
Caxias do Sul tem 61 mil pedidos de consultas com especialistas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). As maiores filas de espera são para a dermatologia e a oftalmologia, com 8,2 mil e 7,5 mil pessoas, respectivamente. Os dados são de outubro e foram obtidos via Lei de Acesso à Informação.
Depois dessas, as especialidades com maiores demandas para o primeiro atendimento são, em ordem, gastroenterologia (que trata do aparelho digestivo), proctologia (que trata do intestino grosso, reto e ânus), cirurgia geral, ortopedia, neurologia e psiquiatria. Os dados analisados consideram os pacientes com residência em Caxias do Sul.
Não é possível estimar um tempo médio de espera por consulta com especialistas no município, segundo a diretora do Departamento de Avaliação, Controle, Regulação e Auditoria (Dacra), Marguit Meneguzzi. A solicitação é feita por um profissional na Unidade Básica de Saúde (UBS) e, depois, é categorizada em baixa, média ou alta prioridade pelo sistema regulatório municipal. A avaliação é feita a partir dos dados clínicos do paciente.
— Quando temos essas listas que são muito grandes, a exemplo da dermato e da oftalmo, agendamos um pouco de (pacientes categorizados) como alta prioridade, um pouco de média e um pouco de baixa. Assim, todo mundo tem o mínimo de oportunidade. Para fazermos um cálculo médio de tempo de espera, teríamos de pegar cada um dos tipos de prioridade e calcular. O sistema não faz isso — justifica Marguit.
No Estado, segundo levantamento de GZH, a espera pode chegar a seis meses. O prazo é estimado pelo RegulaSUS, programa que faz os encaminhamentos de 19 centrais estaduais para 1.491 especialidades e subespecialidades disponíveis. O projeto não atende Caxias do Sul, que é considerado um município de gestão plena.
Embora não haja uma média municipal, um dado disponibilizado pelo Dacra ajuda a revelar o tamanho do problema a ser enfrentado: o caso mais antigo à espera de uma consulta com um dermatologista é de um paciente cadastrado em março de 2020.
Para Marguit, uma série de fatores implica no tamanho das filas de espera na rede pública:
— Há o envelhecimento da população, a escassez de profissionais, o aumento do número de pessoas acessando o SUS e o próprio fortalecimento da atenção primária. Porque, quanto mais diagnósticos e solicitação nas UBSs, mais encaminhamentos haverá para os especialistas — opina.
"Vamos minimizar essas grandes listas"
Histórica no maior município da Serra, a fila de espera por consulta com médico especialista voltou ao centro dos debates após a prefeitura anunciar, em setembro, a exoneração de 15 profissionais do Centro Especializado de Saúde (CES) ao longo de 2025. Doze deles são das áreas de neurologia, dermatologia e reumatologia e deixaram o serviço público em um período de seis meses.
Atualmente, segundo o levantamento da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), há três dermatologistas para suprir a fila de 8 mil atendimentos da rede pública. Os dados também indicam o número de profissionais em outras especialidades:
- Neurologista (para adultos): oito
- Neurologista (para crianças): dois
- Reumatologista: três
- Psiquiatra (para adultos): cinco
- Psiquiatra (para crianças): dois
Para o secretário da Saúde Rafael Bueno, a diminuição das filas de espera está alicerçada em ao menos três estratégias: a realização de mutirões de consultas eletivas, a convocação de médicos que foram aprovados no concurso público realizado em outubro e o funcionamento pleno da telemedicina.
A intenção é custear os mutirões a partir de recursos economizados em outras despesas. Um exemplo de corte de gastos está na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Central. Com a habilitação pelo Ministério da Saúde, na semana passada, o município deve receber R$ 10,2 milhões ao ano para o custeá-la.
— Tendo dinheiro em caixa, nós vamos fazer grandes mutirões de consultas através de chamamentos públicos. Agora, o que nós vamos "botar na praça" é que, se tiver que atender de noite, o paciente vai ter que ir ser atendido de noite, sábado, domingo, feriado... Vamos oferecer essa dinâmica, de segunda a segunda. Vamos minimizar essas grandes listas — projeta Bueno.
Em relação à telemedicina, o contrato prevê 30 mil consultas online por ano, abrangendo, por exemplo, as especialidades de reumatologia, endocrinologia, cardiologia e neurologia. O serviço começou em 8 de julho, contudo, não está sendo satisfatório na avaliação de Bueno. Atualmente, há quatro cabines para atendimento a distância, no CES. As estruturas estão sendo destinadas somente à psicoterapia.
— Demos um prazo para a empresa apresentar um novo software para ampliar esse atendimento. Eu creio que eles vão fazer isso e vão entregar esse serviço. Nosso contrato é até fevereiro — diz.
Outra aposta do novo gestor está na formalização de parcerias. Uma delas é com o Instituto Amor em Cuidar e prevê a realização de 60 consultas de psiquiatria e psicoterapia mensais, sem custos aos cofres públicos. A previsão é que, após assinado, o contrato tenha duração de 12 meses. O processo ainda está em andamento e não há data oficial para começar, conforme a assessoria da SMS.
Rochele espera há nove meses por uma consulta com psiquiatra
Cada número da fila de espera representa a angústia de um paciente. A merendeira Rochele Maria Fraccini Casagrande, 51 anos, aguarda desde fevereiro por uma consulta com psiquiatra. A queixa é de que a medicação atual não está surtindo o efeito esperado e é preciso aumentá-la ou trocá-la.
Cansada de esperar e com alterações psicológicas persistentes, Rochele pediu, na semana passada, ajuda do médico da UBS Planalto Rio Branco para atenuar a situação até que consiga o atendimento com o especialista.
— O doutor do postinho aumentou a dose, mas com a observação de que eu tenho que consultar com o psiquiatra — conta.
Para Rochele o atendimento com o especialista representa a confiança de que a situação não será agravada.
— É complicado, porque eu confio nos psiquiatras que já me atenderam, porque tem uma avaliação do meu histórico. Faz mais de 10 anos que eu faço tratamento psicológico. Com o clínico, eu fico meio assim, não sei se (a nova dose de medicação recomendada) vai fazer o efeito — diz.
A Secretaria Municipal da Saúde de Caxias do Sul confirmou que a paciente permanece na fila e que recebe atendimento desde 2020.




