
Às 12h32min desta quarta-feira (6), todo celular que estava nas redondezas do bairro Zatt, em Bento Gonçalves, recebeu um alerta de "cell broadcast", a tecnologia que emite mensagens de texto e sobrepõe o modo silencioso dos aparelhos.
A mensagem da Defesa Civil alertava para o exercício de simulação que estava prestes a se iniciar em uma rua distante cerca de três quilômetros da Praça CEU, onde um posto de comando havia sido instalado e concentrava cerca de 400 pessoas entre profissionais dos Bombeiros, Brigada Militar, Polícia Civil, Cruz Vermelha e Guarda Municipal.
Esse foi o primeiro exercício deste tipo realizado pela Defesa Civil, que considera Bento Gonçalves como o quarto município com maior risco geológico no Estado.
— Já fizemos no Vale do Taquari com 252 bombeiros, mas esse é o primeiro interagências. Vamos chegar no mais alto grau de treinamento empregando toda tecnologia que temos para uma situação de emergência e testar os fluxos de comunicação com todos que estão envolvidos no atendimento — disse o capitão Gustavo Kist, comandante da 3ª Companhia Especial de Bombeiro Militar de Bento Gonçalves, na reunião que preparou para a ação os 64 militares lotados em diferentes municípios da Serra, além de Passo Fundo e de São Leopoldo.
Às 13h, os primeiros caminhões do Exército e ambulâncias do Samu desceram a Rua Callisto Sganzerla em direção ao ponto onde o deslizamento foi encenado em uma encosta urbana suscetível a movimentações de solo, especialmente em casos de chuva. A área abriga aproximadamente 140 pessoas e 36 edificações potencialmente expostas. Uma ocorrência real no local poderia afetar cerca de 800 pessoas.
Às 14h, um novo alerta "cell broadcast" foi enviado e deu ainda mais veracidade ao evento, que não foi tratado em nenhum momento como demonstração, mas como um teste prático, em tempo real, de todos os protocolos consolidados após os eventos extremos de 2024.
80 figurantes envolvidos
Quando a imprensa pôde descer ao local da simulação, 80 figurantes já estavam espalhados em residências do entorno aguardando resgate e atendimento. Em um caminhão do Exército, um grupo já era levado ao abrigo instalado no Ginásio de Esportes Ivo Chies. Cerca de 10 homens simulavam a preocupação com parentes e animais de estimação deixados para trás enquanto eram atendidos por uma psicóloga da Defesa Civil.
Em um ponto mais baixo do bairro Zatt e às margens de um curso d’água, estava o local mais crítico do exercício. Manequins foram enterrados para treinamento também de cães farejadores e resgate de corpos.
Perto das 15h, um helicóptero dos bombeiros, sem aterrissar, fez o resgate da primeira vítima. Ao longo do dia, outro helicóptero, da Polícia Civil, também realizou mais dois resgates.
Balanço do exercício
Às 16h30min e antes que uma coletiva de imprensa divulgasse o balanço da atividade, um boletim simulado foi disparado e apresentou os números da operação.
De acordo com comunicado do simulado, o deslizamento de terra na Rua João Domingos Poli, no bairro Zatt, atingiu 40 casas, deixou oito mortos e 17 pessoas feridas.
Para o comandante da Defesa Civil do Estado, coronel Luciano Chaves Boeira, o simulado demonstrou o poder de resposta das forças de segurança diante dos eventos climáticos. Nesta semana, todos os envolvidos vão preencher um formulário e indicar o que deu certo e o que poderia ter sido feito de outra forma.
— Não adianta mobilizar mais de 400 pessoas e não falarmos das falhas. Essa atividade é também para isso, para saber no que podemos melhorar. Não posso avaliar logo após o fim dele, pois são muitas pessoas e entidades envolvidas, mas provoquei que nesse formulário devam aparecer inclusive as críticas. A capacidade de resposta é algo que não tínhamos durante esses grandes eventos e agora temos. E olhando adiante, é algo que ainda iremos melhorar — disse Boeira.



