Famílias atingidas pelas enchentes dos últimos anos em Santa Tereza, na Serra, podem finalmente recomeçar a vida em uma casa própria. Foram inauguradas, nesta segunda-feira (23), 24 moradias definitivas do loteamento Stringhini II, onde as obras com recursos do governo do Estado se arrastavam desde setembro de 2024.
A solenidade de entrega das chaves, no início da tarde, contou com a presença do governador do RS, Eduardo Leite, do secretário estadual de Habitação e Regularização Fundiária, Bruno Silveira, e da prefeita Gisele Caumo.
O protocolo durou cerca de meia hora. Houve apresentação do coral infanto-juvenil da cidade Vozes do Amanhã, com 18 crianças, e bênção do padre Agenor da Rocha, além dos discursos de autoridades. O descerramento da placa de inauguração do residencial aconteceu às 15h07min.
Leite foi o último a falar. Ressaltou que as equipes de governo estiveram presentes o tempo todo durante a construção das casas e reconheceu as dificuldades enfrentadas nos trabalhos. Também falou dos desafios e entregas da sua gestão.
— As casas estão entregues, o terreno era difícil, tinha dificuldade de desnível e, pelo nível de complexidade (das obras), acho que (a entrega acontecer) menos de dois anos depois das enchentes foi até rápido diante dos inúmeros desafios que tínhamos aqui — destacou, em entrevista coletiva após a solenidade.
As unidades habitacionais têm 44 metros quadrados, com dois dormitórios, sala e cozinha conjugadas, um banheiro e área externa. A estrutura é de painéis de parede de concreto pré-moldado.
Para a prefeita Gisele Caumo, o processo de reconstrução de Santa Tereza, cidade de cerca de 2 mil habitantes margeada pelo Rio Taquari, está concluído com a entrega das casas.
— Reconstruímos estradas, taludes, contenções, mas faltava entregar a obra principal. Não estamos falando simplesmente de casas, de concreto, de janelas, de portas. Estamos falando de lares. É uma forma de devolver a dignidade para essas 24 famílias. Perdemos muito em infraestrutura, mas nenhuma vida foi levada. Com tudo isso nos fortalecemos — afirma.
O investimento foi de R$ 7,6 milhões — R$ 3,3 milhões para as residências e R$ 3,5 milhões para os muros de contenção necessários para estabilização do terreno, via Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs). O montante ainda abrange R$ 858 mil, destinados pelo governo do Estado para preparo do terreno. O projeto integra o programa A Casa é Sua - Calamidade.
A prefeitura de Santa Tereza ficou responsável pela contratação dos serviços de infraestrutura complementares, como os muros de contenção, as redes de drenagem pluvial e cloacal, e a pavimentação do local.
“É um recomeço”, afirma moradora contemplada

A dona de casa Elaine Maria Medeiros Gomes, 70 anos, foi uma das primeiras moradoras a receber as chaves do novo lar. Na inundação de setembro de 2023, em Santa Tereza, ela viu sua casa ser levada pela força da água:
— A minha casa foi parar perto do campo de futebol.
Enquanto as obras decorriam, Elaine seguiu na cidade, mas morando em uma residência alugada. Agora, comemora o novo momento ao lado do marido, Valdori Morais, 62, da filha Neilane Pereira, 42, e da neta, Maria Antônia, quatro.
— É um recomeço para tudo o que perdemos em 2023. Sempre tive fé em Deus de que um dia eu teria minha casa de novo. Para minha família, está tudo bem — resume ela, ao entrar no novo lar.

O aposentado Antônio Trentin, 61, teve a casa coberta pela água das cheias do Rio Taquari em três ocasiões, entre 2023 e 2024. A agonia dele por viver em uma área de risco, com atenção a cada chegada de temporal e alerta da Defesa Civil, se encerrou nesta segunda.
— Nas três vezes a água cobriu a casa, não a levou embora porque não tinha correnteza. Eu consegui escapar, mas tudo o que tinha dentro estragou — lamenta, mas celebra a possibilidade de começar de novo:
— Eu estou bem feliz porque vou entrar numa casinha bonita, novinha, segura, sem risco para enchente.
Conclusão das casas passou por adiamentos
A previsão original para conclusão das casas era de 120 dias a partir do início dos trabalhos, em 4 de setembro de 2024. Com atrasos e adiamentos, a construção acabou durando um ano e seis meses.
Os motivos alegados para o atraso foram a complexidade do terreno do loteamento, a sobreposição de etapas entre as empresas que operavam no canteiro de obras e a quebra de contrato com a empreiteira inicialmente selecionada por meio de licitação.
Em 10 de outubro de 2025, após verificar o descumprimento de prazos e de adequação no canteiro de obras, a Secretaria Estadual de Habitação e Regularização Fundiária (Sehab) rescindiu o contrato com a KMB Construtora e Incorporadora.

Com isso, a construção ficou um mês paralisada. A retomada aconteceu após a convocação da segunda colocada no processo licitatório, a Previbras Soluções Industriais, de Gravataí.
Antes disso, o então secretário estadual de Habitação Carlos Gomes chegou a prometer a entrega das moradias para o fim de agosto do ano passado, em evento na Serra com Leite; e, depois da escolha da nova empreiteira, para o Natal. Ambos os prazos acabaram não sendo cumpridos.
Além de Santa Tereza, o governo do Estado inaugurou nesta segunda moradias em Porto Alegre, Campo Bom, Feliz, Nova Esperança do Sul e Salvador do Sul. A agenda também incluía Venâncio Aires, mas o evento foi cancelado no município por conta da chuva.



