
A comunidade do Travessão Alfredo Chaves, em Flores da Cunha, amanheceu nesta terça-feira (9) diante de um cenário de destruição. O telhado da Capela São João Batista — uma das mais antiga da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, datada de 1924 — foi completamente arrancado pelo temporal que atingiu o município no fim da tarde desta segunda-feira (8). O salão comunitário ao lado, onde eram realizados encontros e festividades, e o campanário, de 1941, também foram afetados.
O frei Jadir Segala, pároco da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, esteve entre os primeiros a chegar ao local durante o temporal. Ele descreve o impacto emocional ao ver o que havia restado da capela centenária e do complexo comunitário.
— É muita tristeza. A gente sabe o quanto esse povo trabalha para ter o seu espaço de celebração, que é a nossa igreja, e olhar para ela toda descoberta, olhar para o nosso salão comunitário no chão, que praticamente não vai dar para recuperar quase nada. Vamos ter que fazer tudo novo — afirma.
O religioso conta que estava visitando um doente, cerca de um quilômetro distante da comunidade, quando o temporal começou. Em poucos minutos, chegou ao Travessão Alfredo Chaves e viu a destruição se formando.
— Em questão de cinco minutos isso foi tudo para o chão — relata.
A capela, construída há mais de um século, é um dos principais símbolos de fé e união da região. Para frei Jadir, além do impacto material, há um sentimento de perda da história coletiva.
— É a igreja mais antiga da nossa paróquia. É uma história que está aí, são muitas famílias, muita gente envolvida, tem muito amor por trás de tudo isso.

A dor relatada pelo pároco vai além do patrimônio religioso. Ele também mencionou os prejuízos enfrentados pelos moradores, muitos deles produtores rurais.
— Ver todas essas pipas caídas no chão (da vinícola em frente à capela). Saber também que nós temos mais de 25 hectares de parreiras no chão. E todos os atingidos são todos membros da comunidade. Isso é uma dor no coração muito grande. Essa dor se retraz de uma mão que você não sabe o que fazer. E eu faço uma pergunta: será que é o último? Está muito preocupante o nosso clima.
Conforme a Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, ainda não há previsão de quanto tempo a Capela São João Batista deve ficar fechada. O espaço deve passar por uma avaliação da seguradora. A comunicação da Diocese de Caxias do Sul informou que o vigário geral e coordenador de Pastoral da Diocese, padre Leonardo Inácio Pereira, já está em contato com o pároco, frei Jadir Segala, verificando a melhor forma de auxiliar a comunidade.
Comunidade entre as áreas mais atingidas
Além do telhado da Capela São João Batista, a quadra de esportes da comunidade, três vinícolas e outros estabelecimentos sofreram danos significativos, afetando diretamente mais de dois mil moradores. Houve ainda prejuízos em Otávio Rocha, no Travessão Carvalho e em pontos do centro da cidade.
De acordo com os levantamentos realizados até as 23h30min, cerca de 60 casas foram atingidas e mais de cinco mil pessoas estão sem energia elétrica. O temporal também provocou danos em estufas, derrubou mais de 20 parreirais e impactou o refeitório de uma escola e o hospital do município. Apesar da dimensão dos estragos, não há registro de feridos.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) informa que choveu 65mm na cidade desde o final da tarde desta segunda.
Reforço estadual amplia atuação da Defesa Civil
Diante da gravidade da situação, Flores da Cunha recebeu, ainda na noite desta segunda, reforço de órgãos estaduais de segurança para ampliar o trabalho da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Brigada Militar.
O chefe da Casa Militar e coordenador estadual de Proteção e Defesa Civil, coronel Luciano Chaves Boeira, o major Felipe Stangherlin, do Departamento de Gestão de Desastres da Defesa Civil Estadual, e o comandante do CRPO Serra, Ricardo Moreira de Vargas, estiveram no município com suas equipes. Os representantes, acompanhados da Cruz Vermelha, Corpo de Bombeiros e Brigada Militar, participaram de reunião no gabinete do prefeito César Ulian para alinhar as ações de resposta.
Vias liberadas
Equipes das secretarias de Agricultura e Obras atuaram na desobstrução das estradas ao longo da noite. Não há pontos de bloqueio no município, embora o monitoramento continue.
Apoio à comunidade
Moradores que necessitam de lonas para proteção das residências podem procurar a sede da Guarda Civil Municipal na Rua Anúncio Curra, 2784, bairro União.
Aulas mantidas e alerta ativo
As aulas na rede municipal estão mantidas para esta terça-feira (9). A Defesa Civil reforça que o alerta meteorológico permanece válido e orienta que a população siga atenta às atualizações oficiais.
Contatos de emergência
- Corpo de Bombeiros: 193
- Guarda Civil Municipal: 153
- Samu: 192
- Ambulância Branca: (54) 99939-5463
Alertas meteorológicos
O Instituto Nacional de Meteorologia tem três alertas em vigor sobre atuação no Rio Grande do Sul e a Defesa Civil do Estado também.
Um dos alertas do INMET é de cor vermelha, o mais alto na escala de avisos e indica grande perigo, chuva forte, vento e possibilidade de queda de granizo. Ele está em vigor até às 23h59min desta terça-feira (9) e abrange principalmente a Fronteira Oeste e as regiões Noroeste, Norte, Centro, Nordeste e Região Metropolitana de Porto Alegre.
Há outro alerta, na cor laranja, de perigo menor que abrange toda a faixa litorânea do Rio grande do Sul com intensificação dos ventos, movimentando dunas de areia.
Já o terceiro alerta do INMET, é de cor amarela, o mais leve e abrange todo o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e parte do Paraná com possibilidade de chuva intensa, vento moderado e queda de granizo.
A Defesa Civil do Rio grande do Sul também emitiu alerta de risco moderado para deslizamentos nas cidades de Cruzeiro do Sul e Estrela no Vale do Taquari e em Venâncio Aires, no vale do Rio Pardo.






