
Um dos instrumentos musicais mais antigos do mundo, a harpa é relacionada a música clássica, orquestras e até apresentações de música erudita. Mas é raro ver e ouvir uma por aí — mais difícil ainda é encontrar alguém que saiba tocá-la. Só que no município de Cambará do Sul, nos Campos de Cima da Serra, a concentração de harpistas tem aumentado cada vez mais, graças à iniciativa de uma moradora apaixonada pelo instrumento. Por conta disso, neste final de semana ocorre o 1º Festival de Harpa de Cambará (veja mais detalhes a seguir).
A professora de música Beatris Krieser Barbier iniciou, em agosto do ano passado, um projeto cultural para ensinar harpa a jovens da cidade. Ela tem três unidades do instrumento no estilo guarani, cada um com 47 cordas, e aprendeu a tocar ainda na infância, quando morou com a família no Paraguai.

— Viemos morar em Cambará para que nossos dois filhos crescessem aqui, e logo percebi a curiosidade de crianças com a música nos intervalos das escolas. Eu já dava aulas de música com instrumentos mais convencionais, mas queria muito ensinar a harpa — relata.

Mas a ideia precisava de apoio financeiro para acontecer, pois cada harpa pode custar, em média, até 5 mil dólares (R$ 26,7 mil). Foi então que entidades privadas e empresários da cidade procuraram Beatris, em agosto de 2024, para incentivar a ideia, que atualmente já conta também com apoio da prefeitura e da Associação de Cultura de Cambará do Sul.
— São pessoas que nem querem se identificar, porque pensam num propósito maior de fazer cultura, educação e desenvolvimento por meio de projetos assim. Só consigo tocar isso porque tenho essas pessoas apoiando, patrocinando e incentivando o futuro da nossa região e da música — explica ela.

Com o apoio, ela já conseguiu mais três harpas novas e até a possibilidade de oferecer bolsa de estudos a crianças que não teriam condições financeiras de pagar aulas particulares. Hoje, já são 10 alunos de harpa no projeto.

A família da Laura Rocha, de apenas 10 anos, não chegou a conhecer quem disponibilizou a bolsa para ela, mas sabe o potencial musical que a pequena harpista já demonstra nos ensaios.
— Eu aprendi rápido o piano e logo a professora Beatris me colocou na harpa. Gosto muito e acho lindo fazer música assim — conta a pequena estudante.
Quem também participa é Yasmin Valim, 14, que gosta da diversidade musical que a harpa proporciona:
— Não é só música clássica, a gente toca de tudo, faz até música gaúcha e tradicionalista. Dá pra inventar e melhorar tudo na música com ela.
Essa é a mesma percepção que teve o jovem estudante Rubem Samuel Rosa, 15, que ganhou uma harpa nova do pai:
— A Beatris faz ficar fácil, a gente aprende rápido. Eu já tocava bateria e agora me apaixonei ainda mais pela música, quero evoluir mais e mais.

Todos eles se reúnem para ensaiar no restaurante Vitrine da Truta, que é do marido da Beatris, o chef Marcos Barbier.
— Foi o local mais espaçoso que tínhamos pra iniciar logo essa ideia de difundir a harpa, mas vimos que acabou se tornando um atrativo (risos), porque tem turistas que vêm jantar e acabam ficando a noite toda ouvindo os alunos tocando harpa com a Beatris — conta Barbier.

A iniciativa tem um nome simples e direto, mas que demonstra o objetivo do grupo: Harpa Cambará. O município de cerca de 6,7 mil habitantes, famoso pelos cânions, produtos coloniais e turismo rural, agora tem uma nova aliada no desenvolvimento do turismo: a cultura.
— Nossa ideia é ter cada vez mais harpas, mais alunos, mais gente vindo pra cá pelo interesse em ver e ouvir, ou até mesmo aprender música. A gente pede apoio, ajuda de qualquer interessado e fazer o projeto crescer pra seguir ajudando crianças e jovens através do som, porque a música pode, sim, mudar vidas — emociona-se Beatris.

1º Festival de Harpa de Cambará do Sul
O grupo organizou até o 1º Festival de Harpa de Cambará do Sul, evento que está acontecendo neste final de semana no Centro Cultural de Cambará do Sul. Até a noite de domingo, acontecem oficinas musicais com crianças e jovens da rede municipal de ensino, além de shows com o harpista brasileiro Narcizo Lucena e com o harpista paraguaio Sixto Córbalan.

A programação é totalmente gratuita. A única performance fora do Centro Cultural deve ocorrer na beira do cânion Itaimbezinho, no domingo às 9h. É lá que a Camerata de Harpas de Cambará, formada pela Beatris e seus 10 alunos, vai apresentar ao público a beleza da natureza junto ao som das harpas. No repertório, clássicos de diversos estilos musicais para agradar ouvidos de todos os gostos.

