
Em 10 anos, a frota de Caxias do Sul ganhou mais de 60 mil veículos. Se em 2016 eram cerca de 298 mil, de acordo com dados do Detran, neste ano são, até agora, mais de 358 mil. Os dados só levam em conta os emplacamentos no município, descartando assim aqueles que vem de fora e circulam na cidade.
Em um município com uma população estimada de quase 480 mil habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número pode impressionar e levantar questionamentos. Os principais são sobre até onde o sistema viário de Caxias pode suportar e se a população está deixando de lado outros modais de transporte e optando pelo próprio veículo.
Por comparação, em apenas um ano, entre março de 2025 e de 2026, foram emplacados mais de mil novos veículos em Caxias. Se ela for mais distante, em 2007, primeiro ano com os dados disponíveis pelo Detran, a população de veículos quase dobrou — confira a progressão abaixo.
Falta de micromobilidade e formato de transporte coletivo
Analisando a evolução da frota, a pedagoga especialista em trânsito e professora da UCS Maria Inês Tondello Rodrigues elenca fatores como a ausência de micromobilidade e desafios no transporte público. No caso, a micromobilidade é a movimentação mais reduzida, que pode ser feita de formas como bicicleta, skate ou até mesmo a pé.

— Como nós temos um terreno muito acidentado, isso dificulta o uso do micromobilidade. A micromobilidade também não tem um estímulo, um incentivo do poder público, das autoridades. Por exemplo, em Caxias do Sul, nós não temos uma ciclovia que favoreça transitar pela cidade com bicicletas — observa a especialista.
Em Caxias, há trechos de ciclofaixas especialmente no interior, em rotas de cicloturismo ou em pontos específicos. No momento, na área central, existe um projeto para ligar os bairros São Pelegrino e Exposição por uma ciclovia.
Se o uso da micromobilidade é reduzido, Maria Inês analisa que o formato do transporte público não dá o mesmo atendimento para toda a população. A consequência é o cidadão escolher por adquirir um veículo ou utilizar o transporte por aplicativo.
— Nós temos uma cidade que é atendida de uma forma simplificada pelo transporte público no eixo Leste-Oeste. No eixo Norte-Sul, nós não temos esse tipo de atendimento. E o transporte público local também não atende as áreas periféricas, que são atingidas de forma secundária, não alcança toda a população. O que as pessoas fazem? Optam pelo transporte individualizado — destacou a especialista.
Um exemplo prático, como descreve a professora, é de uma pessoa que reside no bairro Pioneiro, no eixo norte, e precisa ir ao Hospital Geral (HG). Ela precisa utilizar mais de um veículo do transporte coletivo, o que pode acarretar em um tempo maior de locomoção.
Na conta também entra o fator econômico. Hoje, como percebe a professora, o veículo pode ser uma fonte de renda. Ao mesmo tempo, Caxias não tem a cultura da carona compartilhada.
— Hoje, o que as pessoas buscam? Mais segurança, mais conforto, mais agilidade. Nós não podemos, numa cidade do tamanho de Caxias, que é considerada uma metrópole, que atende vários municípios de toda a região da Serra, ter um transporte público engessado — opinou a professora.
Pensar a cidade que queremos
O aumento da população, com o consequente aumento da frota, pode explicar algumas das consequências no trânsito. A professora cita o exemplo da BR-116, que vai em direção à área sul da cidade, e desemboca em congestionamentos em pontos como na rotatória com a Avenida São Leopoldo ou na Rua Rodrigues Alves, na entrada do bairro Cruzeiro.
É importante que a gestão de trânsito de uma cidade pense que cidade queremos. Uma cidade voltada para o veículo, uma cidade voltada para as pessoas, uma cidade voltada para o fluxo do trânsito? E aí, podemos pensar em uma mobilidade mais sustentável, mais segura, que tenha um transporte de qualidade e que as pessoas entendam o seu papel no uso do espaço coletivo
MARIA INÊS TONDELLO
Pedagoga especialista no trânsito e professora da UCS

A arquiteta, urbanista e cientista da computação, especialista em análise de dados urbanos e mestre em planejamento urbano e regional, Angela Candeia Cattani, acrescenta que além do caxiense levar em conta o tempo de deslocamento no transporte público, há também o fator do preço.
Hoje, a tarifa é de R$ 9 (no cartão Caxias Urbano, fica em R$ 6,50). Angela faz a comparação: o deslocamento de ônibus da área central à área periférica pode levar de 30 a 40 minutos. O mesmo trecho, em aplicativos, pode aparecer na média de R$ 12, com um tempo médio menor.
— Se pesarmos essas questões, acabamos escolhendo o que é mais confortável. O aplicativo me deixa de porta a porta, o ônibus eu tenho que me deslocar de parada a parada, tem questão do custo, tem questão do tempo. A população acaba optando por formas mais práticas de deslocamento — comparou a especialista.
Ângela conclui que a união de fatores pode explicar o aumento da frota em Caxias: as características da cidade, o formato do transporte coletivo e os fatores econômicos, como o veículo sendo uma fonte de renda. Além disso, lembra de um motivo mais subjetivo sobre a cultura de ter o próprio carro, seja por status ou pelo cidadão ter o próprio meio de transporte.
— É difícil dizer (um motivo). Ah, aumentou a quantidade de carros porque agora está mais fácil comprar um carro. Não, não é só por isso. Porque é muito fácil comprar carros em outros países, mas a quantidade que se tem lá não é tanta. A mobilidade das pessoas se dá por outros meios também — analisa Angela.

Além de obras, repensar a cultura do trânsito
Obras a partir de estudos técnicos são importantes, como destacam as especialistas. Maria Inês Tondello lembra a intervenção para o novo acesso do bairro Planalto. Com o alongamento de alças, o trecho deve ganhar mais fluxo. Para a pedagoga, é um exemplo positivo de planejamento viário.
As especialistas também recordam que os desenhos das ruas centrais de Caxias são os mesmos feitos nos anos 1950. Para a época, era o planejamento ideal. Apenas agora Caxias passou a receber novas obras estruturantes, como na RS-122, no contorno norte.
Décadas depois, não foi só o volume de veículos que aumentou. Há mais possibilidades de deslocamento e todos utilizando praticamente a mesma via. Por isso, são sugeridos debates sobre a cultura do trânsito na cidade.
— Por exemplo, na Rua Sinimbu, tem carro, tem aplicativo, tem corredor de ônibus, tem pessoas, tem bicicletas elétricas, tem patinete e todo mundo andando junto. Não existe uma prioridade nesse sistema viário e isso causa congestionamentos, dá a sensação de que o trânsito não está andando, de que tem muito carro na cidade. Na verdade, não é que tenha muito carro. É a estrutura que temos hoje que não permite que todos esses meios de locomoção possam andar de uma forma harmoniosa — alerta Angela.
Há também exemplos de situações práticas, como na Avenida São Leopoldo. Maria Inês sugere proibir as conversões à esquerda.
— Não seria o gargalo que é. É só uma questão de gestão, mudar a sinalização, impor a fiscalização e mudar a cultura das pessoas — observou a especialista.
Planejamento para resolver os gargalos da cidade
O secretário de Trânsito, Transportes e Mobilidade de Caxias, Elói Frizzo, concorda que o aumento da frota traz desafios para o município. Recentemente empossado na pasta, Frizzo defende em "melhorar cada vez mais" o transporte público para servir de alternativa à população.

Conforme Frizzo, a curto prazo o município busca recursos para iniciar a construção de uma terceira EPI na Zona Norte. Outras duas estações de transbordo estão previstas neste projeto. Já nesta semana, o secretário afirma que o Conselho Municipal de Mobilidade se reunirá para iniciar uma discussão sobre os corredores de ônibus.
Sobre a tarifa do transporte público, Frizzo afirma que é uma relação de custo. As formas de redução, nesse caso, seriam a partir de subsídios ou com o aumento no número de passageiros.
— Há uma forma de calcular o preço da tarifa e um contrato para cumprir. Se ampliar a linha ou horários, isso impacta no preço da tarifa. Só existem duas formas de resolver os problemas colocados hoje: reajustar no valor real ou com subsídio específico para isso — declarou o secretário.
Nacionalmente, como recordou Frizzo, existem discussões sobre novas formas de subsídio para reduzir as tarifas do transporte público.
O secretário também defende a implantação de BRTs (transporte rápido de ônibus) em Caxias, um modal de transporte sobre rodas que funciona em faixas exclusivas. Além disso, Frizzo destaca que, junto de obras de elevadas, túneis e viadutos, o município precisa retomar o plano da chamada Perimetral Sul, que iniciaria na região do Samuara e iria até Santo Homo Bom, ligando RS-122 e BR-116, passando pelas zonal sul e leste.
— É uma necessidade de tirar do papel, tem previsão no Plano Direto. Mas a obra até agora se resume a algumas áreas que foram adquiridas pelo município, troca de índices ou de destinação de área institucional — explicou Frizzo.
Frizzo cita ainda que a revisão do Plano Diretor, prevista para esse ano, deve buscar adequar o município às novas realidades, como o transporte por aplicativo. A pasta caxiense estima que são mais de 3 mil pessoas trabalhando nesse ramo diariamente.




