
No início do século 20, a localidade conhecida como Campestre Canella ainda era um pequeno povoado na Serra, formado por fazendeiros, tropeiros e famílias de imigrantes que buscavam novas oportunidades na região. Foi naquele cenário de crescimento econômico e movimentação comercial que, em 2 de março de 1926, a comunidade conquistou um marco importante: a elevação à condição de 6º Distrito de Taquara.
Passados cem anos desde aquela decisão administrativa, o episódio é lembrado como um dos passos decisivos para que a localidade deixasse de ser apenas uma extensão de Taquara e passasse a construir a própria identidade política, social e econômica, caminho que culminaria, em 1944, com a criação oficial do município de Canela.
Atualmente, o município tem cerca de 52 mil habitantes e se consolidou como um dos destinos turísticos mais conhecidos do país, com mais de 50 atrações voltadas aos visitantes e uma economia fortemente sustentada pelo setor de serviços, que engloba o turismo.
Das rotas de tropeiros ao início da urbanização
A história de Canela remonta ao período em que a região ainda servia como rota de passagem para tropeiros que transportavam gado, couro e queijo do centro do Brasil para o sul do Estado. O território, inicialmente habitado pelos indígenas Caaguás, recebeu em 1821 seu primeiro proprietário formal, Joaquim da Silva Esteves, que obteve da Coroa Portuguesa o título de “Senhor do Campestre Canella”.
O nome da cidade tem origem em uma árvore nativa muito comum na região: a caneleira. A sombra da árvore servia como ponto de descanso para viajantes que percorriam os caminhos da Serra. O local onde os tropeiros costumavam parar fica próximo à atual Praça João Corrêa, no centro da cidade.
O desenvolvimento mais consistente da localidade começou a partir de 1903, quando o coronel João Corrêa Ferreira da Silva se estabeleceu na região e liderou a formação do primeiro núcleo urbano. Foi ele quem organizou a abertura da estrada que ligava a localidade a Taquara, além de estimular os primeiros serviços públicos e atividades comerciais.

Nas primeiras décadas do século 20, o crescimento de Canela foi impulsionado principalmente pela exploração de madeira. A abundância de araucárias na região atraiu investimentos e levou à criação, em 1913, da Companhia Florestal Riograndense, responsável por adquirir terras e instalar serrarias para a exploração madeireira.
Outro fator decisivo foi a construção da ferrovia ligando Canela a Taquara, no Vale do Paranhana. A obra, iniciada em 1913 e concluída em 1925, intensificou o fluxo de mercadorias e pessoas, contribuindo para consolidar a importância econômica da localidade. A chegada da ferrovia representou um impulso fundamental para o desenvolvimento do então povoado.
A criação do distrito e o caminho para a emancipação
Com o crescimento da atividade comercial e industrial, aumentaram também as reivindicações para que a localidade tivesse maior autonomia administrativa.
Assim, em 2 de março de 1926, por meio de um ato do município de Taquara, foi criado oficialmente o 6º Distrito, com sede em Canella. A nova divisão administrativa foi formada a partir de áreas que pertenciam ao 5º Distrito, cuja sede ficava em Gramado. A instalação oficial ocorreu apenas 12 dias depois, em 14 de março de 1926.
Para o prefeito Gilberto Cezar, a criação do distrito representou mais do que uma simples mudança administrativa.
— Simbolizou a união da população em prol de transformar Canela em uma cidade. Na época, era como se fosse uma extensão de Taquara, uma vila que fazia parte do município. Lá na década de 1920 já existia aqui um espírito visionário, que até hoje valorizamos. A criação do distrito foi um passo decisivo na consolidação da nossa identidade — afirma.
A organização administrativa como distrito fortaleceu o movimento emancipacionista, liderado por nomes como Pedro Sander, Nagibe da Rosa, Danton Corrêa da Silva, Attilio Zugno e Pedro Oscar Selbach.
A mobilização da comunidade acabou resultando na criação oficial do município de Canela em 28 de dezembro de 1944, por meio da Lei Estadual nº 717. A instalação ocorreu em janeiro de 1945, quando Nelson Schneider foi nomeado o primeiro prefeito.
Uma cidade que não parou de crescer
Ao longo das últimas décadas, Canela consolidou sua economia principalmente a partir do turismo. A cidade faz parte da Região das Hortênsias e recebe visitantes de diferentes partes do Brasil e do Exterior.
Segundo o prefeito Gilberto Cezar, cerca de 80% da economia local está ligada direta ou indiretamente ao setor turístico.
— São mais de 60 atividades econômicas que envolvem o turismo, desde hotelaria e restaurantes até parques, eventos e serviços — afirma.
Atualmente, o município é reconhecido oficialmente como Capital Nacional dos Parques Temáticos, título concedido por lei federal. A cidade reúne mais de 50 atrações turísticas, incluindo parques, museus e espaços temáticos.
Além do turismo, abriga indústrias de alimentos, móveis e chocolate e conta com atividades ligadas à produção de celulose.
Crescimento populacional e novos investimentos
Atualmente, Canela continua atraindo novos moradores. De acordo com o prefeito, o município registrou recentemente um crescimento médio de cerca de 400 novos moradores por mês.
— Muita gente vem para Canela buscando qualidade de vida e oportunidade de trabalho. A cidade possibilita um projeto de vida para quem quer empreender ou trabalhar — diz.
O setor da construção civil também acompanha esse crescimento, com novos empreendimentos residenciais e turísticos sendo lançados.
Entre os investimentos previstos, segundo o prefeito, está a inauguração, no próximo ano, de um hotel seis estrelas de rede internacional, que deverá ampliar ainda mais o fluxo turístico.
Infraestrutura e planejamento para o futuro
Para acompanhar o crescimento populacional e econômico, a prefeitura trabalha na elaboração de um novo Plano Diretor, que deverá estabelecer diretrizes para o desenvolvimento urbano da cidade.
Entre os desafios estão a ampliação da rede de saneamento e o planejamento da mobilidade urbana. Atualmente, a concessionária responsável pelo saneamento tem a meta de atingir 90% de cobertura até 2030.
Conforme Gilberto Cezar, outro fator que pode impulsionar o desenvolvimento regional é o projeto do futuro aeroporto de Vila Oliva, em Caxias do Sul, que deve atender toda a região. A ligação entre Canela e o empreendimento pode ocorrer pela RS-476, considerada a alternativa mais viável do ponto de vista ambiental e econômico.
Segundo o prefeito, a melhoria da infraestrutura logística pode fortalecer ainda mais a economia da região.
— A Serra gaúcha deve se tornar o epicentro do crescimento do Rio Grande do Sul, e Canela faz parte desse contexto — projeta.


