
A diversificação de cultivos não é exatamente uma novidade, mas tem se fortalecido entre os viticultores de Caxias do Sul nos últimos anos. Os pomares de bergamota e de laranja despontam na preferência. Os motivos são diversos, mas estão centrados especialmente no preço pouco atrativo da comercialização da uva, na garantia de renda prolongada durante o ano e no custo menor para a produção das frutas.
O engenheiro agrônomo e chefe do escritório municipal da Emater, Mauro Tessari, confirma o movimento entre os agricultores, porém, pondera que ainda são casos considerados pontuais. Não há um levantamento de quantos produtores substituíram os parreirais por pomares ou ampliaram o plantio de citros no município.
Tessari lista que, além do preço da uva, a tendência é reforçada pela demora de algumas cantinas e cooperativas no pagamento da safra aos agricultores:
— Além disso, os citros podem ser colhidos por mais tempo, é uma colheita estendida. No caso da uva, quando está pronta, tem que colher rapidamente. Também há um melhor aproveitamento da mão de obra, já que a laranja e a bergamota são colhidas em uma época em que a uva está "parada". Outros motivos são que os custos de instalação e de produção dos pomares são menores (se comparados às videiras) — detalha o engenheiro agrônomo.
Quem corrobora com o novo comportamento dos viticultores é o agricultor Jair Alexandre Cechin, de Loreto da Segunda Légua. Atualmente, ele ainda mantém pouco mais de dois hectares de uva, que, em dois ou três anos, darão lugar totalmente aos pomares de bergamota e laranja.

— Temos mudas de citros de dois e três anos plantadas embaixo das parreiras. Logo elas vão precisar de mais espaço para crescer e vamos eliminar 100% a produção de uva. Nós temos, ao todo, 12 hectares de lavoura formada. Dois deles são para o caqui e o restante vamos manter a bergamota e a laranja — explica.
Cechin lembra que decidiu variar a produção há cerca de 18 anos, com o objetivo ampliar a renda da família. Atualmente, a estratégia é por citros tardios, com colheitas entre outubro e novembro, para obter um preço melhor no momento da comercialização, fora do pico da safra.
— Hoje, o maior motivo é o mercado. Estão pagando em 12, 14 vezes. Para mim, pra essa pequena quantia que tenho de uvas, até pagam bem, mas tenho vizinhos que praticamente não terminaram de receber a safra passada ainda. Não tem como se manter de pé no agro com este método de trabalho — opina o produtor.
Conforme o levantamento mais recente da Emater, até o ano passado Caxias do Sul tinha 135 produtores de bergamota, 180 de laranja e 1.050 que se dedicavam à uva de indústria.
Agricultor reduziu pela metade a produção da uva

No interior de Caxias, em Cerro da Glória, o agricultor Jair Massuchini reduziu pela metade a produção de uva. Há cinco anos a família decidiu investir na bergamota montenegrina, em cerca de três hectares.
— Já cheguei a produzir mais de 230 mil quilos. Hoje, eu estou produzindo 100 mil quilos de uva. Em compensação, investimos na bergamota e um pouquinho de turismo, para complementar — comenta.
Para ele, a migração de cultivos foi motivada principalmente pelos custos com a mão de obra e pela necessidade de mecanizar a produção — as técnicas mais tecnológicas, no entanto, não são possíveis de ser aplicadas na propriedade em função do relevo da região.
— Juntamente com a Emater, eu faço o que eles chamam de poda antecipada. Eu colho a uva, deixo a parreira descansar um pouco e, entre 15 de abril e 15 de maio, já podo praticamente 90%. É um serviço que seria para julho e agosto, mas antecipamos. De maio em diante, eu consigo cuidar da bergamota. Fazemos isso justamente para utilizar o menos possível mão de obra, que está bem cara — sinaliza o agricultor.
Também morador de Cerro da Glória, Alcides Frosi conta que a uva deixou de ser o carro-forte da propriedade diante de uma necessidade do mercado e também por ser arriscado apostar toda a renda da família em um único tipo de cultivo. Assim, investiu em citros no começo dos anos 2000, além de cultivar alface e tomate em estufa.
— Em duas safras, nos anos de 1980, perdemos toda a produção de uva. Tive que me virar, trabalhar por fora para poder sobreviver. Era começo de vida, não foi fácil. Agora, eu fico o ano todo colhendo mercadoria — detalha Frosi.
Atualmente, ele e a família mantêm quatro hectares de uva, dois hectares de laranja, pouco mais de seis hectares de bergamota e a estufa de hortaliças.




