
Ter os próprios hobbies, viajar sozinha, focar nos estudos, ser promovida, viver sem maiores preocupações. Entre mulheres heterossexuais, ganha força a ideia do desprendimento das relações amorosas para priorizar a própria companhia e os próprios projetos. Ao mesmo tempo, alguns fatores ajudam a explicar a gradativa redução da centralidade das relações amorosas na vida das mulheres: o crescimento de discursos misóginos em redes sociais, o aumento dos feminicídios e o desgaste emocional vinculado às configurações tradicionais de relacionamentos.
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) divulgou recentemente o relatório Retrato dos Feminicídios que, somente em 2025, foram 1.568 mulheres vítimas de feminicídio no Brasil, crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior e de 14,5% em relação a 2021.
O estudo também mostra que, entre 2021 e 2025, o Rio Grande do Sul foi o Estado com o maior número de feminicídios da Região Sul, respondendo por 38,8% das mortes. Foram 444 casos no Estado, frente a 429 ocorrências no Paraná e 272 em Santa Catarina. Além disso, somente em dois meses de 2026, 20 mulheres já foram assassinadas no RS.

Alerta constante
Para a psicóloga caxiense Thaís Gaspari, esse crescimento das estatísticas vem interferindo nas relações heterossexuais, pois, mesmo que não tenham sido vítimas diretamente, o sentimento de “alerta constante” torna-se recorrente.
— Entre os fatores que mais impactam as relações hoje, a violência contra mulheres também ocupa um importante lugar. Na clínica, ela aparece menos como um evento isolado e mais como um estado constante de alerta, que dificulta a confiança, a entrega emocional e a construção de intimidade. Mesmo sem vivências diretas, o acúmulo de relatos, dados e experiências cotidianas de desrespeito, fazem com que muitas mulheres deixem de perceber o relacionamento como um espaço automático de proteção e, nesse estado, muitas não conseguem relaxar no vínculo, nem ser quem são de forma espontânea. Há contenção, autocensura e medo de se expor. O relacionamento, então, deixa de ser um espaço de abertura emocional e passa a ser vivido como um território de vigilância, sendo muito mais difícil uma conexão genuína e duradoura — explica.
Custos invisíveis
Já para a psicóloga, professora e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) Valeska Zanello, o receio de mulheres investirem em relacionamentos vai além do medo da violência física e abrange "custos invisíveis" que envolvem a vida cotidiana.
— As mulheres têm ponderado o preço da manutenção de relações afetivas heterossexuais, que são marcadas por custos invisíveis como tarefas domésticas, cuidado com os filhos, compras, o que faltou na casa, além da gestão afetiva que existe na nossa cultura, uma desresponsabilização dos homens em relação aos seus afetos e comportamentos e uma hiper-responsabilização das mulheres — esclarece.
Valeska também pontua como as relações, por muitas vezes, custam mais à saúde mental das mulheres do que a dos homens:
— Em geral, o casamento ou as relações heterossexuais são um fator de risco para a saúde mental das mulheres. Por outro lado, são um fator de proteção para a saúde mental dos homens. Por exemplo, saiu alguma coisa na conversa que chateou o cara, é comum o tratamento de silêncio e a mulher fica "mas por que você está em silêncio, você está chateado?", assim tentando traduzir as emoções do homem para ele mesmo, tornando-se uma tarefa bem pesada. No final das contas, somando essas tantas atividades visíveis e invisíveis, é um alto custo para as mulheres. Então, realmente, pondera-se para saber se vale a pena — salienta.

Heteropessimismo: a descrença e exaustão em relacionamentos
Na esteira de estatísticas e de conversas dentro e fora de consultórios, um termo surge nas redes sociais e provoca amplos debates: o heteropessimismo. Segundo a psicóloga Thaís, trata-se de "um sentimento coletivo de descrença e exaustão em relação aos relacionamentos heterossexuais, especialmente a partir da vivência das mulheres."
Contudo, não é como se as mulheres tivessem "desistido" do afeto ou intimidade com o outro, mas sim, da estrutura dos relacionamentos padrões, que demandam, historicamente, "renúncia, cuidado excessivo e silenciamento" por parte delas.
A psicóloga afirma que o heteropessimismo já é tratado como um fenômeno social e não um "sentimento individual".
— Do ponto de vista científico, já existem incontáveis estudos de psicologia social e análise cultural que mostram que mulheres heterossexuais relatam níveis mais altos de estresse relacional e menor satisfação quando comparadas a homens heterossexuais e a mulheres em relações homoafetivas. Isso ajuda a entender porque o heteropessimismo não é apenas um “sentimento individual”, mas já está se tornando um fenômeno social.

"Os caras querem que a gente volte para o Século 20"
Para o psicólogo Humberto Carvalho, que pesquisa masculinidade, o crescimento do heteropessimismo também está ligado a uma crise contemporânea do significado de "ser homem". Ele explica que existe um cenário de pequenos conflitos cotidianos – de descompasso no modo de pensar ou nas atitudes – que alimenta o ceticismo feminino em relação a esses vínculos:
— É que as mulheres têm se colocado muito mais à frente em pesquisas acadêmicas e acessado espaços de reflexão que são muito mais interessantes e complexos. Elas estão se politizando, em um sentido social e cultural, para entender os papéis e funções atribuídas a elas que precisam ser revistas. Os caras querem que a gente volte para o Século 20 e consomem muito conteúdo sobre isso. Tem essa disparidade.
Para o psicólogo, concepções ultrapassadas sobre papéis de gênero ainda operam como regras implícitas, pressionando mulheres a agir de determinada forma ou a tolerar comportamentos que já não consideram aceitáveis. O problema, afirma, é que, enquanto elas questionam essas expectativas e reivindicam novos arranjos, parte dos homens resiste a rever responsabilidades. Esse desencontro de visões não aparece apenas em pequenos atritos cotidianos, mas também pode se manifestar em episódios mais graves de violência.
Dificuldades em confiar e "muitas opções"
A falta de interesse em estar dentro de um relacionamento também surge pela dificuldade de confiar no outro, principalmente no início de uma relação, em que há muitas incertezas.
— Um dos pontos centrais que emerge em muitas consultas é a dificuldade de confiar, não apenas no outro, mas no futuro da relação. Muitas mulheres relatam insegurança em investir emocionalmente diante da sensação de instabilidade, falta de clareza sobre compromisso (principalmente no início da relação) e pouca corresponsabilidade afetiva. Há um receio constante de que o vínculo não se sustente no tempo ou exija delas um custo emocional excessivo — pontuou Thaís.
Além disso, a profissional trouxe como as redes sociais e os próprios aplicativos de relacionamento aumentaram a sensação de "poder de escolha" tanto para homens quanto para mulheres. Esse fenômeno foi descrito pelo psicólogo Barry Schwartz e sustenta que o excesso de liberdade pode ter efeitos adversos sobre o nosso bem-estar: em vez de nos deixar mais felizes, uma abundância de opções tende a nos bloquear, frustrar e provocar a sensação de que sempre, em todos os âmbitos, poderíamos ter escolhido algo/alguém melhor.
— É a famosa sensação que compartilhamos de termos “infinitas opções”, amplificada por aplicativos de relacionamento, que dificulta ainda mais o engajamento profundo e alimenta a ideia de que sempre pode existir alguém “melhor”. Isso fragiliza o compromisso e aumenta a ansiedade relacional, especialmente para mulheres que desejam vínculos mais estáveis — destacou.
“O movimento não é de desistir do amor, mas de reaprender a amar”
Thaís frisa que a sensação pessimista em relação aos relacionamentos também é compartilhada por muitos homens, mas que há movimentos visíveis, mesmo que lentos, para mudanças das relações futuras.
— A longo prazo, essas mudanças tendem a produzir tensionamentos importantes nas dinâmicas de gênero e, historicamente, é a partir da tensão que ocorrem transformações sociais. A recusa de muitas mulheres em sustentar relações marcadas por desigualdade, sobrecarga emocional e vigilância constante funciona como um catalisador para revisões profundas sobre masculinidade, corresponsabilidade afetiva e maturidade emocional. É fundamental reconhecer que esses impasses também atravessam os homens, socializados em uma cultura que historicamente reprime a expressão emocional e a vulnerabilidade. Já se observa, tanto na clínica quanto no debate público, um número crescente de homens buscando compreender seus afetos, assumir responsabilidade emocional e construir vínculos mais simétricos — frisa.
Junto disso, ressalta a necessidade de manter a esperança no amor, sem romantizar o sofrimento.
— O movimento não é de desistir do amor, mas de reaprender a amar, com mais clareza sobre limites, expectativas e reciprocidade. Partindo da minha opinião pessoal juntamente com a minha expertise clínica e ponto de vista psicológico: é esse movimento que preserva a esperança no futuro das relações, sem romantizar o sofrimento, e abre espaço para vínculos que deixem de adoecer e passem, de fato, a sustentar a vida emocional de quem está neles — finalizou Thaís.
O psicólogo Carvalho acredita que é possível contornar o problema, mas isso exige envolvimento ativo de ambos os lados. Para ele, homens precisam rever referências de masculinidade, questionar conteúdos que reforçam desigualdades e assumir responsabilidade emocional nas relações.
— A forma como nós tratamos a nossa masculinidade e os nossos discursos de masculinidade precisa mudar. Temos que dar um passo para trás e entender como estamos. Eu sinto que isso está acontecendo. Óbvio, de forma muito devagar, mas existe um movimento interessante sobre masculinidades acontecendo. Mas é necessário produzir outros discursos e outras formas de ser enquanto homens — defende Carvalho.



