
Ao andar pelo gramado por onde estão colchões, roupas e outros pertences retirados da casa inteiramente destelhada, até chegar à cerca que demarca os três hectares de parreirais de uvas derrubados pelo vento, o florense Gilberto Sandri, 61 anos, se questiona: será que reconstruir será mais fácil ou mais difícil do que foi construir seu patrimônio ao longo de quase 40 anos ao lado da esposa, Isabel?
Nesta quinta-feira (11), primeiro dia seco e ensolarado desde o tornado que passou na noite de segunda (8) e provocou estragos em mais de 80 casas na localidade de Travessão Alfredo Chaves, interior de Flores da Cunha, o dia permitiu acelerar os esforços para reconstruir telhados, ao mesmo tempo em que muitos entulhos ainda são retirados.
O drama vivido pelo casal, que desde segunda está sendo acolhido na casa de uma irmã de Isabel, é parecido com o de dezenas de outras famílias que nunca passaram por nada parecido na comunidade. E que por isso também não irão esquecer os poucos minutos de terror vividos no final da tarde do último dia 8.

— Pouco antes do temporal, eu estava na atividade de encerramento do ano no Cras (Centro de Referência de Assistência Social). Eu cheguei em casa e ainda abri as janelas, porque estava muito quente. Mas logo veio o vento muito forte e corri para fechar tudo. Só deu tempo de acender uma vela, rezar para pedir misericórdia e corri para segurar a porta com toda força. Depois que passou, saí de casa e vi que minha varanda não existia mais, tinha ido tudo parar na casa da vizinha. E parte do telhado também voou — relata Eni Stuani Wrensinski, 67, moradora da Rua dos Imigrantes, uma das mais atingidas pela intempérie.
A casa de Eni era a oitava em que os voluntários José Antônio de Farias, 65, e Claudimir Kremer, o vereador Alemão (MDB), ajudavam a cobrir com telhas desde terça-feira. Alguns moradores receberam telhas doadas pela Defesa Civil Municipal, outros compraram com recursos próprios. Onde foram chamados, Claudimir, que já foi dono de uma construtora, e José Antônio, que era seu funcionário, prontamente atenderam.

— Nesta hora a gente só pensa em estender a mão a quem precisa. Porque é melhor ajudar do que ser ajudado — diz o vereador, sem descer do telhado.
Em propriedades como a de Gilberto Sandri, onde os estragos também provocaram a perda das parreiras — a menos de dois meses da safra da uva —, a reconstrução será mais demorada e irá demandar ainda mais voluntariado. Ao todo, foram contabilizados 70 hectares destruídos em 43 propriedades, incluindo o distrito de Otávio Rocha. Alguns grupos já estão se organizando espontaneamente, enquanto outros devem ser arregimentados pela força-tarefa da prefeitura, conforme o prefeito César Ulian destacou na quarta-feira (10) em entrevista ao Pioneiro. Além de montar uma logística, é preciso que as videiras estejam secas.


Também nesta quinta-feira, equipes da prefeitura trabalham na demolição do ginásio da Sociedade Nova Veneza, que teve maior parte da estrutura destruída pelo tornado. Ainda não se sabe se será erguida uma nova estrutura, nem se será no mesmo local. A proprietária da casa vizinha, Gilmara De Boni, 51, que mora em Flores da Cunha e loca a residência — que teve parte da área e do telhado comprometida com a queda de uma viga do ginásio — ainda não acredita na brusca mudança de cenário na comunidade com a qual mantém vínculo desde a infância:
— Meu irmão e eu fomos criados aqui, ele jogava futebol no ginásio, eu brincava na praça que existia aqui antes mesmo de construir o ginásio. É tudo muito triste. O inquilino da nossa casa tem filho pequeno, foi um susto para eles. Mas a gente agradece por ninguém ter se ferido. O que for bem material se recupera.

O mesmo pensamento tem o agricultor Gilberto Sandri, do início da reportagem. Grato por sair ileso, assim como a esposa e os quatro cachorros, sabe que é preciso reunir forças para seguir em frente:
— Quem viu o vento chegar e passar com toda aquela força, fazendo aquele barulho que parecia um jato, não consegue nem explicar a sensação. Tu não sabes o que vai acontecer contigo, com a tua casa. Agora é um recomeço. Não temos outra alternativa. É fazer ou fazer.
COMO PEDIR AJUDA
Desde terça-feira, Flores da Cunha está em situação de emergência, conforme decreto publicado pela prefeitura, por meio da Defesa Civil. Moradores que precisarem de ajuda podem entrar em contato através dos telefones do Corpo de Bombeiros (193), Guarda Civil Municipal (153), Samu (192) e Ambulância Branca: (54) 99939-5463.
Para quem ainda precisar de lonas para proteger as casas, há estoque na sede da Guarda Civil Municipal (Rua Anúncio Curra, 2.784) no bairro União.

