Em Travessão Alfredo Chaves, localidade de Flores da Cunha, na Serra gaúcha, a terça-feira (9) começou com moradores tentando entender o que havia acontecido horas antes. O temporal que atingiu o local no fim da tarde de segunda (8) mudou a rotina da comunidade em minutos: casas perderam telhados, pavilhões cederam e espaços que fazem parte da história local, como a igreja e o campanário, ficaram danificados. Em toda a cidade, cinco mil pessoas foram afetadas de alguma forma, segundo o major Marcelo Souza, coordenador regional da Defesa Civil.
A igreja da comunidade, que é de 1924, foi destelhada. O campanário, de 1941, e o salão também afetados. O frei Jadir Segala, pároco da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, foi um dos primeiros a chegar ao local. Ele afirma ser um momento doloroso, mas confia na união da comunidade para a reconstrução.
— É a igreja mais antiga da nossa paróquia. É uma história, muitas famílias, muita gente envolvida, tem muito amor por traz disso. Não deu cinco minutos e foi tudo pro chão. E eu faço uma pergunta: será que é o último? Está muito preocupante o nosso clima.
O cenário para quem chega na localidade, que conta com aproximadamente 2 mil moradores, é de muita destruição. Antes mesmo das 7h, Ilda dos Reis estava na frente do ginásio da comunidade. Impressionada com a situação, lembrava que na noite desta terça haveria uma partida de câmbio, modalidade de vôlei adaptado, no local. A casa dela também foi afetada.
— Nossa, a gente via uma cancha perfeita, boa de jogar e de repente se depara com isso. É hora de união. Agora é hora de recomeçar, mas é muito triste. O vento foi bem forte, a chuva também, mas a nossa parte é um pouco mais alta, não atingiu muito. Mesmo assim, tem famílias no meio que foram atingidas.
O produtor rural Saule Mioranza é outro morador que ainda não conseguia acreditar no que via. O parreiral da propriedade, um dos mais de 20 contabilizados pela prefeitura, foi atingido. Com uma lona, conseguiu cobrir a casa e passar a noite, mas pela manhã buscava auxílio do Corpo de Bombeiros e Defesa Civil.
— Estamos na quarta geração, 150 anos. Em minutos foi tudo por água abaixo. Tudo tem um começo, um recomeço, tem que ter fé.
A Vinícola Terrasul foi uma das propriedades mais afetadas no Travessão Alfredo Chaves. A empresa da família tem capacidade produtiva de 2 milhões de litros de vinho ao ano. Tanques que ficavam na parte externa tombaram e caíram pela rua.
Augusto Salvador, enólogo e sócio proprietário da vinícola, lembra que o estabelecimento também foi afetado por um temporal em 2018, mas que agora a situação foi mais delicada. Ele já contatou a seguradora para conseguir reconstruir o local.
— Perdemos praticamente tudo. Temos a parte dos vinhos engarrafados, espumantes que estavam rotulados para serem vendidos, essa parte vamos ter que avaliar. Temos o telhado que foi praticamente todo avariado.
Decreto de emergência

A prefeitura de Flores da Cunha estuda decretar estado de emergência. Um gabinete de crise foi montado no Travessão Alfredo Chaves. Segundo o prefeito César Ulian, ao menos 2 mil pessoas foram afetadas. O balanço mais recente apontava 60 casas danificadas, número que ainda pode subir.
— Estamos encaminhando o decreto de situação de emergência. Nenhum ferido, nenhuma vítima, graças a Deus. Mas, temos indicadores para decretar, então, situação de emergência.
Equipes do Corpo de Bombeiro estão na região para auxiliar os moradores na instalação de lonas. O capitão Pedro Sanhudo informa que até as 8h foram mais de 50 atendimentos em toda a região da Serra, com estragos também em Caxias do Sul e outros municípios.
O coordenador da Defesa Civil Estadual, coronel Luciano Boeira, também esteve no local. Segundo ele, o governo do Estado aguarda laudos para conseguir auxiliar oficialmente o município. Ele afirma, ainda, que há chances de novos temporais na região.
— Precisamos ter maior clareza de quais foram as consequências, e depois de termos esses levantamentos, nós definiremos uma estratégia.

