
Depois da prefeitura de Caxias do Sul ter anunciado, no último dia 16, a extinção do serviço de táxi-lotação após decisão acordada pelo Conselho Municipal de Mobilidade, a modalidade, popularmente conhecida como azulzinho, está em discussão. A notícia do encerramento das atividades surpreendeu permissionários e usuários do transporte, que inclusive já se manifestaram na Câmara de Vereadores e organizam, para a próxima semana, uma audiência pública.
O serviço de táxi-lotação em Caxias teve início dos anos 2000 e, ano após ano, vem reduzindo o número de passageiros e de veículos circulando. Atualmente são dois roteiros, Ana Rech e Rio Branco, sendo que cada um dos itinerários conta com quatro veículos. A passagem custa R$ 6 e pode ser paga em dinheiro, PIX ou cartão.
Na linha Ana Rech, as primeiras saídas ocorrem às 6h30min, tanto do Villagio Caxias quanto do bairro, ao fim do dia; a última partida é às 19h05min do shopping e às 18h55min de Ana Rech. Já no itinerário Rio Branco, o serviço também começa às 6h30min em ambos os sentidos — Villagio e Universidade de Caxias do Sul (UCS) — e segue com horários escalonados durante o dia, encerrando a operação às 19h05min do shopping e às 19h da UCS.
Como é a viagem
A reportagem percorreu, nesta semana, pela manhã, o itinerário que sai do Villagio Caxias e vai a Ana Rech. A viagem começou às 8h30min e a chegada ao bairro ocorreu pouco mais de uma hora depois. No percurso, o veículo passou por bairros como Floresta, Medianeira e Centro. E é na região central que ele tem um dos principais diferenciais: ao circular pela Avenida Júlio de Castilhos, o trajeto é feito desde o cruzamento com a Rua Teixeira Mendes, até a Humberto de Campos, quando ingressa na Sinimbu e, posteriormente, na BR-116, por onde segue até a Avenida Rio Branco, para entrar em Ana Rech.
Até mesmo pelo horário, 9h, fora da maior movimentação de início e final do dia, o coletivo não chegou a ficar lotado durante essa hora — ele conta com 20 assentos e não é permitido o transporte de pessoas em pé. Foi após chegar em Ana Rech, na Rua Nino Marsiaj, que ingressou o maior número de pessoas ao mesmo tempo — foram seis.
Uma das vantagens de utilizar o azulzinho, descrita por usuários, segue sendo a possibilidade de desembarcar em qualquer local ao longo do trajeto, não somente nas paradas de ônibus. Já um problema, também levantado pela prefeitura para embasar a decisão da extinção, é a falta de conservação dos veículos, que precisam ser renovados. Alguns deles contam com bancos rasgados ou com as capas desgastadas. Conforme o presidente da Associação Caxiense Táxi Lotação (ACTL), Everton Silveira, a última troca dos carros foi em 2008. Segundo ele, a ACTL já solicitou novas licitações à prefeitura.
Silveira afirma que são feitas manutenções na sede da associação com mecânico contratado. Além disso, diz que os veículos são vistoriados a cada seis meses para garantir as condições de uso.
Já segundo a Secretaria Municipal de Trânsito, Transporte e Mobilidade (SMTTM), em 2014, após promover audiências públicas para discussões, foi aberta a licitação para permissionários do serviço de táxi-lotação, no entanto, de acordo com a administração municipal, "um grupo de pessoas ligadas à associação entrou na Justiça, solicitando a impugnação da licitação, o que foi aceito”. Já em 2021, a SMTTM diz ter feito um novo projeto para licitação do serviço, mas afirma que não recebeu parecer da ACTL.
Na semana passada, Elói Frizzo, titular da SMTTM, afirmou que a intenção do governo municipal não é acabar com o serviço, mas reformulá-lo, o que pode depender de mudanças estruturais.
O que dizem os usuários
O público que utiliza os azulzinhos é variado. Em horários de maior movimentação, como no início e final do dia, é formado por trabalhadores e estudantes. Vitor Hugo Loro, 64 anos, é morador do bairro Floresta e usa o transporte para se deslocar de casa para o trabalho. Como é vendedor, acaba circulando por diversas regiões de Caxias, como o Serrano e o Cruzeiro, por exemplo.
— Se eu tivesse que pegar o ônibus na EPI (Estação Principal de Integração), teria que pegar outro no Centro para ir ao bairro Serrano, e esse itinerário agiliza para mim. Consigo atravessar a cidade por um itinerário alternativo, que entra nos bairros, e para mim é ágil e rápido. (Considero) seguro, mas os carros precisariam de manutenção, isso é certo — diz Loro.
Moradora do bairro Medianeira, Juliana Jantsch, 37, trabalha em um escritório de advocacia na região central. Normalmente ela utiliza o táxi-lotação nas terças-feiras e destaca que um dos pontos positivos é a praticidade.
— Muitas pessoas utilizam porque têm fácil acesso do bairro para o Centro, e do Centro para o bairro — resume.
Valdenir de Carvalho, 61, mora em Ana Rech e utiliza o azulzinho para se deslocar ao Centro quando vai ao médico. Além disso, a esposa faz compras, normalmente, no Carrefour, no Shopping Villagio:
— Sou contrário à extinção, tem que ficar. Minha esposa vai muito ao Carrefour; se tirar o táxi-lotação, vai precisar pegar seis ônibus.
Usuária do transporte desde o início da operação, a aposentada Iléa Torcheto, 72, afirma que a praticidade e segurança estão entre os fatores principais pela escolha do modelo de locomoção. Nesta semana ela pegou o transporte para ir ao médico na região central, saindo de Ana Rech:
— É muito útil aos moradores daqui (Ana Rech). Se tirar, com certeza vamos sentir muita falta, conseguimos pegá-lo de 20 em 20 minutos, têm poucas paradas.





