
O programa Gaúcha Hoje, da Gaúcha Serra, entrevistou nesta quarta-feira (14) o secretário da Saúde de Caxias do Sul, Rafael Bueno, para avaliar os primeiros três meses de trabalho na pasta.
Gaúcha Serra: como o senhor enfrentou essa questão da fila de espera? Dá para apontar alguma evolução para cirurgias nesses 90 dias?
Rafael Bueno: estou fazendo uma revolução na Secretaria da Saúde, essa vai ser a marca do meu mandato. Acabar com a lista de espera a gente nunca vai acabar, porque ela sempre está se retroalimentando, e quanto melhor está ficando a saúde, mais as pessoas vão trazendo seus parentes de outras cidades, de outros estados. Caxias é referência. Posso dar alguns exemplos: cirurgia torácica, eu tenho gente desde 2016 aguardando; eu tenho gente esperando cirurgia urológica desde 2019; cirurgia cardíaca desde 2017. Então deu tempo da pessoa morrer e ressuscitar, e ainda nem fez os exames, né? Então a gente tem que atacar essas listas. E eu me preocupo muito porque não é somente a cirurgia, não é só a pessoa passando mal, mas é todo o núcleo familiar que sofre junto. Uma pessoa que está doente deixa de trabalhar, deixa de gerar renda para a família, tem que comprar medicamentos.
Então a primeira coisa que eu fiz foi buscar emendas. Só que os hospitais usam essa verba para outras finalidades, para reformas, para custeio de folhas de pagamento, e eu inverti a lógica. Foi um cabo de guerra no início, mas fizemos 1.872 cirurgias. Enquanto nós estamos falando aqui, está sendo feito um mutirão de cirurgias. É uma fila de nove mil pessoas esperando, contando a região, somente sete mil em Caxias.
As cirurgias que estou fazendo são exclusivamente para a região. Porque a gente paga imposto exclusivamente para Caxias. Os hospitais da região que façam para seus munícipes. Gramado atrai turista, Nova Petrópolis está deixando tudo com plantinha, florzinha e tal, e a gente não tem dinheiro para aplicar em turismo porque a gente está gastando quase 30% do orçamento em saúde, sendo que, constitucionalmente, seriam 15%.
Então, essas listas de espera, nós vamos dar uma vazão, pode ter certeza. Eu vou zerar a lista de cataratas, nós temos 900 pessoas na lista de cirurgias de catarata. Sabe o que é isso? Uma pessoa idosa atravessar uma rua, não conseguir enxergar, cair dentro da sua residência, criar um outro problema de traumatologia, né? Então, nós precisamos, é prevenção.
O senhor tem falado ao longo desses três meses em muitas readequações de verba, economia num ponto para utilizar no outro. Tem uma ideia de quantos recursos foram realocados, que eram usados para determinada questão, ou foram economizados em determinado ponto, e que estão sendo reaplicados em outras questões da saúde?
Bom, a Secretaria da Saúde é uma cidade. Se pegar 200 municípios, esses que têm 200mil, 300 mil habitantes, não dá o orçamento da Secretaria da Saúde. Hoje nós temos um orçamento de R$ 920 milhões por ano.
Fora emendas parlamentares que entram, então a gente gira em torno de R$ 1 bilhão. A segunda maior secretaria do município é a da Educação, com orçamento de R$ 700 milhões. Então, nós estamos falando de uma cidade com mais de 2 mil funcionários, fora os serviços terceirizados que a gente tem.
Somente nesses cem dias, R$ 100 milhões a gente conseguiu otimizar e canalizar. Eu parto, por exemplo, da policlínica. A policlínica a gente tinha perdido, eu tive que ir para Brasília e garantir que a policlínica viesse para Caxias.
Outra coisa é o CES. Eu vou acabar com o nome, vai ser complexo da saúde. Vai ter até piscina, nós vamos dar fisioterapia aquática para a população e sem custo. Nós vamos entrar com contrapartida com a FSG. Claro que vai ser aberto um chamamento público.
Isso vai acontecer só a partir dessa próxima semana?
Sim, nós vamos lançar um edital público em busca de um local central, de fácil acesso. Eu quero transferir o Samu para esse espaço.
Mas eu só quero complementar uma fala de vocês: como que a gente está fazendo isso e economizando dinheiro? A gente está conseguindo parcerias. Só para dar um exemplo: nós fizemos uma parceria com a FSG. Nós ganhamos 600 consultas de fisioterapia porque eles têm o banco de acadêmicos, nós ganhamos 300 consultas de psicoterapia, iniciamos com a clínica 60 consultas de psiquiatria. Tem muita gente querendo ajudar em Caxias.
O senhor toca aí na questão da fila das especialidades: no mês de outubro eram 61 mil pedidos de consultas com especialistas pelo SUS. Qual é o cenário hoje?
Não aumentou. Gira em torno disso.
Mas a ideia é diminuir essa fila?
Nós vamos diminuir. Mas nós temos 7,5 mil pessoas aguardando consulta de oftalmologia. Nós temos quase 3 mil pessoas aguardando consultas com psicólogo. Em uma semana, nós chamamos 350 pessoas, 120 pessoas não compareceram. Essas pessoas retornam para a fila, porque é de graça, é fácil. Nós temos 13 mil pessoas na lista de espera para fazer ecografia, só que somente 800 ecografias são realizadas no mês e entram mil pessoas com pedidos dos médicos. Eu comecei a fazer mutirão. No mês de dezembro, de 400 pessoas que foram chamadas para fazer a ecografia, 75 irresponsáveis não foram. Nós estamos tendo cerca de 30% de faltantes.
Não é porque é SUS que tem que faltar, porque isso é dinheiro que a gente está jogando no lixo.
O senhor tinha um plano de redução de cortes no Samu, inclusive gerou uma manifestação dos servidores. O que ficou dessa situação?
Se tem coisa que eu gosto na minha vida, desde os meus 17 anos, quando eu fui presidente do bairro Cristo Redentor e iniciei minha luta pela saúde pública, é o diálogo. Então a gente não tomou nenhuma medida ainda. O custo do Samu hoje é de R$ 29 milhões. Alguma coisa tem que ser feita.
Nós estamos utilizando formas que a gente possa garantir a qualidade do serviço, mas moralizando também o serviço. Eu vou descentralizar o Samu. Hoje, ele fica embaixo da Secretaria da Saúde e até ir lá na Zona Norte, ou até ir lá em Forqueta, ou até lá no Campos da Serra, olha o tempo de espera com as sinaleiras. Então, até chegar no local, a pessoa já morreu.
E a telessaúde?
Nós encerramos o contrato porque não correspondia com aquilo que queríamos. Vai ser contratado outra empresa.


