
Por mais de um século, gerações inteiras passaram pelos corredores, salas de aula e escadarias do Colégio São José, uma das instituições de ensino mais tradicionais de Caxias do Sul. Fundado em 11 de fevereiro de 1901, o educandário nasceu em meio ao processo de imigração italiana e à forte presença religiosa na Serra. Agora, 125 anos depois, a história construída pelas irmãs de São José, vindas da França, continua presente no cotidiano da escola, que hoje reúne cerca de 1,7 mil estudantes e mais de 200 profissionais.
A origem do colégio remonta ao fim do século 19. As irmãs Azélia Diorcet, Clotilde Zabrer e Dorothée Pachod, juntamente com a madre Paula Dunand, chegaram ao Brasil em 1898, inicialmente em Garibaldi. A missão era clara: trabalhar com meninas, especialmente filhas de imigrantes italianos, a partir de um convite do frei capuchinho Bruno de Gillonnay.
Após os falecimentos da madre Paula e da irmã Dorothée, a congregação foi reforçada com novas missionárias. Em 1901, madre Maria Felicidade e outras três irmãs chegaram a Caxias do Sul e iniciaram as atividades do educandário em uma casa pertencente a Francisco Balen, na Avenida Júlio de Castilhos. Pouco tempo depois, a instituição já contava com mais de uma centena de alunas. Em 1903, a congregação adquiriu três lotes na Rua Os Dezoito do Forte, onde começou a construção do prédio próprio. Ao longo das décadas, a estrutura foi ampliada, acompanhando o aumento da demanda.

“Trabalhar na comunidade e para a comunidade”
Para a diretora da instituição, irmã Ieda Tomazini, 62 anos, que está à frente da escola há quatro anos, a história do colégio revela uma capacidade permanente de leitura das necessidades de cada época.
— As irmãs de São José surgiram na França com uma missão muito clara: atender aos sinais dos tempos. O fundador da congregação (Padre Jean-Pierre Médaille) não queria irmãs de clausura, mas irmãs inseridas na realidade, abertas às necessidades da comunidade. A educação sempre foi, e continua sendo, uma dessas grandes necessidades — afirma irmã Ieda.

No início, o Colégio São José foi pensado especialmente para a educação de meninas, filhas dos imigrantes italianos. Muitas delas permaneciam na escola em regime de pensionato, já que os meios de transporte eram escassos. Além da alfabetização, aprendiam atividades como culinária, bordado, tricô e crochê, saberes trazidos pelas irmãs da França. Com o tempo, a escola ampliou a atuação e passou a atender também meninos, a partir da década de 1950.
— É um legado construído juntamente com a comunidade caxiense. As irmãs não vieram apenas ensinar conteúdos escolares. Elas formaram pessoas, despertaram vocações, prepararam professoras ainda muito jovens, que depois foram se qualificando. É uma história que nasce e se desenvolve com a comunidade, para a comunidade — ressalta.
A diretora destaca que a prioridade da instituição sempre foi a qualidade do ensino:
— Manter a escola no centro da cidade limita a expansão física, então a decisão tomada ao longo do tempo foi investir sempre em qualidade. Para nós, não importa tanto o número de estudantes, mas a formação que eles recebem: acadêmica, humana e social.

O Colégio São José também mantém projetos de voluntariado que mobilizam mais de 150 estudantes, envolvidos em ações no Hospital Geral, no Hospital Pompéia e em comunidades da periferia.
— A educação precisa extrapolar as paredes da escola. O conhecimento caminha junto com valores. Nossos estudantes têm excelente desempenho acadêmico, com destaque em aprovações nas universidades, mas também precisam entender que vivem em sociedade e que são corresponsáveis pelo mundo que constroem — pontua a diretora.
Para irmã Ieda, é essa convicção que a motiva diariamente:
— Eu acredito profundamente que a educação transforma as pessoas. Ela dá instrumentos para compreender a vida, discernir escolhas, enxergar o mundo. Com conhecimento, as pessoas vão longe. Mas conhecimento agregado com valores.
Quatro décadas em sala de aula
Se a história do Colégio São José é marcada pela atuação das irmãs, ela também é feita de professores que dedicaram décadas de suas vidas à instituição. Uma dessas trajetórias é a da professora Silvana D’Agostini, 63, que leciona Biologia desde 1983, somando 43 anos de sala de aula no colégio.
— Naquela época, escolher uma profissão também tinha a ver com dignidade e com a possibilidade de sustentar uma família. Acabei cursando Ciências e depois Biologia, e fui convidada pela irmã Renata Anelda Segat, que era diretora na época, para trabalhar aqui. Fui ficando, estudando mais, me especializando — recorda.

Para Silvana, o vínculo com a escola sempre foi além do aspecto profissional.
— Quem ama o que faz acaba tendo resultados, e isso aparece nos alunos, no gosto pela disciplina, mas principalmente na formação das pessoas. O professor é exemplo. Existe o compromisso com horários e regras, claro, mas o compromisso com as pessoas não tem medida.
Ela destaca ainda a dimensão espiritual que sempre fez parte da instituição:
— A gente precisa acreditar no que faz, e isso passa por uma força maior. Eu costumo brincar que São José escolhe a dedo os professores que vêm para cá e permanecem tantos anos. A escola nos abraça, e isso faz toda a diferença.
A longa permanência resulta em histórias que atravessam gerações.
— Meus filhos estudaram aqui e hoje tenho netos no Colégio São José. É uma história de vida. Às vezes eu brinco e digo que as escadas me conhecem. E o que me motiva diariamente é a paixão por ensinar. Aqui tem gente vibrando, esperando aprender, conversar, construir projetos. Isso nos move. A gente vem para vibrar junto — afirma.
Outra trajetória emblemática é a da professora Maria Celeste Caberlon Maggioni, 59, que está no colégio desde 1986 e soma 40 anos de atuação como professora de Química. Sua relação com a área começou ainda no Ensino Médio, influenciada pela irmã.
— Foi ela quem me apresentou à Química, e eu me apaixonei. Na hora do vestibular, fiquei entre Direito, Agronomia e Química, mas não teve jeito.

Maria Celeste ingressou no Colégio São José inicialmente para trabalhar no setor audiovisual e na biblioteca, também a convite da irmã Renata Anelda Segat. Pouco depois, passou a substituir colegas e assumiu aulas de Ciências e, mais tarde, de Química no Ensino Médio.
— Quando a gente começa a conhecer a história da escola e o que as irmãs fizeram por essa cidade, é algo que se sente no coração. Eu entrei, participei e nunca mais saí.
Além da sala de aula, ela também atua na vice-direção, a convite da atual diretora. Ainda assim, fez questão de continuar como professora.
— Eu disse para a irmã Ieda que não queria sair da sala de aula. A gestão é importante, mas o olhar da aprendizagem, de onde a gente quer chegar, também precisa estar presente.
Para Maria Celeste, a principal motivação diária cabe em uma palavra:
— Amor. Amor à profissão, amor aos adolescentes, amor à escola. A gente acredita que a educação transforma.





