
Importante ferramenta social e de vivência mais digna e afetuosa para crianças e adolescentes, o Serviço Família Acolhedora tem o desafio de atrair mais interessados em Caxias do Sul. Atualmente, somente dois dos 226 acolhidos institucionalmente pelo poder público vivem em lares temporários no maior município da Serra — o que significa, portanto, uma abrangência de apenas 0,8%.
Na modalidade, a criança ou adolescente é acolhido e cuidado, por um período determinado, por adultos maiores de 21 anos, até que seja reintegrado à família de origem ou encaminhado para adoção. A duração máxima é de até 18 meses, mas pode variar conforme a necessidade.
Na prática, o menino ou a menina vive juntamente com outro grupo familiar por tempo integral e tem todas as demandas atendidas, como alimentação, educação e atividades de lazer. As famílias participantes recebem um salário mínimo mensal para auxiliar nas despesas.
O serviço atende a crianças e jovens que precisaram ser afastados da família de origem a partir de uma determinação judicial. A alternativa a este modelo é o acolhimento coletivo em abrigo ou casa lar. Para a coordenadora do projeto, Morgana Rech, o respeito à individualidade está entre os principais benefícios da família acolhedora:
— A família acolhedora fica muito mais pertinho da história dessa criança, dos sintomas que, às vezes, ela vai apresentar no decorrer dos dias. A instituição é um ambiente coletivo, em que eles precisam dividir tudo: o quarto, o brinquedo e, muitas vezes, até a roupa — sinaliza.

A coordenadora entende que o baixo número de participantes está atrelado especialmente ao medo do apego e, posteriormente, o receio da despedida:
— Sempre pontuamos que precisa de um vínculo para que se consiga fazer a diferença na vida da criança. Se a gente não vincula, não consegue ensinar nada para ela. E o objetivo do acolhimento familiar é justamente proporcionar uma outra realidade para eles. Para que a gente consiga ensinar algo que eles não conseguiram aprender na família de origem — sinaliza Morgana.
Uma ressalva importante é que o acolhimento familiar é diferente do processo de adoção. Inclusive, pessoas que estão nesta fila não podem participar do Serviço Família Acolhedora.
— Precisamos separar bem, porque talvez alguém pense que se tornar uma família acolhedora pode ser um fura-fila para uma adoção — comenta a coordenadora do serviço.
"Não tem que ter medo"

Um mês antes de completar 15 anos, em 8 de novembro de 2024, o adolescente João* ganhou a chance de experenciar o que é viver em um lar seguro e respeitoso em Caxias do Sul. Afastado da família de origem por determinação judicial, foi nesta data que o jovem passou a morar com o desenvolvedor de software Joacir Marcolin, 43, e a mãe dele, Maria Helena Marcolin, 73.
Joacir é o responsável legal pelo acolhimento familiar. Ele conta que se interessou pela iniciativa a partir da experiência do irmão, que adotou duas crianças há alguns anos. Depois de todo o processo burocrático do serviço, o contato inicial foi em um almoço e a conexão entre os três fluiu instantaneamente, apesar do perfil introvertido do menino.
— Chegou na hora de conversarmos e eu perguntei "tu quer ficar aqui com a gente?". Ele respondeu que sim. Questionei quando ele queria vir para cá e ele disse: "hoje". Percebemos que ele se sentiu muito bem acolhido. Ele veio em uma terça aqui em casa e na sexta-feira a juíza já expediu o termo de guarda para mim — recorda-se Joacir.
De lá para cá, a família acolhedora percebeu uma verdadeira evolução nas interações sociais e no comportamento do adolescente.
— Não é mais aquele menino todo recolhido. Em questão de um mês ele já estava com a cabeça um pouco mais erguida. Hoje em dia, ele já te olha nos olhos, ele fez realmente a casa dele aqui — detalha o desenvolvedor de software.
Atualmente, João* estuda e trabalha em um mercado como jovem aprendiz.
— Se eu pudesse dar um conselho para quem está interessado, eu digo que participe, porque faz bem. Além de fazer bem para si mesmo, faz bem para a criança ou adolescente acolhido. Não tem que ter medo— diz Joacir.
— É um sentimento de que é um neto verdadeiro. Não tem diferença do neto de sangue — completa dona Maria Helena.
* O nome do jovem acolhido é fictício e foi alterado em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Como funciona
As famílias interessadas devem se cadastrar junto à Secretaria de Assistência Social e Cidadania de Caxias do Sul. É preciso passar por entrevistas, análise documental e visitas em domicílio. Após, os candidatos habilitados passam por uma capacitação e, então, passam a acolher a criança ou adolescente. Informações podem ser solicitadas pelo WhatsApp (54) 98425-0425.
Em Bento Gonçalves, o serviço foi apresentado em novembro do ano passado à comunidade e teve a inserção das primeiras crianças nas famílias acolhedoras em março. A iniciativa é coordenada pela Secretaria de Esportes e Desenvolvimento Social. Interessados podem contatar pelo WhatsApp (54) 99370-3701 ou pelo telefone (54) 3771-1035.
Critérios
- Ter acima de 21 anos.
- Ter disponibilidade afetiva e de tempo.
- Residir em Caxias do Sul há pelo menos dois anos.
- Estar em boas condições de saúde física e mental.
- Não possuir antecedentes criminais.
- Concordância de todos os membros da família.
- Possuir uma convivência familiar estável e livre de pessoas dependentes de substâncias entorpecentes.
- Não estar inserido no Cadastro Nacional da Adoção.
- Permitir visitas técnicas.
- A família deve ter ao menos um integrante com renda comprovada.





