
Não é exagero dizer que a região dos Campos de Cima da Serra é, entre outros títulos, a terra da batata no Rio Grande do Sul. Especialmente no que se refere a São Francisco de Paula, município de cerca de 22 mil habitantes que lidera a produção do alimento no Estado. De sexta-feira (15) a domingo (17), a cidade irá sediar o 7º Festival Gastronômico da Batata. O palco é o Centro de Eventos (Rua Benjamin Constant, 1.442) e a entrada é gratuita.
Segundo o último levantamento bianual Frutícola e Olerícola, da Emater-RS, em 2025 foram colhidas 133 mil toneladas de batata nos 3,5 mil hectares destinados a essa cultura em São Chico. A cidade, inclusive, repetiu o desempenho do estudo anterior, de 2023. Referente ao ano passado, em segundo lugar figura Bom Jesus, com 122,5 mil toneladas do tubérculo (caule subterrâneo) obtidas no período, e São José dos Ausentes, com 90.750 toneladas — ambas situadas nos Campos de Cima da Serra.
Embora a produção sofra oscilações a cada safra, São Francisco de Paula é conhecida por coletar quantia superior a 100 mil toneladas ao ano. O secretário de Agricultura, Alexandre Bossle Camelo, contextualiza que metade da arrecadação do município tem origem no setor primário, onde a batata se estabelece com uma relevância de cerca de 20%, fazendo frente à madeira e à pecuária.
— Tivemos sempre a pecuária como principal arrecadador, mas hoje a batata está encostando. Há 30 anos praticamente ela é cultivada em São Francisco de Paula, gerando em torno de 2 mil empregos nos períodos de safra, entre agosto e abril — afirma Camelo.
São Chico atrai o cultivo da batata, conforme o secretário de Agricultura, por conta de fatores como o clima ameno, com temperaturas que variam entre 10°C e 22°C e favorecem a diminuição de pragas. A altitude de quase 900m é outro ponto que joga a favor:
— Temos um solo de terras pretas, com pH que favorece a batata. O município tem 3 mil quilômetros quadrados de território, temos muito espaço ainda para plantar e fazer nossa economia ter ainda mais chance de crescer.

A expectativa para o Festival da Batata deste ano é por superar a marca de 8 mil visitantes. Dez restaurantes locais foram convocados para criar pratos que tenham o tubérculo como protagonista. O valor de cada opção irá variar entre R$ 25 e R$ 35.
O público irá encontrar churrasco no pão com batata rústica; batata assada com charque e creme de milho; fondue de queijo serrano com batata e pão, entre outras delícias. O evento terá Arena Gastronômica com aulas-show de chefs renomados do país e apresentações musicais (veja a programação completa ao fim da matéria).
Mais de 20 produtores em São Chico
O levantamento mais recente da Emater-RS mostra que 23 produtores de batata atuam em São Francisco de Paula. Conforme a Secretaria Municipal de Agricultura, em torno de 90% deles migraram de outras cidades a partir do fim da década de 1990 e início dos anos 2000, quando a produção do tubérculo começou a ganhar força por lá.
É o caso da família de Alexandre Fais, proprietário da AgroFais, localizada na RS-020, no Distrito Industrial. O embrião do negócio teve base 40 anos atrás em Gramado, por meio do pai, Querino Eligidio Faes, que chefiava uma produção braçal. A mudança de endereço foi motivada pela oportunidade de mecanização da atividade e por arrendamentos atrativos.

Com cerca de 130 funcionários entre fixos e temporários, a AgroFais obtém atualmente uma média de 900 mil sacos de 25kg de batata — o equivalente a 22,5 mil toneladas. A companhia planta em torno de 500 hectares do tubérculo em propriedades próprias e arrendadas que ficam em São Chico e em Cambará do Sul. Também fazem multiplicação de sementes em Glorinha.
— Fazemos o plantio de agosto a fevereiro, e a outra equipe inicia a colheita em dezembro, terminando em julho — afirma o empresário.
Os colaboradores apanhavam batatas nesta semana em uma lavoura arrendada de 150 hectares, a oito quilômetros da sede da AgroFais. Após período servindo soja, o terreno recebeu no inverno passado uma correção com calcário calcítico e gesso para reforçar a concentração de cálcio e enxofre no solo. Em dezembro, foram removidos os produtos, preparada a área e plantada a batata.
Enquanto o maquinário agrícola fazia a remoção das batatas da terra, as separando do solo e as deixando na superfície, os funcionários catavam os tubérculos manualmente e os colocavam em sacos. Depois, as unidades eram despejadas nos chamados big bags (grandes bolsas que suportam mais de 800kg), colocadas por tratores na caçamba de caminhões e fretadas até a sede da empresa.
— Não é bom repetir batata sobre batata, por isso que temos mais áreas e intercalamos com milho e soja para provocar menos fungos e bactérias, visando sempre uma qualidade melhor para quem compra a batata lá na banca — complementa Fais.
A etapa seguinte é a de beneficiamento, em que o alimento é lavado e classificado para transporte aos supermercados e outros clientes dentro e fora do Estado. É um trabalho de "formiguinha": em cada fase há colaboradores controlando o processo no entorno de uma esteira mecânica. No fim, acontece a separação manual entre batatas especiais (com melhor aspecto visual e tamanho adequado) e diversas (com defeitos de aparência), seguida pelo ensacamento ou encaixotamento.
— O valor da diversa cai em torno de 50% em relação à especial (tipo que, com uma boa safra a atual, predomina). O brasileiro compra muito com os olhos para levar para casa. As diversas vão mais para cozinhas industriais, porque o interior da batata não muda — explica Fais.
O empresário faz ponderações quanto ao elevado custo para produção da batata. Além disso, até poucas semanas atrás, o valor pago aos produtores gerou prejuízos, de acordo com ele:
— Para produzir um hectare de batata com o beneficiamento incluído custa R$ 75 mil. Há 15 dias, o saco de 25kg nos custava R$ 65, mas estávamos vendendo em média a R$ 33. Não fecha a conta. Nesse momento, o saco passou ser vendido a R$ 100, por conta da queda da oferta, mas é a reta final da colheita, não dá para reverter o cenário.
Fais acredita que isso, além de fatores como a aproximação de um novo fenômeno El Niño e as despesas fruto da dependência do país pela importação de fertilizantes e defensivos agrícolas, irá impactar em uma redução em até 20% no plantio para a próxima safra.
São Chico tem o que a batata precisa
Com origem em Carlos Barbosa há 50 anos, o Grupo Belebas foi um dos pioneiros no cultivo da batata em São Francisco de Paula, na virada do século. Cinco sócios, entre filhos e genros dos fundadores Adelino e Alcino Belleboni, tocam os negócios atualmente.

— Viemos para São Francisco de Paula porque é uma região fria de noite e quente de dia, com altitude. É o que a batata precisa. Hoje fornecemos para todo o Brasil, entregamos para supermercados do RS, temos cinco boxes na Ceasa em Porto Alegre e temos filial em São Paulo — conta Silvano Casagrande, um dos sócios.
Como estratégia para comercializar batata o ano todo, a Belebas compra de outros produtores. São movimentados por ano, conforme os proprietários, uma média de 4 milhões de sacos de 25kg do tubérculo, o que representa 100 mil toneladas. Somente de produção própria, em São Chico, são 600 mil sacos.
Embora também plantem milho e soja e vendam alho e cebola, a batata é o carro-chefe da empresa. Com 70% da safra concluída, Casagrande espera que as contas se equilibrem com o aumento recente do preço do tubérculo:
— Temos que vender o saco por R$ 50 a R$ 60 para pagar o custo de produção. Estávamos vendendo entre R$ 20 e R$ 30. Agora está entre R$ 80 e R$ 90, então acredito que até o fim da safra, em junho, vai praticamente empatar.
A Belebas mantém um quadro de 340 colaboradores e grandes pavilhões para beneficiamento do produto na sede, na RS-020. Isso dá uma capacidade de atendimento de diferentes mercados, a depender da classificação da batata: especial, diversa, florão e miúda.
No Festival da Batata, a companhia terá um estande próprio para receber o público e também vai fornecer gratuitamente o tubérculo aos restaurantes para preparo dos pratos.
— O festival começou porque a batata foi um divisor de águas para o município. E neste ano vamos trazer a Abbin (Associação Brasileira de Batata In Natura) para divulgar ainda mais a importância do consumo da batata in natura, que perdeu espaço em relação às frituras — defende.
Programação
Sexta-feira, 15 de maio
- 18h – Abertura Oficial do Evento
- 18h30min – Aula-show, com Sandra de Moraes (Emater), sobre culinária, na Arena Gastronômica
- 19h30min – Coral SFP (cantos), no palco
- 20h30min – Chico Santo (pop/rock), no Palco
- 21h40min – João Reis (sertanejo), no palco
- 22h40min – Quarteto Serrano (gaúcho), no palco
Sábado, 16 de maio de 2026
- 11h – Abertura da Praça de Alimentação
- 11h30min – Devid Wallauer (MPB/pop), no palco
- 13h30min – Aula show, com o chef Manoel Oliveira (culinária), na Arena Gastronômica
- 14h30min – Eduardo Gomes (MPB/pop), no palco
- 15h40min – Aula-show, com a chef Rafaela Barreto (culinária), na Arena Gastronômica
- 16h50min – Isac Novascki & Banda (sertanejo), no palco
- 18h20min – Rock In' Girls (MPB/pop/rock), no palco
- 19h30min – Rock Feller (MPB/pop), no palco
- 20h45min – The Travellers (country), no palco
Domingo, 17 de maio de 2026
- 10h – Abertura da Praça de Alimentação
- 11h30min – Daniela Duarte (MPB/pop), no palco
- 13h45min – Aula-show com o chef George Lima (culinária), na Arena Gastronômica
- 14h45min – Maduo (pop/rock), no palco
- 15h50min – Aula-show com a chef Arika Messa (culinária), na Arena Gastronômica
- 17h – Yuri & Banda (sertanejo), no palco
- 19h20min – Banda Navesom (bandinha), no palco
Atração constante (todos os dias)
- Banda Real Madrid (música típica alemã), apresentação itinerante durante o evento




