
Uma renda extra para produtores da Serra, o pinhão nesta safra anda escasso em diversas propriedades da região. Mesmo nas cidades que devem pelo menos repetir a colheita do ano passado, o início ainda é preocupante, como relatam os coletores no primeiro mês.
Por lei, a colheita é permitida a partir de 1º de abril. Para a safra de 2026, conforme projeção da Emater, a quantidade não deve passar das 600 toneladas do ano passado na Serra, o que inclui Região das Hortênsias e Campos de Cima da Serra. A região é a principal produtora do Estado.
Entre a maioria das cidades, a queda estimada é entre 12,5% e 60%. No entanto, até mesmo em locais como Caxias do Sul, em que a baixa não era prevista, existe a percepção entre os produtores. A previsão é do município ter uma safra de 30 toneladas, repetindo o ano passado.
A queda na safra deste ano é explicada pelas condições climáticas durante o ciclo de formação da pinha, que leva em média três anos. Quando a semente colhida agora estava se desenvolvendo, o Estado passava por chuvas intensas, como as de 2024.
Nos últimos anos, outras mudanças climáticas contribuíram para a alternância na produção. Mesmo assim, o cenário de queda na safra do pinhão vem chamando atenção.
Para entender melhor esses ciclos, o biólogo e analista do Instituto do Meio Ambiente da PUCRS, Glauco Schüssler, estuda há quase 19 anos a atividade das araucárias e, consequentemente, a produtividade das pinhas. O objetivo é entender detalhadamente como funciona o ciclo para ter novas informações para auxiliar na preservação das florestas de araucárias.
— O pinhão é um recurso importante dentro dessas florestas porque no outono e inverno, basicamente, é a araucária que produz alimentos para os bichos. O pinhão vira alimento e ao mesmo tempo tem as comunidades que são muito atreladas com essa cultura. É uma coisa que já vem desde indígenas, desde grupos dos povos originários até hoje em dia, onde portugueses assimilaram essa cultura, espanhóis, alemães e italianos. É uma coisa que já vem há muitos anos e tem comunidades que dependem bastante do pinhão para aumentar sua renda — destacou o biólogo.

O estudo é feito numa mesma propriedade da PUC. O local escolhido foi no interior de São Francisco de Paula. São 90 árvores monitoradas. Além dos dados climáticos, o biólogo analisa também a produtividade e a característica das pinhas dentro dos ciclos.
Com a pesquisa, o biólogo conseguiu detectar três tipos de ciclos. Um deles com alternância na produção, outro com um aumento e um terceiro que vê como intermediário. O estudo leva em conta as particularidades da área e das árvores, o que pode influenciar na produtividade, além das condições climáticas.

Então, a produtividade pode ser impactada por propriedades do terreno, como se houve exploração nele, o histórico de uso do terreno, se passou por desmatamento, os nutrientes presentes, a genética das árvores ou até se elas já foram cortadas, por exemplo.
— Basicamente, para a produção de frutos, ou flores, a planta precisa ter um estoque de energia, precisa ter temperatura agradável e as chuvas têm que ser moderadas de maneira geral, como se fosse uma produção de uva, de frutífera normal. O andamento tem que estar nessas condições propícias, só que como o ciclo é longo então não conseguimos associar diretamente às vezes — descreve o pesquisador.
Contudo, como nota Schüssler, pelo ciclo de formação do pinhão ser mais longo, a análise se torna mais complexo. Um exemplo é o atual ciclo. Em 2025, as condições para a produção foram consideradas ideias, mas os anos anteriores ainda impactam a semente.
O que causou a queda brusca

Desde o início da pesquisa, o biólogo observou ciclos distintos. Dois demonstraram uma queda na produção, em 2013 e neste ano.
A intenção é fechar a pesquisa em breve. O estudo caminha para identificar qual é o mês-chave para a formação da pinha e quais são os fatores climáticos determinantes para que ela seja produtiva ou não.
— Quais são os elementos ou quais são as variáveis climáticas de tempo que são determinantes? Chuva e temperatura são basicamente sempre, são as que pensamos sempre. Mas, tem questão de dias de frio intenso, tem questões de dias que o sol brilha, teve o sol iluminando a planta. Então, tem outras nuances que vamos tentar descobrir para saber quais são as variáveis ou qual a variável que faça com que anteceda aquela fase que dê tudo certo para a planta — adiantou o analista da PUCRS.

A pesquisa, inclusive, segue a lei que regra a colheita do pinhão e protege as araucárias. Ou, tem o mesmo contexto que o de produção.
O trabalho de Schüssler pode também abrir a porta para outras linhas de análise, como levantar se o envelhecimento das araucárias pode impactar a produção. Mas, para isso é necessária uma tecnologia específica e outro caminho para o levantamento.
"Juntei muito pouquinho", relata produtor
Daniel Vergani, 49 anos, colhe a semente na propriedade em São Valentim da 6ª Légua, em Caxias do Sul. Comercializando na Feira do Agricultor na terça (28), o produtor relatou que desde o início da colheita não estão "caindo" muitos pinhões e que até o fim do período, em agosto, não expectativa de que o cenário mude.

— Está indo um pouquinho. Mas, não é muito. Acho que também é um fator que tem que esfriar mais também — comentou sobre a venda.
De uma média de cem quilos que colhia por semana na safra anterior, o produtor acredita que está coletando a metade. O pinhão entra como uma renda extra para Vergani. O foco da família é a produção de uva, que já chegou ao fim neste ano.
— Deu uma boa diminuída (no pinhão). Não sei se o fator também seja climático ou também animais. Muitas vezes tem bastante animais que pegam os pinhões. Mas, está bem baixo da média. Não é uma safra muito cheia — concluiu Vergani.

Em São Francisco de Paula, um dos principais produtores da Serra, a safra também causa surpresa aos produtores. Há 20 anos com propriedade no município, Marlei Zambelli, 55, relata que nunca viu uma queda como essa.
Assim como no caso de Vergani e outros coletores, o pinhão é uma renda extra. Marlei trabalha também com produção de milhão, gado de leite e porco.
— Nem para tirar nos pinheiros tu encontra, tem uma ou duas pinhas em cada pinheiro. É muito pouquinho esse ano. Eu ainda não consegui vender pinhão. Esse é o primeiro ano que aconteceu isso. Sempre nos outros anos, reduzia tudo, mas nunca aconteceu de não acharmos nada — contou a produtora.
São Francisco de Paula, geralmente, tem uma safra de em média 120 toneladas. O aguardado para esse ano é de 40 toneladas.





