
Maior rentabilidade, aumento da eficiência e redução da pressão sobre o clima. Assim como em outros segmentos da agricultura e pecuária, a criação de gado leiteiro tem sido impelida a conciliar a produtividade com técnicas sustentáveis.
O debate sobre os impactos das atividades no campo e a adoção de práticas que contribuam para a descarbonização do setor leiteiro têm se intensificado nos últimos anos, sobretudo frente aos efeitos iminentes das mudanças climáticas, como estiagens e enchentes.
No fim de 2025, a Embrapa Pecuária Sudeste, referência nacional em pesquisa e metodologias de criação de gado de corte e leiteiro, lançou um livro com protocolos para a redução da emissão de gases de efeito estufa (GEE) e sequestro do carbono nas propriedades.
Divisão de áreas em piquetes, pastagem rotativa, recuperação de áreas degradadas e maior adubação com matéria orgânica são recomendações encontradas na publicação da Embrapa. Contudo, essas técnicas já são implementadas em pequenas e médias propriedades do Rio Grande do Sul e da Serra gaúcha há ao menos 15 anos.
O compartilhamento de boas práticas na produção leiteira ganhou espaço no Estado através do programa de Produção Integrada em Sistemas Agropecuários, o Pisa. Iniciado na região das Missões, o projeto tem se difundido em diferentes bacias leiteiras gaúchas.
Desenvolvido pelo Ministério da Agricultura, Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), o projeto chegou à Serra em 2021, atendendo produtores de Caxias do Sul, Nova Petrópolis e Farroupilha.
— O Pisa trabalha a produção integrada, nos moldes da integração lavoura-pecuária, onde se cultiva no mesmo local em que há animais. É um sistema que visa a aumentar a sustentabilidade econômica, ambiental e social para as propriedades e que garanta a continuação das atividades dos produtores — explica o engenheiro agrônomo e consultor técnico Lucas Oliveira.
Como funciona o Pisa
Sem custo para os produtores atendidos pelo programa, o Pisa já assessorou 20 pequenas e médias propriedades na região no seu primeiro ciclo entre 2021 e 2025. Em uma propriedade assessorada em Caxias do Sul, tida como a Unidade Difusora de Tecnologia, o custo de produção caiu 19%, enquanto a produção aumentou em 32% no intervalo de cinco anos.
Os resultados são reflexos de mudanças na organização da propriedade, com um novo foco: recuperar o manejo dos animais nos mesmos moldes dos primórdios desse sistema produtivo.
— O objetivo é ter os animais nas pastagens, o que reduz a dependência de ração e silagem (alimento preparado à base de milho). Para isso, planejamos o cultivo do pasto e usamos a adubação orgânica no solo a partir do esterco do próprio animal. Essa reciclagem de macros e micronutrientes é o que subsidia o crescimento da vegetação, diminuindo a compra de fertilizantes e de ração — detalha Oliveira.
O cultivo das pastagens segue as estações, adaptando a base alimentar das vacas ao clima. A área da propriedade é dividida em parcelas menores, os piquetes, onde o pastejo acontece de forma rotativa, o que dá tempo dos cultivos se desenvolverem ao mesmo tempo que mantém os animais alimentados.
— Ao comer o pasto, a vaca se nutre de vitaminas, minerais, proteínas e açúcares. Então, o produtor começa a diminuir a oferta de ração e ampliar a pastagem. Com isso ele consegue baratear o custo da dieta do rebanho e usa a ração, item caro, como suplementação. Com isso, a alta taxa de ingestão de pasto reflete na produção, que se torna mais barata e na qualidade do leite, que ganha um sabor diferente devido à alimentação — indica.
Paralelamente a isso, as técnicas adotadas favorecem o equilíbrio na propriedade ao aumentar a cobertura do solo, ampliar a presença de nutrientes, o que faz crescer a produtividade em áreas já existentes e reduzir o revolvimento do solo, o que evita a liberação de CO2.
Parceira com gigante do leite
Neste ano, o Pisa entra em um novo ciclo na Serra. Desde março, produtores cooperados da Santa Clara, de Carlos Barbosa, passaram a ser atendidos pelo projeto, sendo o único grupo com o assessoramento técnico na região.
A parceria entre o Sebrae e a cooperativa permite que 13 propriedades em Muitos Capões e Vacaria consigam aderir às práticas e testar a metodologia nos Campos de Cima da Serra, tendo como foco o aumento da rentabilidade.
— É um piloto que estamos testando, já que a região em que esses produtores atuam tem muitas especificidades, como a altitude, relevo e clima. Essa ação vai se estender por todo o ano e temos expectativas de ver um bom desempenho — indica Felipe Soares gerente do Departamento de Política Leiteira da cooperativa.
Novos rumos para as propriedades familiares
Em Nova Milano, no interior de Farroupilha, o casal Mariane e Alexandre Massignan, pequenos produtores de leite, conseguiram reduzir os custos de produção em 25% após dois anos de assessoramento com o Pisa. Um resultado que tem auxiliado a família a manter a estabilidade financeira frente à oscilação nos preços de venda do leite.
— A gente já tinha a propriedade dividida em piquetes. Aprendemos a cultivar as pastagens conforme o clima, e o mais importante: a fazer as vacas colherem o pasto. Esse ciclo faz o pasto rebrotar mais rápido e diminui o custo de silagem e ração, que atualmente estão caros em comparação ao valor da venda leite — explica Massignan.
Conforme o produtor, a vacas passavam nos piquetes a cada 30 dias, contudo, o crescimento acelerado das pastagens fez com que a rotatividade se intensificasse. Atualmente, a pastagem é a cada 11 dias. Em dezembro, a produção rendeu mais do que o esperado, rendendo um silo que irá alimentar o rebanho em uma fase de pouca disponibilidade de alimento.
Além da escolha de variedades adequadas ao clima, como a grama quicuio, o produtor tem usado as fezes das próprias vacas para adubar o solo, descartando o uso de produtos químicos para garantir o cultivo.
O resultado é visto diariamente: dos 700 litros/dia, a propriedade passou a produzir 1,3 mil litros/dia com um incremento de rebanho de 20 animais. Antes, eram 40 vacas lactantes em um rebanho de 80 animais. Hoje são 60 lactantes entre 130 animais, incluindo filhotes e vacas secas (que não estão produzindo leite).
— Foi um ganho muito bom para nós, principalmente por causa das crises que temos visto. Conseguimos manter a nossa propriedade equilibrada, produzindo mais leite e com qualidade de vida para os animais e para nós, que temos trabalho mais com a organização e menos com o braço.





