
Em Caxias do Sul, 2.149 pessoas já emitiram a Carteira de Identificação da Pessoa com Espectro Autista (Ciptea) — em todo o Rio Grande do Sul são 47.335. A estimativa do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022, é de 5.430 no espectro na cidade. Os dados foram divulgados pela Faders Acessibilidade e Inclusão quando lançou, recentemente, a 5ª edição da pesquisa sobre as características da população com TEA, em ação alusiva ao abril azul, mês mundial de conscientização.
A Ciptea existe desde 2021 e até agosto do ano passado era emitida em formato físico. Agora, ela é online, e as famílias que desejarem podem imprimi-la. Pelo site da Faders é preciso encaminhar documentos como laudo médico, documento de identificação e foto 3x4 (que pode ser tirada do seu celular, mas deve ter boa qualidade, ser do rosto, sem adornos). Após, os dados são analisados em um processo que leva em média uma semana.
Em caso de perda da via impressa, basta acessar o sistema novamente e solicitar cópia. Quem não tem acesso à internet, pode fazer o pedido em uma agência do Tudo Fácil, em Caxias fica no Bourbon San Pellegrino.
A carteirinha possui QR Code que, quando escaneado, mostra dados de identificação, facilitando o acesso prioritário em serviços públicos e privados. Ela dá direito, por exemplo, à meia-entrada e preferência em filas.
— Muitas vezes as pessoas tinham que levar documentos físicos, principalmente laudos e outros, para provar que o filho, por exemplo, era autista. Agora, com a identificação, apresenta a carteira e automaticamente está identificada — afirma Marco Antônio Lang, presidente da Faders.
Com as mais de 2,1 mil carteirinhas emitidas, Caxias fica atrás apenas de Porto Alegre e Canoas. Em toda a Serra são 3.356 Cipteas; e 9.374 pessoas mapeadas pelo IBGE com o espectro autista.
Patrícia Soares Lopes é assistente social no UniTea e na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Central, onde atua com pessoas no espectro. Além disso, é mãe do Joaquim, de oito anos, e que há cinco recebeu o diagnóstico de autismo.
— Procuramos uma neurologista e, partir dali, começamos com terapia ocupacional, fonoaudióloga e bastante estímulos dentro de casa. Na escola de educação infantil eu tive bastante apoio, e com quatro anos ele começou a falar, virou a chave — conta a mãe do menino que atualmente está no terceiro ano da Escola Governador Roberto Silveira.

Joaquim é uma das 2 mil pessoas de Caxias que tem a Ciptea. A mãe conta que sempre que ele vai a algum local diferente, se apresenta e diz que é autista, além de sair com a carteirinha para se identificar.
Como assistente social, Patrícia afirma que a Ciptea é um documento fundamental para a segurança das pessoas com TEA, e incentiva as famílias que chegam para atendimentos a fazerem a emissão da carteirinha.
Os desafios do diagnóstico tardio
Foi aos oito anos que Maria Sophia, hoje com 11, recebeu o diagnóstico de autismo. Mas a mãe dela, a costureira Adriana Pires Pinto, conta que desde os três anos já via algumas alterações. A menina chegou a receber tratamentos para ansiedade e transtorno do sono:
— Foi muito difícil (antes do diagnóstico), porque eram crises de até três horas de choro, ela não usava roupas, não colocava sapato e não dormia. Foi um diagnóstico tardio, bem difícil, ela teve bastante prejuízos por causa disso. Ela fez uma avaliação e hoje tem laudo de TEA e altas habilidades.

Maria Sophia realiza atendimentos no UniTea todas as quintas-feiras, com aulas de teatro e arteterapia. E foi lá que auxiliaram Adriana a fazer a Ciptea para a filha, ainda em 2023. O documento, por exemplo, faz com que elas não enfrentem longas filas para a retirada dos medicamentos que a menina necessita.
— Sem a carteirinha, eu ficava de três a quatro horas na farmácia para pegar. Agora eu chego lá, fico em uma fila prioritária e não fico nem cinco minutos — conta Adriana.
Dúvidas sobre a Criptea: e-mail autismo@faders.net.br ou pelo WhatsApp: (51) 98417-7911.
O que o município oferece
De acordo com Ana Maria Pincolini, diretora da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), a cidade conta, atualmente, com dois locais para atendimentos multidisciplinares para crianças e adolescentes com TEA.
O primeiro deles é o Centro de Autismo, inaugurado em 2022, com atendimentos via Sistema Único de Saúde para crianças de um a oito anos com TEA. São 90 vagas e os pacientes ficam vinculados por dois anos. Há atendimentos com neuropediatria, psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, serviço social, entre outros.
Já o Centro Especializado em Reabilitação Clélia Manfro oferta atendimentos para pessoas com até 17 anos. Inaugurado em 2023, é em parceria do município com o Hospital Virvi Ramos, e atende também via SUS. Neste local há reabilitações auditivas e intelectual, com atendimentos com neuro, psiquiatras, psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, entre outros. Esse também faz parte do TEAcolhe, programa do Governo do Estado do Rio Grande do Sul que visa organizar e qualificar a rede de atenção à saúde.
Além disso, a Secretaria Municipal da Educação (Smed) atende estudantes da rede municipal no Centro Municipal de Atendimento Pedagógico e Especializado (Cemape), onde são oferecidas intervenções especializadas em psicopedagogia, psicomotricidade, consciência fonológica, e língua portuguesa para imigrantes. Os alunos são encaminhados, exclusivamente, por intermédio das coordenações pedagógicas das escolas.
"Autismo é Papo sério”
No abril azul, o Centro Regional de Referência em TEA lançou uma nova cartilha do Programa TEAcolhe, denominada Autismo é Papo sério, voltada ao público adolescente. O material se trata de um livreto educativo e informativo e busca conscientizar a população sobre o autismo de uma forma prática e didática. Entre os objetivos está o combate à desinformação e o bullying.
Autismo é Papo Sério é a terceira cartilha desenvolvida pelo psicólogo Alisson Pereira Rozo. No ano passado, também no mês de abril, foram lançadas as cartilhas Irmão de Atípico e A Melhor Idade para conhecer o Autismo. Além da distribuição física, os materiais podem ser acessados gratuitamente por qualquer pessoa, através de QR Code disponível no site do Hospital Virvi Ramos.

UCS recebe recursos para Centro
Em março, a Universidade de Caxias do Sul (UCS) recebeu R$ 1 milhão, via emenda parlamentar, para o projeto do Centro Interprofissional de Atendimento a Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (CiaTEA). Idealizado em 2022, tem como propósito atender à demanda emergente da comunidade em relação ao autismo, com prestação de serviços, capacitação profissional, educação e pesquisa. Ainda não há data para que o espaço comece a funcionar.


