
O ano letivo na rede municipal de ensino de Caxias do Sul será oficialmente retomado na quarta-feira (18) com uma alteração importante e que gerou preocupação nos pais. Cerca de 800 alunos do 8º ano em 2025 foram transferidos para escolas estaduais para cursarem o 9º ano em 2026. A decisão foi tomada pela prefeitura ainda em outubro com a justificativa de abrir novas vagas para pré-escola até 8º ano.
Quinze escolas municipais já não estão mais ofertando o 9º ano (confira a relação completa abaixo). Entre elas, foram distribuídas 33 turmas e mais de 1,1 mil novos alunos foram atendidos.
No caso do Estado, a 4ª Coordenadoria Estadual de Educação (4ª CRE) vem se organizando desde o anúncio para atender os novos estudantes. Conforme a responsável pelo órgão, Cristina Fabris, todos os alunos foram matriculados ou estão no processo, além disso, turmas foram adaptadas para as demandas que foram surgindo, como de menores cadastrados no programa Jovem Aprendiz.
Outro ponto citado pela coordenadora foi que os planos de ensino são muito similares ao aplicado nas escolas municipais, mas que vão trabalhar em atividades de acolhimento para os novos alunos.
— É um trabalho em conjunto com o próprio município, de acolhimento, mas não vai ter uma adaptação de conteúdo, a matriz curricular, os conteúdos programáticos da série são basicamente os mesmos. Mas vamos fazer com todas as séries no início do ano letivo, uma avaliação diagnóstica, verificando como esses estudantes estão. Se precisar de intervenção, a gente vai fazer dentro da própria escola — explica.
Cristina também comentou que a mudança não deve ser complexa, dado que teriam que se transferir de escola nos próximos anos para iniciarem o Ensino Médio.
— Mas eles estão vindo para a rede pública estadual, como se eles estivessem vindo no primeiro ano do Ensino Médio. Então, a gente tem organizado as turmas, organizado de que forma todos sejam atendidos, da melhor forma, mas eles vão seguir agora como se eles estivessem iniciando o Ensino Médio. A gente vai trabalhar com o Núcleo de Bem-Estar, juntamente com uma comissão que foi composta tanto por Smed como CRE, para trabalhar na adaptação e no acolhimento desses alunos — conta.
Receio dos pais quanto ao transporte
Para os alunos que foram transferidos para as oito escolas estaduais nos respectivos zoneamentos, a prefeitura garantiu passagens gratuitas para o transporte coletivo urbano e que está adaptando os roteiros com a concessionária do serviço, a Visate. Cerca de 570 estudantes serão beneficiados.
Contudo, a mudança vem trazendo receios para algumas comunidades, como do bairro Vale Verde, em que os alunos da Escola Municipal Machado de Assis foram transferidos para a Escola Estadual Cristóvão de Mendoza, no bairro Cinquentenário.
De acordo com a presidente do bairro, Sandra Avellaneda, que está acompanhando o processo desde o início, a maior reclamação dos pais foi a falta de diálogo com a comunidade sobre a mudança.
— A maior parte das reclamações foi deles avisarem da transferência em cima da hora. Nenhum dos pais conseguiu se organizar, inclusive até agora ainda está um transtorno. Tem uns que não conseguiram nem o uniforme, que é obrigatório no Estado — destaca.
Porém, há casos ainda mais complexos, como o da moradora do bairro Vale Verde, Denise Nunes, mãe de Alexandro e Maria Eva Fisher Anibas, de seis e nove anos, além de tutora do sobrinho Leandro Rodrigues Batista, de 16, que possui nanismo, deficiência intelectual, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e Transtorno Desafiador de Oposição (TDO). Ele também é Jovem Aprendiz, e por isso precisa de uma vaga no contraturno.
Os três estudavam na Machado de Assis, porém, com a alteração, o mais velho teve que ser transferido, o que complicou a questão do transporte. Inicialmente, a vaga de Leandro seria para o Cristóvão, o que faria com que tivesse que utilizar um ônibus e ainda precisasse caminhar por quatro quadras para chegar à escola.
Devido a sua condição, Denise conseguiu uma vaga em uma instituição mais próxima, na Maria Araci Trindade Rojas, contudo, terá que continuar acompanhando ele devido à parada do transporte também não ser próxima ao destino.
— Antes ele ia com os meus (filhos) para escola, porque estudava de tarde, e comecei a dar noção para ele ir sozinho. Mas agora, com a saída para outra escola, ele vai pegar um contraturno e vou levar e buscar ele enquanto eu posso, depois eu vou ter que pagar uma van mesmo. Se ele se perder, não sabe voltar. Para mim, é complicado, tem pontos do bairro que ele não sabe andar sozinho. Eu tenho que ir ensinar, e mesmo assim é arriscado, porque ele esquece — conta.
Além disso, a troca de turma um ano antes do esperado precisou de muito diálogo.
— Ele só trocaria de escola em 2027, para ir para o Ensino Médio. No começo foi bem difícil de fazer ele entender do por quê teria que ir agora. Na Machado tratavam ele muito bem. Depois de uns dois meses de conversa, ele foi aceitando melhor a ideia, mas eu também terei que ir na escola, conversar com os professores para explicar a condição dele. É toda uma função — lamenta.
Para o presidente da Círculo de Pais e Mestres (CPM) da Escola Municipal Cidade Nova, Cristian Bandeira, o encerramento do 9º ano também surpreendeu a todos, pois seria a primeira turma na instituição. Eles promoveram diversas manifestações para tentar impedir a mudança, mas sem sucesso.
— Falamos muito sobre o prejuízo para os adolescentes, como sanidade mental deles, deslocamento, custos, segurança. Questionamos como será feito o transporte dos alunos de AEE (Atendimento Educacional Especializado), que precisariam de um transporte adequado e só disseram que os pais procurassem no individual, que tratariam separado cada caso — relata Cristian.
Ainda em relação ao transporte, o presidente do CPM reforçou que cobrará da prefeitura.
— Pra mim, prometeram ter um ônibus que levaria os alunos do Cidade Nova sem a necessidade de descer na EPI Floresta e pegar outro ônibus, e levariam até o Cristóvão de Mendoza. Eles prometeram e terão que cumprir — destaca.
No dia 4 de fevereiro, a secretária da Educação (Smed), Marta Fattori, esteve na Câmara de Vereadores para falar sobre as mudanças.
— Os pais entenderam que essa reorganização, de levar esses alunos para uma escola estadual, onde no ano seguinte eles terão a continuidade no ensino médio, proporciona já a vaga garantida no ensino médio — disse, na época.
