegou na vida da Juliana Adami Modelski em um momento em que ela caracteriza como de maturidade. Com a carreira estabelecida como executiva e presenciado o crescimento de uma afilhada, se sentiu pronta para ser mãe aos 38 anos. Logo na primeira tentativa, engravidou de Joanna, agora com seis anos.
— Foi incrível! Eu me descobri mãe e de certa forma até me arrependi de não ter sido antes — diz ela, que atua como estrategista de marketing e branding.
O segundo filho, Pedro, veio dois anos depois. Para ela, sensação de desconexão consigo mesma foi experenciada de forma sutil, especialmente nos primeiros meses do nascimento das crianças.
Quando tu tens a essência de trabalhar, de conquistar o que é teu, a maternidade te transforma como profissional.
JULIANA ADAMI MODELSKI
Estrategista de Marketing e Branding e mãe de duas crianças
— Acredito que é natural, inclusive diante das relações hormonais, perdermos um pouco da nossa identidade, porque temos um ser humano que depende totalmente de nós para sobreviver. Mas, quando tu tens a essência de trabalhar, de conquistar o que é teu, a maternidade te transforma como profissional. No trabalho, tu precisas ser muito mais resolutiva, mais organizada, tu começas a ser mais pragmática — opina.
O respiro na rotina filhos — trabalho é encontrado no convívio com diferentes grupos de amigos. Um dos círculos de Juliana tem mais de 20 anos de história e é formado por 14 mulheres.
— Essa relação duradoura de amizade é o que me faz, ora me identificar e ora ser uma válvula de escape, onde eu penso "opa, aqui eu não quero pensar nos problemas do trabalho, não quero pensar nos problemas de casa". É onde quero ter qualidade de vida que não seja só esses dois núcleos (carreira e família) — enfatiza.
Nesta dinâmica, as conversas em aplicativos de celular são um suporte diário, mas Juliana reforça que não abre mão de encontros presenciais com as amigas, pelo menos uma vez por mês.
— É maravilhoso, dá um outro gás pra viver o dia a dia. E, às vezes, nem surgem assuntos de maternidade nesses encontros. Falamos de outras coisas e parece que furamos um pouco a bolha, sabe? — finaliza.




