
O céu noturno de Cambará do Sul, nos Campos de Cima da Serra, foi pintado de roxo por cerca de cinco minutos na última terça-feira (20). Em uma fotografia de longa exposição capturada por volta das 21h pelo fotógrafo Egon Filter, é possível ver um fenômeno similar à aurora boreal, mas que ainda não tem explicação clara.
— Já fotografei diversos fenômenos visuais e astronômicos no céu mundo afora. Esse me parece muito uma aurora austral, o que me arrepiou de emoção no momento do clique — conta Egon, que trabalha com fotografia há 41 anos e já fez expedições fotográficas a mais de 100 países – incluindo uma cobertura do fenômeno da Aurora Boreal no extremo norte da Escandinávia.
Ele mora em Cambará do Sul, estuda astronomia e se especializou em astrofotografia. Para ele, o registro é raro e único:
— A aurora boreal (no Hemisfério Norte) e a aurora austral (no Hemisfério Sul) ocorrem normalmente em latitudes acima do paralelo 60 graus (O Rio Grande do Sul está na latitude entre 29 e 33 graus), mas sei que podem ocorrer raras exceções em caso de tempestades solares, e uma bem violenta aconteceu um dia antes, na noite de 19 de janeiro, por isso acredito que vimos uma aurora — acredita ele.

Para o professor Carlos Fernando Jung, doutor em engenharia de produção e fundador do observatório Heller & Jung, em Taquara, é difícil afirmar do que se trata o fenômeno:
— As auroras são produzidas pela interação do vento solar com o campo magnético da Terra, concentrando-se nas regiões próximas aos polos magnéticos. Elas não são visíveis no sul do Brasil em condições normais e nunca registramos uma. A tempestade solar que ocorreu no dia 19 de janeiro poderia permitir um evento assim, mas não seriam auroras clássicas como as da Noruega ou Antártida — explica.
Jung explica que o ocorrido poderia ser o fenômeno ‘airglow’, efeito óptico causado pela colisão de átomos na atmosfera após eventos como tempestades magnéticas e ventos solares:
— Porém, um airglow tem intensidade menor e a cor mais dissipada no céu. Não dá pra afirmar com certeza, mas o fato é que se trata de um fenômeno importante e cientificamente relevante para nós gaúchos.
Para José Valentin Bageston, doutor em Geofísica Espacial e diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais em Santa Maria, o fenômeno registrado em Cambará do Sul também não tem explicação clara:
— Se fosse um ‘airglow’, a luz de cor roxa tomaria conta de todo o céu, não iria se limitar a uma parte da fotografia. Mas também não acredito se tratar de uma aurora, porque nosso detector de partículas não registrou nada no observatório em São Martinho da Serra. Nos últimos 25 anos, nunca registramos uma aurora aqui — diz ele.
Bageston afirma que o fenômeno poderia se tratar de um ‘Arco Vermelho de Aurora’ (da sigla inglesa SAR), mas fica em dúvida ao comparar o registro com outras fotos do mesmo fenômeno (foto abaixo):
— Em registros que temos, é bem visível a linha vermelha e o arco que se forma ao redor do céu, o que não fica tão claro ou evidente nesse registro de Cambará do Sul. É preciso coletar mais dados, estudar com mais profundidade e tentar observar novamente — diz ele.

Ainda sem explicação clara, o clarão que pintou os céus de Cambará do Sul de roxo já chamou a atenção de pesquisadores americanos do site Space Weather, referência mundial em registros astronômicos.
Na publicação, os autores também divergem sobre o que se trata o fenômeno, mas afirmam parecer um arco vermelho de aurora - e se surpreendem com o fato do registro ter sido feito no sul do Brasil, onde é quase impossível ver algo do tipo.
