
Em menos de 20 minutos, a entrevista precisou ser pausada por três vezes para atender aos visitantes. Curiosos, eles trocavam algumas palavras, sorrisos e uma conversa rápida antes de fazer o registro no celular. Assim tem sido um dia comum durante a 35ª Festa Nacional da Uva, em Caxias do Sul, garantem os três artistas que dão vida ao Monumento ao Imigrante e ao Laçador de forma inédita, no maior evento comunitário da Serra.
Para entender o trabalho do trio é preciso voltar no tempo, mais precisamente em 2005. Foi neste ano que, pela primeira vez, o profissional de Educação Física de Porto Alegre Pablo Espindola, 43 anos, deu vida à famosa estátua do Laçador, em um show de patinação a convite da irmã Janaína Espindola.

Os anos passaram. Pablo seguiu na sua área de origem, até que em 2023 foi convidado para reviver o personagem no Rio de Janeiro. A história, a partir daí, ganhava novos contornos e ares de profissionalização.
— Lá eu conheci uma senhora que me passou o contato da Antonella Caringi, que é quem responde por todas as obras do avô Antônio Caringi (o escultor responsável pela estátua do Laçador e o Monumento ao Imigrante). Ela entrou em contato comigo, gostou do trabalho e, hoje, sou o único autorizado a realizar a escultura viva do Laçador — conta Espindola.

O trabalho em feiras interpretando o personagem acabou se tornando comum. Em 2024, Espindola estava participando do Festuris, em Gramado, com a esposa Vívian Casassola, 34, e o amigo Mauro Schneider, 51, quando surgiu um convite inusitado da diretora executiva da Festa da Uva, Carla Pezzi:
— Eu estava como escultura viva e eles dois como italianos típicos, na pisa da uva, quando ela disse "eu quero te levar como Laçador e quero levá-los como Monumento ao Imigrante". Ela teve a ideia, confeccionaram as roupas e, ano passado, estivemos na Festa das Colheitas. Foi um sucesso, recebemos muitos pedidos para foto — detalha.
O trio foi repetido durante a Expointer, em Esteio, na Região Metropolitana de Porto Alegre, e em eventos comemorativos aos 150 anos da imigração italiana no Estado. Na 35ª Festa da Uva, o casal de imigrantes e o Laçador circularão pelos Pavilhões diariamente até 8 de março.
— Reverberou de tal forma que a gente não tem tempo de descansar. São tantos relatos que as pessoas trazem a nós, contam histórias da imigração de parentes, fazem fotos. É muito emocionante a afetividade que isso desperta nas pessoas — comenta Schneider.
Fora do personagem

Formado em Educação Física e pós-graduado em acupuntura, Pablo Espindola conheceu Mauro Schneider e tornou-se seu amigo durante a apresentação de patinação da irmã em 2005. Schneider é professor de dança há 35 anos, coreógrafo e bailarino.
Vívian, por sua vez, é bailarina desde a infância. Há seis anos trabalha com performance artística. Fora dos personagens, atua com organização e produção de eventos. É casada com Espindola e amiga de longa data de Schneider.
A caracterização

Para dar vida à mãe imigrante, Vívian conta que leva em torno de uma hora de preparação — 30 minutos a mais que a dupla masculina. Na Festa das Colheitas, ela e Schneider chegaram a usar perucas, mas a estética foi adaptada e, para a Festa da Uva, os dois adotaram os cabelos naturais.
A tinta usada na pele é antialérgica e foi produzida para chegar o mais próximo possível da cor de bronze — material das esculturas originais. A fixação é garantida por horas e há retoque sempre que necessário.
— O que todo mundo nos pergunta é como faz para tirar. A gente tira um pouco com lenço umedecido, mas sai tudo no banho — conta Vívian.
— Mas o cantinho das unhas vai demorar mais pra sair — brinca Espindola, que faz uso de peruca e pilcha para dar vida ao Laçador.
O visual dos imigrantes ganha ainda mais veracidade com o bebê de colo (uma boneca que também foi personalizada) e uma enxada, que eventualmente é cedida para o público na hora da foto.




