
Infecção sem cura, mas que conta com tratamento disponível pelo Sistema Único de Saúde para garantir qualidade de vida aos pacientes, a Aids foi registrada pela primeira vez no Brasil em 1980 e, em Caxias do Sul, em 1987. Dezembro é o mês que marca a luta contra a doença, o HIV e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).
Em Caxias, são 3.669 pessoas que vivem com o vírus HIV, o Vírus da Imunodeficiência Humana. Desse total, 3.231 delas estão em uso de antirretroviral em 2025. Em 10 anos, os casos aumentaram 30% na cidade: em 2015, eram 2.809 casos. Vale ressaltar que o aumento populacional neste período foi de cerca de 6%.
Neste ano, apenas em testes rápidos aplicados pela SMS (até outubro, foram 29.049), foram identificados 177 casos positivos. Um aumento de 50% em dois anos: foram identificados 157 positivos em 2024 e 118 em 2023.
— A gente tem um perfil diferente entre as pessoas que adquirem o HIV e as pessoas que vão a óbito por Aids, que é a doença que a pessoa manifesta em função de ter adquirido HIV e não tratar. Hoje, quem trata o HIV e faz o diagnóstico precoce vive muito bem, com qualidade de vida. A média de expectativa de vida de uma pessoa que vive com HIV e toma a medicação corretamente é de 60 anos, muito próximo da população em geral — observa a médica infectologista da Secretaria Municipal de Saúde Andrea Dal Bó.
Em Caxias do Sul, o perfil dos diagnosticados com HIV é de maioria branca (80% dos casos), com idade entre 40 e 59 anos (28% entre os homens e 21% entre as mulheres). Já o perfil de quem morre em decorrência da Aids são homens não brancos, com baixa escolaridade, conforme a infectologista. Em 2024, último dado levantado pela SMS, foram 30 mortes pela doença na cidade, um aumento em relação aos últimos dois anos, em que foram registradas 22 mortes em cada um.
A transmissão do HIV e pode acontecer da forma vertical, em que a mãe infectada transmite para o filho durante a gravidez, o parto e a amamentação, por meio de relação sexual (anal, oral e vaginal) sem o uso de preservativo, sejam elas relações heterossexuais, homossexuais ou bissexuais, por meio de instrumentos que furam ou cortam não esterilizados, transfusão de sangue contaminado ou uso de seringa por mais de uma pessoa.
Prevenção

Para prevenção, além do método mais conhecido — e um dos mais eficazes — que é o preservativo, há também os medicamentos PrEP e PEP.
A Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) consiste no uso medicamentos, distribuídos pelo SUS, que são utilizados antes da exposição para reduzir o risco de adquirir a infecção pelo HIV. Atualmente, há 476 pessoas que retiram o medicamento PrEP em Caxias do Sul por meio do Sistema Único de Saúde.
Desse total, cerca de 74% são homens gays, 12% são mulheres cis, 8% homens cis e 4% mulheres trans. A maior parte das pessoas que busca o medicamento está na faixa entre 30 e 39 anos.
— A PrEP ainda é via prescrição médica. Então, a pessoa que se sinta em risco pode procurar a Unidade Básica de Saúde, solicitar uma consulta e fazer a solicitação dessa medicação. A chance de prevenção, se a pessoa usa corretamente, é 99%. Então, a gente está falando de uma taxa altíssima de eficácia para HIV — analisa Andréa.
Desde outubro, a população caxiense passou a encontrar os medicamentos também nas farmácias regionais das Unidades Básicas de Saúde dos bairros Cruzeiro, Eldorado, Esplanada, Fátima Alto e Desvio Rizzo. Antes, os medicamentos eram disponibilizados apenas na Farmácia do Componente Estratégico.
— As pessoas em risco são todas que têm relação sexual. Não existe PrEP específica para uma população específica. Hoje a PrEP está sendo retirada, principalmente, por homens que fazem sexo com homens e de nível superior, brancos. A gente precisa, também, prevenir essas pessoas, mas a gente precisa ampliar para outro público que não está acessando a PrEP — explica a médica.
A SMS também disponibiliza o auto-teste, que vem sendo uma ferramenta importante para aumentar a testagem e os diagnósticos. São testes que podem ser levados para casa, feitos pela própria pessoa e entregues na UBS de referência.

— É um teste rápido de HIV que é entregue para a pessoa executar em casa, justamente para ampliar essa possibilidade de as pessoas terem acesso ao diagnóstico. Cada vez mais a gente bate na tecla da importância de testagem regular, mesmo as pessoas que não se sintam em situações de risco — explica a gerente do serviço de infectologia da SMS, Grasiela Cemin.
Medicamento pós exposição pode evitar o risco de adquirir infecções
Outro medicamento fornecido pelo SUS para a prevenção, porém como medida de urgência, é a Profilaxia Pós-Exposição ao HIV (PEP). É uma medida de prevenção à infecção pelo HIV que consiste no uso de medicamentos para reduzir o risco de adquirir essas infecções. Deve ser utilizada em casos de violência sexual, relação sexual desprotegida ou por acidente ocupacional com instrumentos perfurocortantes ou contato direto com material biológico. A PEP deve ser iniciada até 3 dias após a situação de risco.
Em Caxias, enfermeiros também podem prescrever a PEP em situações de urgência. Desde 2018, 2.008 pessoas receberam o medicamento na cidade. Só em 2025, foram 555 dispensações, sendo 48% delas para homens heterossexuais, 44% para mulheres cisgênero e 6,9% para homossexuais.
— As pessoas que buscam PEP são pessoas que não se veem em risco, mas estão em risco. Porque, no momento que elas vieram buscar a PEP, é que elas estão se expondo. Mas elas não se veem em risco de forma regular. Elas acham que é uma coisa pontual. Mas o Ministério da Saúde coloca que se a pessoa procurou duas ou vezes mais PEP, ela já tem indicação de PrEP — analisa a médica infectologista Andréa Dal Bó.
"Quando eu descobri, eu tinha minha sentença de morte na frente"

Para quem convive com o diagnóstico do HIV, como é o caso da caxiense Sabrina, de 37 anos, a vida é considerada normal, tranquila e igual a das outras pessoas. Em tratamento há 11 anos com antirretrovirais, a caxiense descobriu a doença por meio de uma dor de garganta muito forte, que não conseguia curar com nenhum tratamento indicado pelos médicos.
— Eu já tinha ido em todos os médicos possíveis, tomado todos os antibióticos possíveis que tinha. Eu fui numa otorrino e ela me pediu se a gente poderia fazer os exames. Eu disse que sim. Eu nunca tinha feito (exames de ISTs). Eu achava que isso era uma coisa que acontecia lá longe, porque na minha cabeça, e na cabeça da minha mãe, que foi quem me criou, quem tinha era o Cazuza. Tanto é que quando eu descobri, eu tinha minha sentença de morte na frente — relembra.
A notícia do diagnóstico veio por meio da otorrinolaringologista, que a encaminhou para uma infectologista. Sabrina não sabe quem a infectou, porque os resultados dos exames vieram num período em que estava separada do parceiro fixo da época.
— Eu disse para a médica: eu tenho suspeitas, mas certeza eu nunca vou ter. Ela disse que a gente ia resolver, mas resolver como? Eu vou morrer, né? E ela disse assim para mim: "não, se fizer o tratamento, vai levar uma vida normal, como a de todo mundo". Só que não entrava na minha cabeça. E eu saí dali transtornada — relembra.
Quando voltou para casa, contou para a mãe e para o ex-marido. O parceiro precisou fazer acompanhamentos na SMS para garantir que não havia contraído o vírus.
— Ele veio, fez uns três ou quatro testes, todos deram negativos. E eu pensei que ele ia me deixar. Eu pensei que jamais alguém iria aceitar viver com uma pessoa que tivesse HIV. Naquele momento, eu achava que a minha vida tinha acabado, eu ia definhar, eu não ia poder ser mãe, nunca ninguém ia me aceitar. Mesmo com meu ex-marido ainda casado comigo, ainda dizendo que para ele não importava, nunca me tratou diferente por causa disso. Eu também comecei a fazer acompanhamento com a psicóloga e ela sempre me falou que existiam possibilidades. E foram anos até que hoje eu não admito mais que ninguém diga que eu não sou uma pessoa normal — afirma.
Sabrina tinha o sonho de ser mãe. Quando recebeu o diagnóstico, pensou que nunca poderia realizá-lo, por temer a transmissão vertical do vírus. No entanto, seguindo corretamente o tratamento indicado pelo setor de infectologia, viu a carga viral baixar no seu corpo e a possibilidade de engravidar e dar a luz com segurança e saúde.
— Eu tive minha filha. Ela nasceu bem e não tem o vírus. Eu sei que fazendo o tratamento certinho, tomando meu medicamento e fazendo meu acompanhamento, não transmito para ninguém. Eu sei que eu não vou morrer disso — diz Sabrina.
Cenário estadual e nacional
- O Rio Grande do Sul apresentou redução nas mortes por Aids entre 2023 e 2024. O número de óbitos caiu de 972 para 952, o que representa uma diminuição de 2%.
- O resultado acompanha a tendência nacional: o país também reduziu em 13% os óbitos por Aids, passando de mais de 10 mil para 9,1 mil no mesmo período, o menor número em três décadas, segundo o novo Boletim Epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde.
- O Brasil adota a estratégia de Prevenção Combinada, que reúne diferentes métodos para reduzir o risco de infecção pelo HIV. Antes centrada principalmente na distribuição de preservativos, a política incorporou ferramentas como a PrEP e a PEP, que reduzem o risco de infecção antes e depois da exposição ao vírus. Para dialogar com o público jovem, que vem reduzindo o uso de preservativos, o Ministério da Saúde lançou camisinhas texturizadas e sensitivas, com a aquisição de 190 milhões de unidades de cada modelo.
- O país também ampliou o acesso à Profilaxia Pré-Exposição. Desde 2023, o número de usuários da PrEP cresceu mais de 150%, resultado que fortaleceu a testagem, aumentou a detecção de casos e contribuiu para a redução de novas infecções. Atualmente, 140 mil pessoas utilizam a PrEP diariamente.
- O SUS mantém oferta gratuita de terapia antirretroviral e acompanhamento a todas as pessoas diagnosticadas com HIV. Mais de 225 mil utilizam o comprimido único de lamivudina mais dolutegravir, combinação de alta eficácia, melhor tolerabilidade e menor risco de efeitos adversos a longo prazo.


