
Um livro antigo, comprado por acaso em um sebo de Caxias do Sul, guardava há mais de cinco décadas um pedaço da história da cidade, que a partir desta quinta-feira (19) até 8 de março realiza mais uma edição da Festa da Uva. Entre mapas e ilustrações da edição de 1965 de Minha Primeira Volta ao Mundo, a moradora de Farroupilha e especialista em conservação e restauro de bens Daiane Ávila, 43 anos, encontrou, no ano passado, um trabalho escolar datado de 26 de novembro de 1971. O autor: Rogério Cardoso. O tema: a escolha da rainha e das princesas da 12ª Festa da Uva.
— Ainda na época da pandemia eu ia bastante a Caxias com minha filha, e a gente sempre passava em um sebo na Rua Sinimbu. Nós gostamos muito de livros, e ir ao sebo é uma aventura, porque sempre encontramos algo interessante — relembra Daiane.
Naquele dia, a família levou vários exemplares para casa. Um deles, o volume ilustrado sobre países e continentes, acabou ficando guardado. Foi apenas no ano passado, ao reorganizar a estante, que Daiane decidiu folheá-lo novamente.
— Bem no centro do livro, entre as páginas, estava esse trabalho escolar de mais de 50 anos atrás, superconservado — conta.
A surpresa mobilizou toda a família.
— A reação foi de alegria e espanto. Encontrar algo que fala de um fato histórico da nossa região, algo que já era muito importante, é como tocar um pouquinho na história da Festa da Uva — diz.
Um olhar infantil sobre uma noite histórica
O texto foi escrito apenas seis dias após a escolha da corte, realizada em 20 de novembro de 1971, no Estádio Alfredo Jaconi.
— Estava fresquinho na mente dele. É muito interessante ler a visão de uma criança sobre aquele momento — observa Daiane.

No relato, Rogério descreve o desfile, as apresentações e os discursos. Ele exalta os apresentadores do evento: Carmem Tomasi, Nestor José Gollo e Sérgio Chaves. Cita ainda as bandas de escolas conhecidas da cidade, como Carmo, Madre Imilda, São Carlos e Cristóvão de Mendoza. Menciona ainda os corais do Grupo Escolar Presidente Vargas e dos Canarinhos do Carmo, além da despedida da rainha da edição anterior, de 1969, Elizabeth Maria Menetrier. O texto encerra com referência aos fogos de artifício.
O trabalho de Rogério está bem preservado. Ao final, aparece a assinatura “Rogério Cardoso” e a identificação da sala, dizendo ser "Sala da D. Lea F. Furtado".
Em caneta vermelha, a professora fez apenas uma correção — um acento na palavra “Cristóvão”. No alto da folha, escreveu uma única avaliação: “ótimo”.
— Isso chama muito a atenção da gente. Mais de 50 anos depois, aquele ‘ótimo’ continua ali, guardado — diz Daiane.

Naquela noite, foram eleitas a rainha Margareth Trevisan e as princesas Maria Signori Neselo, Neide Rossetti, Ana Meri Prataviera e Lia Beatriz Keller. A edição de 1972 entrou para a história também por outro motivo: foi o primeiro grande evento transmitido em cores na televisão brasileira. Além disso, a rainha recebeu como prêmio um automóvel Volkswagen Fusca — um detalhe que, segundo Daiane, “enriquece ainda mais essa memória”.
A 12ª edição da Festa teve como presidente Mario Bernardino Ramos, que hoje dá nome aos Pavilhões da Festa da Uva.

À procura de Rogério
Desde a descoberta, a família tenta localizar o autor.
— Quando achamos (o trabalho escolar), saímos a procurar esse Rogério, sem sucesso. Procuramos nas redes sociais, mas não encontramos pista nenhuma — relata.
A história ganhou novo fôlego quando a filha de Daiane, Gabriela Peglow Ávila, relatou o achado na última edição do projeto Jornalista Por Um Dia, do Jornal Pioneiro. A esperança era que a publicação pudesse alcançar o autor ou alguém que o conhecesse.
— Seria ainda mais emocionante se essa pessoa estivesse por aí e visse que o trabalho dela foi encontrado. Quem sabe alguém daquela turma diga: ‘eu estudei com ele’. Mas só de ter encontrado já foi muito emocionante. É uma riqueza — descreve.

