
Há quatro anos, o produtor Selmar Corbelini convive com o sotaque castelhano na época da colheita em seus parreirais, no interior de Garibaldi. A safra iniciada em janeiro é a quarta em que toda sua mão de obra é formada por argentinos, que a cada ano estão mais presentes nas planilhas de contratações do setor vitivinícola para a vindima.
Ainda sem números oficiais, o Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do RS (Consevitis) estima que 50% dos safristas que irão trabalhar nos parreirais venham do país vizinho. O aumento da presença dos estrangeiros se explica pelo interesse mútuo: para os argentinos, a crise econômica no seu país torna mais convidativas as oportunidades que surgem nas lavouras brasileiras. Para os produtores, resolve-se o problema gerado pela dificuldade em preencher os postos temporários com mão de obra nacional.
- A gente percebe, desde 2024, uma crescente muito grande de trabalhadores de fora do país, com o aumento da formalização dos trabalhadores temporários. Porque isso surtiu um efeito perceptível entre os safristas brasileiros, que é o medo de perder os benefícios sociais a partir do momento em que assinam a carteira, além do fato de que alguns já têm algum vínculo empregatício - destaca Luciano Rebelatto, presidente do Consevitis.

Para safristas argentinos como Andres Veriato, 31, o pagamento na moeda brasileira representa uma valorização de cerca de 100% ao fim de de cada dia de trabalho, em relação ao que recebia em seu país, trabalhando no campo ou como mecânico.
_ A situação econômica no nosso país nos sacrifica muito, porque o dinheiro rende cada vez menos. Estava trabalhando 13 ou 14 horas por dia para ganhar 20 mil pesos ou 25 mil pesos, o que equivale a R$ 80 ou R$ 90 por dia. Aqui a gente trabalha oito horas por dia e consegue tirar R$ 160 _ compara.
Vivendo neste ano sua primeira experiência no Brasil, Andres quer somar o máximo de dinheiro possível para ajudar no sustento da esposa e dos cinco filhos, que têm entre 1 e 12 anos, que o aguardam em seu país ao final da safra:
_ A gente sente saudade todos os dias, mas a família entende que todo o suor é para tentar construir um futuro para nossos filhos. Tudo que a gente quer é que eles sofram menos do que a gente.
O grupo atualmente formado por 11 argentinos contratados para a colheita na propriedade da família Corbelini, onde toda uva é entregue à Tecnovin, gigante da fabricação de sucos em Bento Gonçalves, vem em sua maioria do município de San Pedro, na região de Misiones. Entre eles há tios e sobrinhos, cunhados e irmãos ou amigos, mas todos já se conheciam antes de abraçar a chance de trabalhar na colheita.
- Na Argentina deixei minha esposa e quatro filhas. Lá temos um pequeno sítio, onde cultivamos erva mate para vender, mas não rende o suficiente. Vir para o Brasil trabalhar na colheita é necessário para garantir o sustento da família. Estamos sendo muito bem tratados. Hoje posso dizer que não existe mais receio do argentino em vir trabalhar no Brasil _ comenta Juan Mereles, 45, que está em sua segunda temporada na vindima gaúcha.

Não apenas em propriedades como a da família Corbelini, onde os safristas fazem as refeições com a família do patrão e moram em uma casa ampla, no mesmo terreno, mas também de modo geral Luciano Rebelatto, do Consevitis-RS, destaca que os produtores estão mais preocupados em oferecer as melhores condições possíveis para seus trabalhadores:
_ O setor entendeu que havia não só a necessidade de assegurar a formalização, mas de melhorar a qualidade da contratação. Não apenas por se tratar da garantia de direitos, mas porque há um interesse em renovar a parceria para o ano seguinte. Como os produtores da nossa região têm propriedades numa média de três a quatro hectares, e em média três a quatro pessoas da família para trabalhar, contar com a mão de obra temporária é uma necessidade.
Após a safra, ainda em fevereiro os argentinos irão retornar para seu país e para suas famílias. Boa parte ou talvez todo o grupo seja recontratado para trabalhar na época da poda das parreiras, em agosto.
Nos pomares, maioria de paraibanos e sul-matogrossenses

A segunda maior safra na região da Serra, perdendo apenas para a uva, que neste ano deve ultrapassar 900 mil toneladas, é a da maçã, que deve alcançar 500 mil toneladas, segundo estimativa da Associação Gaúcha dos Produtores de Maçã (Agapomi). Assim como nos parreirais, também os pomares recebem, neste período, alguns milhares de migrantes sazonais para ajudar no trabalho braçal.
Em Vacaria, a Rasip Agro, gigante do setor, conta com 2,5 mil trabalhadores temporários, com contratos válidos entre janeiro e abril. A maior parte dos safristas é de outras regiões do Brasil, sendo a Paraíba e o Mato Grosso do Sul os estados que mais "emprestam" sua mão de obra. Boa parte também é formada por indígenas, como Eusébio da Silva e seu filho, Dercídio da Silva, que encararam uma viagem de 24 horas desde o interior do Mato Grosso do Sul até Vacaria.
- A gente escolhe vir para o Sul porque está cada vez mais difícil encontrar serviço na nossa região. Existem empresas, mas elas não abrem oportunidade para nós. É complicado. A gente acaba tendo de passar alguns meses longe da família, mas aqui o nosso trabalho é mais valorizado comenta Dercídio, que veio pela primeira vez trabalhar na Serra Gaúcha, enquanto o pai já está na segunda safra nos pomares de Vacaria.
Para a safra que se iniciou oficialmente no último dia 7, a Rasip Agro conta com mais de 150 colaboradores dedicados exclusivamente ao atendimento dos trabalhadores temporários, incluindo equipes de limpeza, medicina e segurança do trabalho, entre outros. As condições de trabalho na colheita são acompanhadas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), pelo Ministério do Trabalho e Emprego e pela Comissão Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo do Mato Grosso do Sul (Coetrae), assegurando a conformidade com as normas trabalhistas vigentes.
- A colheita da maçã movimenta a economia, fortalece o comércio local e gera empregos para milhares de trabalhadores de diversas regiões do país. Nosso compromisso é oferecer condições dignas, seguras e estruturadas para que todos possam desempenhar seu trabalho com tranquilidade e conforto - destaca o presidente da RAR Agro & Indústria, Sergio Martins Barbosa.



