
A escalada da violência contra a mulher e o aumento dos casos de feminicídio em cidades gaúchas têm colocado o tema no centro do debate público. Na mesma semana em que o Rio Grande do Sul registrou a 31ª morte de uma mulher por questão de gênero, a Câmara de Vereadores de Caxias do Sul sediou uma conferência voltada à reflexão sobre o papel dos homens no enfrentamento a esse tipo de violência.
O evento, realizado na manhã deste sábado (9), reuniu especialistas das áreas de psicologia e educação para discutir padrões tóxicos de masculinidade e os comportamentos que contribuem para diferentes formas de agressão contra as mulheres. A iniciativa foi promovida pela Procuradoria Especial da Mulher (PEM) em parceria com a Associação dos Psicólogos do Nordeste do Rio Grande do Sul (Apsiconor).
A programação foi aberta pelo terapeuta, educador parental, pesquisador e escritor Renato Caminha. Em participação on-line, ele provocou o público a refletir sobre os impactos da masculinidade tóxica na vida das mulheres e afirmou que muitos homens enfrentam dificuldades para lidar com a autonomia feminina na sociedade contemporânea.
— A mulher hoje tem direitos plenos, expressa sua individualidade e sua sexualidade. Mas muitos homens ainda são educados a partir de modelos antigos, sem preparo para compreender a diversidade da sociedade atual e lidar com essa autonomia feminina. Isso gera desestabilização e pode levar a movimentos de retrocesso, como o fundamentalismo religioso — afirmou.
Segundo Caminha, a educação socioemocional deve ser trabalhada desde a infância, tanto nas famílias quanto nas escolas, como forma de promover uma transformação cultural na construção da masculinidade. Para ele, é necessário ensinar aos meninos que emoções e sensibilidade fazem parte da experiência humana e não devem ser reprimidas.
O homem é educado para expressar virilidade e, com isso, acaba incapaz de se conectar com as próprias emoções. Quando deveria sentir tristeza, muitas vezes expressa raiva, porque a raiva é entendida como algo viril. Isso aparece nas relações violentas: a mulher rompe a relação, e ele reage não com tristeza, mas com agressividade diante da perda.
RICARDO CAMINHA
Psicólogo, pesquisador e autor.
A transformação desses padrões em homens adultos foi tema da fala do psicólogo e facilitador de grupos reflexivos Matheus Costa Pozatti. Ele destacou a importância de espaços coletivos de escuta e reflexão voltados aos homens, como forma de promover responsabilização e mudança de comportamento.
— É um trabalho que provoca os participantes a refletirem sobre a responsabilidade dos homens com as mulheres, com as crianças e dentro dos relacionamentos. Há casos em que eles frequentam os grupos, mas não mudam de fato. Por isso, é preciso enfrentar esses padrões e inserir os homens nesse debate. Eles não podem ficar à margem — disse.

Conforme Pozatti, os grupos ajudam os participantes a repensarem o papel que exercem nas relações afetivas, familiares e sociais.
— Nem sempre o foco principal é falar diretamente sobre violência, mas sobre a importância desse homem na estrutura social, da autonomia emocional, da responsabilidade afetiva e do cuidado dentro das relações. Esse processo faz com que ele perceba que a violência relacional que mantém já não cabe mais — completou.
Violência contra a mulher
Outro eixo discutido durante o encontro foi o papel das mulheres na perpetuação de estruturas machistas, especialmente diante da falta de acolhimento às vítimas de violência. O tema foi abordado pela psicóloga e presidente da Apsiconor, Maria Marlene da Silva Faria.
Segundo ela, o sentimento de vergonha vivido por mulheres em situação de violência é frequentemente reforçado por julgamentos sociais, inclusive vindos de outras mulheres.
— Essa vergonha e essa culpa dificultam a busca por ajuda, porque muitas vezes o apoio vem acompanhado de julgamentos: “Por que você não saiu antes?”, “Por que não fez diferente?”. Se a rede de apoio julga em vez de acolher, a mulher não consegue denunciar. Quando eu passei por violência psicológica e patrimonial, contei com o apoio de poucas mulheres. Precisamos olhar umas para as outras com mais empatia — afirmou.

A palestrante destacou ainda que a ausência de uma rede de apoio contribui para o isolamento da vítima, que muitas vezes já enfrenta fragilidade emocional ou problemas de saúde mental, como depressão. Nesse contexto, o acolhimento das pessoas próximas pode ser decisivo para romper o ciclo da violência.
O painel sobre violência contra a mulher foi gravado e está disponível no canal da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul no YouTube.











