
Caxias do Sul conta atualmente com mais de 3 mil veículos que usam energia elétrica para circular pela cidade. Dados do Detran indicam que, desde 2023, o número de motoristas que optaram pelos modelos totalmente elétricos ou híbridos cresceu 224%, tanto que neste ano o município atingiu a maior frota eletrificada já registrada.
Além de mudar o cenário pelas ruas, o aumento desses veículos se reflete em cadeias correlatas, que têm sentido o impacto da transição. Comércios e postos de combustível têm criado pontos de carregamento, construtoras estão projetando a rede elétrica de empreendimentos para suportar o “abastecimento” dos novos modelos.
Mas é no setor de energia solar que a influência dos carros elétricos tem sido mais notada. Isso porque a ascensão desses automóveis fomentou uma nova e intensa busca pela instalação de painéis solares.
Os dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) indicam que, em 2022, Caxias do Sul teve o pico de conexões residenciais geradoras de energia por painéis solares: foram 2.915 ligações. Após dois anos de quedas consecutivas, em 2023 e 2024, os números voltaram a crescer em 2025, com 1.567 conexões.
A expectativa de quem atua no segmento é que este seja mais um ano de alta na procura por painéis solares para residências. É o caso dos empreendedores Bruno Fiorezi e Guilherme Antunes, que viram os atendimentos saltarem no fim de 2024, aproximadamente quando a frota eletrificada começou a crescer na cidade.
A empresa, que já atendia projetos residenciais, encontrou nos motoristas de aplicativo um mercado aquecido, com alta demanda de painéis solares nas casas.
— Do fim de 2024 para cá a nossa clientela se transformou. Hoje, atendemos praticamente quem compra um elétrico e trabalha com aplicativo de corrida. Além do carro não ter o custo de manutenção e do combustível, as placas reduzem o gasto da energia em casa e ainda recarregam o carro. Fica o lucro limpo para a pessoa — explica Fiorezi.

Em termos de geração, o sistema capta maior volume no verão — cerca de 45% a mais do que no inverno. Nesse processo, a energia gerada que não é consumida, é computada pela concessionária, no caso a RGE, e fica como crédito.
— Se o projeto for bem dimensionado, levando em conta os gastos da casa e do carro, o cliente passa tranquilo pelo inverno, conseguindo carregar o veículo em casa, sem gastar a mais. Mas para isso é importante fazer um projeto antes de instalar as placas, porque pode acontecer do sistema que já está na casa não dar conta da demanda do veículo — orienta Antunes.
A microgeração de energia, aquela feita nas residências, utiliza 15 painéis, que são instalados no telhado das casas. A aquisição do kit usina (placas, inversores e estrutura) é facilitada por financiamentos, tendo retorno em até quatro anos, após o fim das parcelas.
Adaptações no mercado da geração de energia para 2026
A mudança de cenário, com maior demanda por projetos residenciais, também influenciou a estratégia de empresas de grande porte que atuam no segmento da geração de energia solar. A Magnani é uma delas, tanto que começou 2026 com foco na microgeração.
Conforme Júlio Cesar de Oliveira, gerente comercial, os projetos para grandes usinas, parcela até então atendida pela empresa, têm enfrentado barreiras de aprovação pelos órgãos que regulamentam a geração de energia solar.
Diante do crescimento da frota eletrificada, a companhia remanejou o olhar sobre o mercado, inclusive, prevendo novas possibilidades a serem exploradas.
— Hoje nós enxergamos um movimento de maior procura pelos sistemas híbridos, compostos pela placa solar, um inversor híbrido e mais um sistema de armazenamento de energia em baterias — detalha.
Conforme ele, as baterias garantem o armazenamento independentemente da rede e permitem que a energia possa ser usada quando a pessoa precisar, como durante a noite ou em momentos em que o abastecimento falhar.
Redução na conta e "abastecimento" em casa atrai o público
Há cinco meses com os painéis solares em casa, no bairro Esplanada, o aposentado Carlos Antônio Loro, de 65 anos, viu o custo da energia cair em 80%. Nessa conta de redução está incluso o carro elétrico que ele e o filho usam para trabalhar com transporte via aplicativo.
— A nossa conta geralmente chegava a R$ 550, hoje, com as placas e carregando o carro todos os dias, estamos pagando R$ 120. Fora os custos com o combustível, que antes era de R$ 2,5 mil, quando a gente usava um Polo para fazer as corridas — conta Loro.
O valor antes usado para custear a gasolina, agora paga a parcela do carro novo. Segundo o aposentado, a troca para um elétrico foi uma decisão visando corte de gastos, mas que agora se mostra conveniente em outros aspectos.
— É muito mais tranquilo de dirigir e nessa fase em que o custo da gasolina aumentou, nós estamos sossegados. A gente consegue "abastecer" sem sair de casa e sem se preocupar com o preço da bomba.
Aliás, a instalação dos painéis e do carregador em casa permitiram que pai e filho ampliassem o tempo de serviço. De 30 horas semanais, eles passaram a rodar 40 horas, aumentando o lucro nos transportes feitos.



