
A Embrapa Uva e Vinho, polo de pesquisa e desenvolvimento da vitivinicultura na Serra gaúcha, lança em fevereiro três novas variedades de uvas. Nesta semana, a BRS antonella e BRS lis, uvas tintas, foram apresentadas para produtores, empresas e cooperativas da região.
Voltadas para a produção de sucos e vinhos, as variedades passaram mais de 10 anos sendo avaliadas por pesquisadores da Embrapa. Com cor intensa, sabor doce e resistência a doenças, as cultivares foram apresentadas como apostas para compor blends — mistura com outros tipos de uva.
Descrita como delicada, a variedade lis é indicada como alternativa para a produção de suco de uva orgânico. Isso porque a variedade possui resistência à podridão nos cachos e ao míldio (doença causada por fungos). Apesar de ter cachos leves, o manejo possibilita a produção em maior volume, tendo produtividade de 25 a 30 toneladas por hectare.
A antonella obteve produção de 40 toneladas por hectare, indicada como um tipo de alta produtividade, com possibilidade de superar a quantidade colhida das uvas tradicionais mais plantadas na região.
Já a variedade branca de mesa, a BRS pérola, que será oficialmente lançada pela Embrapa na próxima quinta-feira (19), é sem semente, com sabor neutro e polpa firme. A variedade teve boa adaptação à Serra gaúcha, sobretudo quando cultivada sob cobertura plástica.
As variedades apresentadas pela Embrapa já estão disponíveis para a compra em viveiristas credenciados, que possuem espaços na região.

Afinal, como são feitos novos tipos de uvas?
Essas características acentuadas pelo melhoramento genético visam atender demandas do setor, que envolvem desde problemas nos vinhedos até o paladar do consumir que leva o produto para casa.
— Quando se fala em melhoramento, três pilares são considerados: a visão do produtor, que busca uvas mais adaptadas e resistentes; a necessidade da indústria do suco, que prefere uvas com mais açúcar e rendimento maior; e o consumidor, que leva muito em consideração a cor, o aroma e o sabor — explica Mauro Zanus, pesquisador da área da enologia.
— Definir os aspectos da uva é o primeiro passo. Depois, consultamos a coleção da Embrapa, que conta com mais de 2 mil tipos de uvas, para identificar variedades com as características necessárias. A partir delas, fazemos o cruzamento entre os tipos, polinizando manualmente as flores das uvas — detalha a pesquisadora Patrícia Ritschel.
Desse cruzamento nascem cerca de 300 plantas, que são cultivadas em vinhedos da Embrapa. Durante anos essas videiras e os respectivos frutos são avaliados, tendo em vista os objetivos estabelecidos no início da pesquisa.
As videiras passam por melhoramentos e as uvas são degustadas pela equipe da Embrapa, bem como enólogos de vinícolas da região, para definir se as uvas alcançaram os aspectos desejados.
— No caso da BRS lis e BRS antonella, elas foram validadas por associados das Cooperativas Aurora, São João e Paraíso, que cultivaram essas variedades nas propriedades. Quando o produtor consegue fazer o manejo sem a nossa intervenção, entendemos que chegamos no momento do lançamento — explica Patrícia.
Aliás, todas as uvas desenvolvidas pela empresa levam nomes femininos, uma tradição estabelecida por Humberto Camargo, fundador do programa de melhoramento genético. A escolha por lis se deu pela delicadeza da variedade. Já antonella é uma referência à força da mulher, com descendência italiana, em uma uva que tem grande produtividade.
Da Europa para a Serra: as variedades piwi chegam aos vinhedos da região
Se no Brasil o melhoramento genético na vitivinicultura é tradicional, a influência laboratorial nas cultivares enfrentou resistência no mercado europeu. A adesão às variedades modificadas ganhou espaço nos últimos anos, impulsionada pelo desequilíbrio no clima que causa maior ocorrência de pragas e a crescente preocupação com o uso de agrotóxicos no cultivo das uvas.
Nesse cenário, as chamadas uvas piwi têm se popularizado pela Alemanha, Hungria, Itália e até mesmo na Serra gaúcha. Do alemão pilzwiderstandsfähig, que significa “resistente a fungos”, esse grupo de 50 variedades de uvas finas possui tolerância a doenças, como o míldio, principal causador de fungos que acomete as videiras.
As mudas modificadas na Europa têm chegado ao Brasil e à região por meio do trabalho da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), que já realiza testes com as piwi em Videira, município no meio-oeste de Santa Catarina, e auxilia nos primeiros cultivos por vinícolas da Serra.

— A questão das piwi é a qualidade enológica. Ao mesmo tempo que temos a resistência maior, as potencialidades do vinho se tornam mais reconhecidas. Até então, se fazia cruzamento entre uvas finas e comuns para aumentar a tolerância às doenças, o que influenciava no sabor. E conseguimos reduzir os custos de produção, uma vez que se usa menos defensivos e entrega aos consumidores um produto mais limpo — explica o engenheiro agrônomo da Epagri André de Souza.
Entre os primeiros a adotar as variedades na região, está a Cooperativa Vinícola Garibaldi, que no ano passado plantou cerca de 3 mil mudas das piwi felicia e calardis blanc. As novas uvas estão sendo cultivadas em um viveiro experimental que a vinícola tem no município de Santa Tereza.
— É um projeto inicial, para entender como essas uvas irão se comportar com o nosso clima, como será o desenvolvimento. A expectativa é de que as primeiras uvas sejam colhidas em 2027. Depois de avaliarmos esses aspectos, vamos estudar a possibilidade de lançá-las. É uma tendência cultivar uvas com menos produtos químicos e com mais resistência a doenças — detalha o assistente técnico da Garibaldi, Evandro Bosa.
Será justamente após as primeiras safras que o potencial das piwi será testado. Isso porque um dos maiores desafios em introduzir essas variedades é entender como as vinícolas irão apresentá-las ao mercado e como os consumidores irão recebê-las.
— A possibilidade de sucesso é grande, porque elas são muito encantadoras, tanto no campo, quanto na taça. Sabemos que toda mudança depende de tempo, que é o que precisamos até as primeiras safras chegarem — prevê Souza.




