
No salão da cabeleireira Bruna Borges, em Caxias do Sul, todo dia é Dia da Consciência Negra, data celebrada neste 20 de novembro. As três primeiras coisas que chamam a atenção de quem entra no espaço, no bairro Panazzolo, são a pilha de livros de autoras negras; um quadro em que uma modelo ostenta um imponente penteado cacheado e o letreiro atrás do balcão, onde se lê a definição do serviço prestado ali: tratamento para cachos, crespos e ondas. Para mulheres muitas vezes inseguras quanto aos seus cabelos que chegam diariamente, o salão faz as vezes também de um consultório em que Bruna é como uma psicóloga, sempre disposta a escutar e ajudar.
Filha adotiva, a caxiense de 30 anos teve de se acostumar ainda na infância com o cabelo diferente dos pais, brancos. Ela comenta que a maioria das clientes adultas a quem atende pela primeira vez traz questões de aceitação ligadas à infância.
- Quando entrei nesse ramo eu percebi que muitas pessoas queriam ter um atendimento com foco no seu tipo de cabelo, que gostam do seu crespo natural, mas que faltava alguém que as entendesse e que as escutasse. Aqui no salão o acolhimento é muito importante. Normalmente a cliente que senta pela primeira vez na minha cadeira vai falar sobre algo da infância dela, algo que ela precisa colocar para fora. Por isso eu procuro fazer desse ambiente um lugar onde essa mulher vai poder se sentir muito à vontade. Também faço questão de colocar muito conteúdo sobre isso no Instagram, que é pra pessoa que vem aqui já saber onde está pisando - comenta Bruna.
A profissional destaca ainda que, ao optar pela especialização em cachos naturais, isso envolve ensinar as clientes que existem maneiras práticas de cuidar dos cabelos no dia a dia, que há produtos adequados para isso, secadores adequados, e que nada impede de explorar novas cores para sair da rotina:
- Foco no cabelo natural é não querer moldar um outro tipo de cacho, mas sim cuidar do cabelo que já existe, sem transformar num cacho fake. Trabalho bastante também com cores, que fica muito lindo no cabelo cacheado, além de penteados. A gente saiu da cultura do liso perfeito querendo o cacho perfeito, mas o cabelo tem vida própria e é normal ele "acordar" de um jeito a cada dia. E está tudo bem.
EXPANSÃO BEM-VINDA

A cada ano essa realidade vem mudando com o surgimento de mais espaços especializados em cabelos crespos e cacheados. Não são voltados apenas para quem opta por manter a característica natural, mas também para quem busca fazer tranças, dreads e outros penteados característicos da cultura afro. Uma rápida pesquisa na internet permite encontrar mais de uma dezena de salões especializados, sendo um dos mais antigos o KG Studio Afro Hair, que abriu dez anos atrás na área central.
Uma das fundadoras, Karen da Rosa, 33 anos, é trancista, como se define a cabeleireira especialista em tranças. Entre as dezenas de técnicas que aplica nos clientes, a mais procurada é a box braid, que divide o cabelo em quadrados antes de trançá-los até as pontas. Outra bem comum é a nagô, que recebe o nome da etnia africana da qual é originária e é caracterizada por linhas retas e simétricas, formando um padrão geométrico no couro cabeludo.
A profissional comenta que a opção pelas tranças, além de uma preferência estética, contempla também a praticidade. Karen destaca ainda que não vê como concorrentes novos profissionais abrindo salões pela cidade, mas sim como colegas de profissão. Prefere ver nisso um sinal de que cada vez mais mulheres estão aceitando e gostando dos seus cabelos naturais.
- Muitas vezes as mulheres estão com os cabelos destruídos por conta da química, por se esconder atrás daquele padrão imposto pela sociedade, do cabelo liso. À medida que mais mulheres passaram a querer usar o seu cabelo natural ou optaram pelas tranças, que são muito práticas, aumentar o número de salões especializados foi uma consequência. Porque ainda existe a dificuldade de chegar num salão convencional e a profissional saber fazer a finalização correta ou não ter o creme específico para esse tipo de cabelo - avalia.
Das aulas de Português para os cursos de trancistas

Também especializada em tranças, Cris Petrovieh,31, nascida em Santo Ângelo e radicada em Caxias desde a infância, mantém um salão em São Pelegrino. Por três anos, conciliou o trabalho no salão com o de sala de aula, como professora de Língua Portuguesa. Quando consolidou uma clientela, optou por se dedicar apenas à carreira como trancista.
Além dos atendimentos no dia a dia, Cris viu uma oportunidade de crescer ainda mais profissionalmente quando passou a oferecer cursos para pessoas interessadas em aprender a trançar. Em três anos, emitiu 140 certificados, sendo boa parte para pessoas de outras cidades:
- Eu já tinha a didática, por vir da sala de aula, e sentia falta de poder ensinar. Então foi como unir o útil ao agradável. A maioria das pessoas que fez o curso veio de cidades vizinhas, onde não tinha quem soubesse fazer este serviço. Outras pessoas querem apenas para fazer em si mesmas, nos filhos ou no resto da família, para economizar. Como é uma técnica rápida de aprender, o curso é de oito horas. Porque o mais importante é o treino, que vem com o kit que a gente fornece para a pessoa praticar.
Dividindo a vida e o espaço de atendimento com Cris, Edson Gaspari, 29, atende preferencialmente o público masculino, cuidando da manutenção dos crespos ou fazendo tranças e dreads. A popularização da estética afro entre os homens está ligada à popularização do basquete, especialmente da NBA. É por isso que Edson decora sua barbearia com camisas de astros da liga norte-americana, bonés das franquias e bolas de basquete.

Assim como a esposa viu crescer a procura das mulheres pelas tranças mais arrojadas, o cabeleireiro viu aumentar a procura do público masculino pelas tranças que imitam estrelas do basquete, cujo estilo também é influenciado pela cultura hip-hop. Mas também é preciso convencer parte do público a valorizar o próprio cabelo:
- A maioria dos caras chega com o seu cabelo crespo e pede logo para passar a máquina, porque é o que a maioria dos barbeiros sabe fazer. A primeira coisa que eu pergunto é o porquê dele querer raspar o cabelo. É por que ele acha que o cabelo não se ajeita? A maioria diz que é por isso. Então eu explico todo o processo, tento convencê-lo de que vai funcionar e de que, ao final, vai ser mais fácil de cuidar. E a maioria que experimenta deixar o seu cabelo crespo acaba gostando e não volta mais pro liso ou a passar a máquina.
