O futuro do serviço de táxi-lotação em Caxias do Sul voltou ao centro do debate após a decisão do Conselho Municipal de Mobilidade que prevê a extinção da modalidade. Em meio à incerteza sobre o modelo, o histórico do sistema ajuda a entender como ele surgiu e se consolidou na cidade, especialmente no início dos anos 2000, quando chegou a transportar cerca de 300 mil passageiros por mês.
A ideia de um transporte intermediário entre o ônibus e o táxi começou a ser discutida ainda na década de 1980. Em 1987, durante a gestão do então ex-prefeito Victório Trez (PMDB), o secretário de Transportes João Carlos Berti apresentou a proposta dos chamados “táxi-locais”. O projeto não avançou naquele momento.
A proposta em Caxias do Sul também teve como referência o modelo já adotado em Porto Alegre, pioneira no Estado na implantação do táxi-lotação. Em 1990, o então secretário substituto da Secretaria Municipal dos Transportes da capital, Luis Carlos Bertotto, colocou a estrutura da cidade à disposição para análise do sistema. À época, Porto Alegre transportava cerca de dois milhões de passageiros por mês com 430 micro-ônibus, em um total de 106 mil viagens.
Nos anos seguintes, a discussão ganhou força em Caxias. Em 1992, o vereador Zoraido Silva (PDS) apresentou um projeto para instituir o serviço, mas a proposta não avançou no Executivo. Em 1995, já no governo do ex-prefeito Mário Vanin (PDS), a iniciativa foi novamente barrada por questões legais, devido ao vício de origem, já que a criação do serviço era atribuição exclusiva do Executivo.
Foi apenas no fim da década de 1990 que o projeto começou a se concretizar. Em 1998, na gestão do ex-prefeito Pepe Vargas (PT), o Executivo encaminhou à Câmara o projeto para implantação do táxi-lotação. A proposta previa um sistema voltado a usuários que não tinham acesso fácil ao transporte coletivo, mas buscavam uma alternativa mais ágil que o ônibus. Entre os objetivos estavam reduzir o número de carros nas ruas e oferecer viagens mais rápidas, com embarque e desembarque sob demanda.
Na época, o então secretário municipal de Trânsito, Juliano De Ros, conduziu a formatação do sistema. O projeto previa linhas-piloto em diferentes regiões da cidade, incluindo trajetos ligando a Universidade de Caxias do Sul (UCS), a área central, bairros e o aeroporto. Também foi estabelecido um limite para a frota: até 10% do total de ônibus do transporte coletivo, o que representava cerca de 20 veículos.
Em setembro de 1999 foi realizada uma audiência pública para apresentação do edital de licitação. No fim daquele ano, 60 interessados retiraram o edital para operar o serviço, disputando 22 vagas, sendo 16 para pessoas físicas e seis para jurídicas. Os permissionários foram definidos por meio de critérios técnicos e passaram a operar o sistema de forma autônoma.
Início da operação
O serviço começou a circular em agosto de 2000. Inicialmente, cinco micro-ônibus entraram em operação, de um total previsto de 16. A tarifa foi fixada em R$ 1,25, acima do valor do transporte coletivo, que na época era de R$ 0,70.
Os veículos tinham capacidade para 19 passageiros e não permitiam ninguém em pé. Entre os diferenciais estavam ar-condicionado, som ambiente e sistema de cobrança eletrônico. O condutor também era responsável por receber o pagamento.
Os primeiros roteiros incluíam linhas como Shopping Martcenter/UCS, Rio Branco/Lourdes e Aeroporto/Pio X. A frequência variava entre 12 e 30 minutos, dependendo da linha.

Um dos principais atrativos era a flexibilidade: fora da área central, o embarque e desembarque podiam ser feitos em qualquer ponto do trajeto, conforme a solicitação do passageiro. No Centro, no entanto, havia restrições para organização do trânsito.
A estreia oficial do serviço ocorreu em 6 de setembro de 2000, com funcionamento das 6h30min às 22h30min. Na fase inicial, dois micro-ônibus, identificados pela cor azul (os chamados "azuizinhos"), atendiam o itinerário Rio Branco/Lourdes, com ponto de partida entre a Rua Bom Pastor e a Avenida Rio Branco, nas proximidades da Intral, e retorno na Rua Rodrigues Alves, no bairro Lourdes. A operação foi gradualmente ampliada nos dias seguintes, com a inclusão de novos veículos e rotas.

Poucos meses após o início da operação, o sistema passou por ajustes que impactaram diretamente a demanda. Em janeiro de 2001, a tarifa foi reduzida de R$ 1,25 para R$ 1, medida que resultou em aumento significativo no número de passageiros. Em algumas linhas, o crescimento chegou a 100%, com a média diária saltando de cerca de 140 para quase 300 usuários por veículo.
Nos primeiros anos, o sistema registrou crescimento rápido. Inicialmente, cada veículo transportava cerca de 21 mil passageiros por mês. Com a ampliação das linhas e da demanda, esse número se estabilizou em cerca de 13 mil usuários por táxi-lotação, totalizando aproximadamente 300 mil passageiros mensais no conjunto do sistema.
Com o aumento do fluxo, também surgiram ajustes operacionais. Em setembro de 2002, a prefeitura determinou a criação de 22 pontos fixos de parada na área central, especialmente na Avenida Júlio de Castilhos e ruas próximas ao antigo calçadão. A medida buscava reduzir impactos no trânsito, já que as paradas livres dificultavam a circulação de veículos.
À época, o então secretário de Transportes Edson Marchioro justificou a mudança com base em reclamações de congestionamentos. A associação dos permissionários reconheceu a necessidade de adaptação e destacou que o sistema passava por melhorias contínuas.

O serviço também se expandiu em número de linhas, passando de duas rotas iniciais para cerca de 20 itinerários distribuídos em quatro principais trajetos: Rio Branco/Lourdes, Ana Rech/São Pelegrino, Shopping Iguatemi/UCS e Aeroporto/Ana Rech.
Modelo em discussão
Mais de duas décadas depois, o táxi-lotação enfrenta um cenário diferente. Segundo o secretário municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade, Elói Frizzo, a redução no número de veículos, a queda na participação dentro do sistema de transporte coletivo e questionamentos sobre a regularidade dos contratos levaram à decisão recente de encerrar o modelo atual. Apesar disso, a prefeitura afirma que estuda alternativas para manter o serviço em novo formato.
A Câmara de Vereadores de Caxias do Sul aprovou na semana passada o pedido de informações, de autoria de Capitão Ramon (PL), a respeito da extinção do serviço de táxi-lotação na cidade. A prefeitura terá 30 dias para responder questionamentos, como se houve consulta pública relacionada à medida, o que será adotado para suprir a demanda e se haverá algum modal alternativo.
O debate em torno do futuro dos táxis‑lotação de Caxias também vai ser tema de audiência pública na Câmara. A Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana (CTMU), presidida pelo vereador Bortola (PP), já marcou a data. Será no dia 7 de maio, às 19h.
