
Das fichas de plástico ao reconhecimento facial, a forma de passar pela catraca do transporte coletivo evoluiu ao longo dos anos e causou a obsolescência de uma profissão outrora essencial para o trânsito das cidades.
Segundo estimativas da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), pelo menos 56 cidades brasileiras já dispensaram totalmente os cobradores de ônibus.
Em Caxias do Sul, atualmente são 70 profissionais que se revezam nas linhas troncais que transitam entre as Estações Principais de Integração (EPI’s) Floresta e Imigrante. Segundo a Visate, no ano de 2011 a empresa chegou a ter 653 cobradores.
A última contratação, de acordo com a Visate, ocorreu no ano de 2019. Ainda segundo a empresa, 97% dos usuários utilizam cartões para pagamento, o que torna o embarque mais ágil e diminui a necessidade de intervenção para validar a passagem.
Por meio da assessoria de imprensa, a concessionária confirma que, assim como em outras cidades, a função está entrando em extinção em Caxias, mas o assunto vem sendo tratado apenas internamente na empresa e em conjunto com os próprios cobradores.
— Ao longo desse período, foram desenvolvidas iniciativas de qualificação e capacitação profissional, permitindo que os cobradores se preparassem para novas funções. Como resultado, muitos desses profissionais já vêm sendo gradualmente realocados e integrados em outras funções da empresa, acompanhando o processo de modernização do sistema de transporte — diz o comunicado.
Um exemplo disso é a atual motorista Sandra Goreski, 49 anos, que trabalhou por 15 anos como cobradora e depois de um ano de treinamento passou a integrar o grupo de 56 mulheres que dirigem os ônibus do transporte público em Caxias do Sul.
— Na época trabalhava quatro horas de cobradora e fazia três horas de treinamento. Me obriguei a crescer e foi fácil, porque desde jovem já dirigia. Ser cobrador é um trabalho muito tranquilo, a gente faz amizade com os passageiros, ganha muita merenda. Agora, como motorista, se dirigir para as linhas como a de Forqueta não vai cobrar de ninguém. As únicas que dão bastante (pagamento em dinheiro) ainda são Salgado Filho, Belo Horizonte e Serrano — conta Sandra.

O uso do Cartão Caxias Urbano também diminui o valor da passagem, o que contribui para que a forma de pagamento seja mais utilizada e o trabalho do cobrador se torne cada vez menos necessário. A tarifa urbana para pessoa física e com compra antecipada custa R$ 6,50, enquanto o pagamento em dinheiro sai a R$ 9, o mesmo valor para quem passa pela catraca aproximando cartões de débito e crédito. Desde março, os ônibus passaram a contar com equipamentos de biometria facial no momento do pagamento da tarifa. A medida é utilizada para identificar e coibir o uso indevido das gratuidades e descontos.
Desde 2021, o veículo que opera a Linha 98 do bairro Panazzolo eliminou também a catraca. O projeto que propôs a nova experiência de acessibilidade chegou a ser ampliado nos anos seguintes para as linhas dos bairros Cruzeiro e Universitário, mas logo voltaram a ter o equipamento. As linhas, segundo a Visate, foram selecionadas por conta do grande índice de gratuidades e da utilização do cartão Caxias Urbano.
Mesmo sem catraca, a passagem ainda é cobrada. Quem costuma pagar a tarifa em dinheiro, pode realizar o pagamento ao motorista.

“Não é opção minha”
Quando começou a trabalhar como cobradora em 2005, Celoe Boeira, 62 anos, recebia cédulas, moedas e fichas, que acabaram descontinuadas. Atualmente, e em pouco mais de sete horas de trabalho por dia, Celoe consegue contar nos dedos quantos usuários pagam para ela e não para o visor instalado ao lado da catraca.
— De manhã são cinco no máximo, de tarde um pouco mais, mas na maior parte é cartão. Vi muitos colegas irem para outras áreas ou virarem motoristas. Sempre gostei dessa função. Quando não for mais necessário, a vida segue. Não é opção minha, mas tem que seguir em frente, se não aqui ou em outro setor vou continuar trabalhando — complementa.
Um dos poucos homens ainda não função, Pedro Bresolin, 58, por outro lado, não esconde que espera pela aposentadoria quando seu trabalho não for mais necessário:
— Faz 11 anos já que trabalho na função. A gente acaba ajudando idosos a usarem o cartão que às vezes aproximam no lugar errado, mas no dinheiro é muito pouco. Quando não precisarem mais de mim, acho que vou me aposentar — disse.

