De espécie nativa do Rio Grande do Sul, dois bugios ruivos, um rejeitado pelo bando e um filhote que perdeu a mãe eletrocutada, passaram a viver juntos em um recinto do zoológico da Universidade de Caxias do Sul.
Jegue, o mais velho, tem seis anos e até hoje teve a companhia de apenas outros dois indivíduos, uma fêmea de idade avançada — que acabou morrendo — e um macho que por apresentar comportamento adequado foi solto na natureza.
Jimy, o mais novo, chegou há cerca de seis meses agarrado à mãe morta por eletrocussão no interior de Caxias do Sul. A construção da amizade, monitorada pelos veterinários do zoo, mudou o comportamento dos dois indivíduos que, não por escolha própria, contrariavam o hábito social da espécie.

O sucesso da aproximação, que contou com a iniciativa do filhote Jimy, é um alívio para o coordenador do UCS Zoo, Leandro Ribas, que também se angustiava com a solidão forçada dos primatas:
— O bugio vive em sociedade, então era muito triste ver um adulto jovem como o Jegue vivendo sozinho. O Jimy perdeu a mãe, chegou filhote como ele, foi tratado e amamentado por nós e a dúvida era se ele seria aceito pelo Jegue que hoje está feliz de ter uma comunidade, e o Jimy de ter uma referência mais adulta.
Financiada por uma verba destinada pelo Ministério Público, a expansão do recinto onde o bugio mais velho vivia sozinho revelou, segundo Ribas, ainda mais a necessidade de uma companhia.
— Parecia um pai quando os filhos vão embora, um indivíduo sozinho em uma casa grande — ilustrou.

Ao lado do recinto de Jegue estão outros dois bugios — um macho e uma fêmea — que nunca aceitaram a companhia dele, mesmo que o comportamento, segundo o veterinário Gabriel Fiamenghi, sempre tenha sido muito pacífico:
— Eles têm uma hierarquia social, todo grupo tem um macho dominante e é difícil que seja aceito um novo macho. A fêmea também pode ser agressiva, inclusive também possui a estrutura compatível ao saco escrotal, só não tem os testículos porque se tivesse poderia matar os filhotes. O Jegue é o mais de boa do mundo, mas ele não foi acolhido. Tentamos, mas ele não foi aceito.
A chegada de Jimy
Quando chegou, no início do ano, Jimy precisou ser amamentado e acolhido no Instituto Hospitalar Veterinário, vizinho ao zoo. Por ter contato com humanos desde muito filhote, imprimiu um comportamento chamado pelos veterinários de imprinting que é quando animais silvestres perdem o receio das pessoas e passam a confiar nelas.
Depois de tratado, a aproximação ocorreu em uma área de segurança em uma parte intermediária do recinto. Na grade eram oferecidos alimentos para que os dois compartilhassem e, quando a porta pôde ser aberta, o contato foi quase que imediato.
A história do pequeno Jimy, que trocou acolhimento ao fazer um novo amigo, pode ser o futuro do também bugio ruivo, Fumaça. Com apenas dois meses, o mais novo acolhido do IHVET também perdeu a mãe eletrocutada e está em recuperação. A companhia, segundo Fiamenghi, pode vir da Região das Hortênsias.
— Estamos pleiteando uma fêmea juvenil do Gramado Zoo que também não foi aceita pelo bando, tem histórico de eletrocussão e pode formar um novo grupo aqui em Caxias — contou.

Espécie ameaçada
Considerados ameaçados de extinção, o bugio ruivo e o macaco-prego são as únicas duas espécies de primatas nativos da Serra gaúcha. A suscetibilidade à febre amarela e à degradação do habitat natural contribuíram para a diminuição no número de indivíduos.
Nos últimos anos, no entanto, é a expansão da infraestrutura energética que tem causado a morte dos bugios, a espécie mais vulnerável aos choques.
— Esses animais são extremamente arborícolas, passam a vida bem dizer sobre as árvores e precisam de caminhos para atravessar de um fragmento florestal até outro e quando acabam utilizando as redes de energia para isso vem o contexto dos choques e eletrocussões — explica Fiamenghi.
O UCS Zoo pede a colaboração da comunidade para documentar ocorrências na região. O contato para que profissionais do instituto possam investigar os casos é o WhatsApp (54) 996496505 ou pelo e-mail gmedeiros@ucs.br .





