Em mais de 100 anos, incontáveis histórias de devoção entrelaçam a Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes aos moradores de Flores da Cunha e ao próprio desenvolvimento da cidade. O templo católico foi destruído por um incêndio na segunda-feira (25) e passa por avaliações estruturais que deverão subsidiar a reconstrução.
O clima no local ainda era de consternação na manhã desta quarta-feira (27). Pessoas que caminhavam pelas ruas do Centro dificilmente não paravam para observar, fotografar e lamentar os danos sofridos pelo patrimônio religioso.
As paredes externas estão de pé, mas o rastro deixado pelo fogo chama a atenção: a cobertura, ponto em que teria começado o sinistro, cedeu; há pilhas de folhas de zinco no pátio; vitrais se quebraram; e parte da pintura, antes nas cores branca e creme, ficou chamuscada.
Ao redor, contenções provisórias isolam e restringem a aproximação às autoridades. O imponente campanário de 55 metros de altura, fixado ao lado, testemunhou o ocorrido sem ser atingido .As causas do fogo ainda estão sendo apuradas.

A matriz é uma casa de paz e refúgio para Márcia Regina Salvador Schiavenin, 58 anos. A corretora de imóveis, nascida em Flores da Cunha, viveu no templo os melhores momentos, desde seu batismo até o casamento. Também é onde batizou a filha, Maria Eduarda, em 2004, e fez a primeira eucaristia e crisma.
— Ver a igreja do jeito que está é muito triste. Podemos fazer uma nova construção, mas é uma dor muito grande. Começaremos uma nova página, mas morreu uma linda história centenária — refletiu Márcia, que não segurou as lágrimas.
Ela recorda com carinho o significado de cada item do templo, afinal, contribuiu em várias ocasiões para a ornamentação do espaço, o que antecede as cerimônias. Na última segunda, foram retirados intactos uma escultura do Cristo Morto e um quadro do frei Salvador Pinzeta em meio a maior parte do mobiliário que acabou consumida.
Há 31 anos, em dezembro de 1994, Márcia celebrou na Igreja Matriz o matrimônio com o marido Gentil Schiavenin, casal que foi abençoado na ocasião pelo frei Hélio Dalla Costa:
— Foi um momento lindo, cada detalhe e cada decoração, eu coloquei a mão. Por isso que o significado é grande e marca o coração da gente.
Na manhã do último domingo (14), Márcia participou de um dos últimos atos da igreja antes da tragédia. Foi realizada uma procissão seguida por missa coordenada pelo frei Jadir Segalla.
— Foi bem emocionante, a igreja estava cheia, não tinha espaço para tanta gente — conta.
"Agora é hora de a gente se unir"

Embora seja natural de Caxias do Sul, Fabiano Hercilio Eberle, 30, se identifica ainda mais com a história de Flores da Cunha, especialmente com a igreja matriz, onde é voluntário há cerca de 12 anos. Começou ajudando como participante de encenações e, com o tempo, passou a coordenar apresentações de Páscoa e de Natal, e a desempenhar o papel de ministro de eucaristia e catequista.
Com tanta história vivida, Eberle revela que sentiu desespero ao receber a notícia de que o templo estava em chamas. Foi difícil até para atender ligações e encontrar palavras para responder as mensagens de amigos.

Passadas 48 horas do ocorrido, ele convoca a comunidade a se unir para reerguer a matriz:
— O que fica é a história, agora é hora de a gente se unir. Mostrar que o 'ser' igreja não é só quando estamos dentro do templo, que foi tomado pelas chamas. Mas sermos igreja através das nossas atitudes, dos nossos compromissos. É um recomeço, vamos botar a igreja física de pé, mas a igreja de verdade está nas atitudes de cada um.
No dia do incêndio, após a autorização dos bombeiros, Eberle ajudou na retirada das imagens de santos que estavam no altar e nas laterais, no interior da igreja.
Os artefatos estão guardados no Salão Paroquial, do outro lado da rua. É lá também que foi organizado um espaço litúrgico para a realização da programação religiosa enquanto a matriz está interditada.
Além disso, a tradicional confecção dos tapetes de serragem colorida, elaborados durante o feriado de Corpus Christi, está mantida para este ano. A expectativa é que o momento sirva para fortalecer a união e sensibilizar moradores e visitantes em torno de uma campanha de reconstrução. Doações podem ser feitas por meio da chave Pix igrejafloresdacunha@gmail.com em nome da Associação Comunitária Fenavindima.
Curiosidades sobre a igreja
O Inventário do Patrimônio Cultural Material de Flores da Cunha (2024), fundamentado por pesquisas e textos das historiadoras Danúbia Otobelli e Gissely Lovatto Vailatti, documenta a história centenária da Igreja Matriz. Veja um resumo cronológico:
- A Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes começou a ser edificada no início do século XX. Antes dela existia uma capela em madeira, dedicada a São Pedro;
- Em 1903 os Freis Capuchinhos Franceses passaram a administrar o Curato de São Pedro e com eles deu-se início à construção de um novo templo, sob direção do capelão Padre Frei Theophile de Villards-sur-Thônes (Joseph-Edmund Favre, 1884- 1947).
- Entusiastas do estilo gótico, os frades buscaram ajuda do arquiteto francês Victor Denarié, de Chambéry. Ele elaborou um projeto completo de uma igreja ogival com contrafortes, feixes de colunetas e grandes janelas. O frei Robert D’ Apprieu dirigiu as obras e adaptou o projeto aos recursos e materiais locais.
- A pedra fundamental foi benta pelo Padre Theophile em 4 de dezembro de 1904. Sob o pilar do transepto foi enterrada uma garrafa contendo um texto com os dados da construção. A primeira missa foi celebrada pelo sacerdote padre Vitorino de la Ravoire em 8 de dezembro de 1908;
- Para elevação dos alicerces, em pedra de basalto, foi aberta uma pedreira. A areia necessária para compor a argamassa era extraída nas margens do Rio das Antas e transportada no lombo de mulas até o local da obra.
- Em 1910 foi colocado o telhado e dois anos depois iniciou-se o reboco interno. Os vitrais para as janelas foram trazidos de Paris. O assoalho foi pavimentado com ladrilhos fabricados na Casa de Correção de Porto Alegre. Da Europa chegaram, em 1912, as estátuas do Sagrado Coração de Jesus, Maria Imaculada, São José e São Pedro, assim como as estátuas do presépio.
- Em 1914 são finalizadas as obras da Igreja Matriz.
- Dois anos depois, em 25 de fevereiro de 1916, o título da Paróquia foi alterado de São Pedro para Imaculada Conceição de Lourdes.
- Na década de 1930, um tiro de canhão quase derrubou a igreja, deixando marcas no lado esquerdo.
- No ano de 1939 iniciou-se o trabalho de pintura artística, feito pelo artista italiano Antonio Cremonese, morador de Flores da Cunha. Em 1942 as pinturas estavam finalizadas.
- Em 10 de fevereiro de 1942, a igreja foi solenemente inaugurada pelo bispo Dom Cândido Maria Bampi.
- Em 26 de julho de 1988, ocorreu o translado dos restos mortais do frei Salvador Pinzetta, cujo processo de reconhecimento da santificação tramita junto ao Vaticano, para o interior da igreja, mais precisamente na nave esquerda. Na nave direita encontra-se o Memorial de Santo Sudário, inaugurado em 12 de fevereiro de 1999. O memorial é composto por uma réplica do Santo Sudário, entregue ao município em outubro de 1998.
- Em 2013 foram realizadas obras de revitalização da igreja — a pintura passou de tom azulado para bege-claro, as instalações elétricas e o telhado foram renovados, o altar ampliado e o estatuário foi restaurado pela artista plástica Rosalva Trevisan Rigo.
- Relatos sobre sua construção, materiais utilizados, custos, doações e percalços foram registrados em um caderno escrito por Frei Robert d’Apprieu, que dirigiu as obras. Hoje, esse caderno encontra-se preservado no Archive des Capucins, em Paris.
Fonte: Inventário do Patrimônio Cultural Material de Flores da Cunha (2024)


