A primeira audiência pública realizada pelo governo do Estado para discutir o novo modelo de concessões do bloco 1 de rodovias, nesta terça-feira (18), em Gramado, foi marcada por manifestações contrárias. Durante quase três horas, representantes de entidades, lideranças políticas e moradores se revezaram no microfone. Ao todo, foram 30 manifestações, com três minutos para cada participante expor seus argumentos. A maioria criticou a proposta apresentada.
O encontro ocorreu no Centro de Eventos da Expogramado e abriu a série de debates sobre o projeto de concessão que abrange 454 quilômetros de rodovias nas regiões das Hortênsias, Vale do Paranhana, Vale do Sinos e Litoral Norte. O secretário da Reconstrução Gaúcha, Pedro Capeluppi, detalhou o modelo previsto, que inclui 23 pórticos de free flow, entre eles novos pontos de cobrança nas rodovias RS-235, RS-466, RS-115 e RS-020.
Capeluppi lembrou que o Estado possui 9,5 mil quilômetros de rodovias pavimentadas, mas apenas 197 quilômetros são duplicados. Segundo ele, a lentidão histórica de investimentos compromete a logística e o desenvolvimento regional.
— Investir no Rio Grande do Sul ou em qualquer outro lugar do Brasil é saber quanto custa a logística da região e isso tem muito a ver com a qualidade das nossas rodovias. Mas tão importante quanto isso é garantir a manutenção e a qualidade dessas rodovias — afirmou.
Manifestações contrárias dominaram o debate
O presidente da Câmara de Vereadores de Gramado, Ike Koetz, declarou “total contrariedade à modelagem” apresentada. Ele reconheceu a importância da infraestrutura, mas criticou “o valor totalmente elevado” e pediu revisão imediata da proposta.
— Não somos contra o desenvolvimento, mas vemos que existem modelos diferentes ao redor do mundo. Temos que revisar essa concessão, na qual nós não concordamos — disse.
O secretário de Inovação de Gramado, André Castilho dos Reis, questionou o impacto econômico para o município.
— Seria necessário para nós que o governo nos apresentasse qual o impacto na queda de arrecadação que uma medida dessas vai apresentar para nossa região — pontuou.
O vice-prefeito de Canela, Gilberto Tegner, foi ainda mais incisivo:
— Nós somos radicalmente contra essa instituição de pedágios. Nenhuma das nossas estradas recebeu investimentos. Gramado e Canela precisam ter melhores acessos. A única novidade desse modelo atual é o número de pedágios — afirmou.
Ele reforçou que o prefeito Gilberto Cezar realizou o pedido pela retirada do pórtico no Parque do Caracol, alegando prejuízos ao deslocamento entre os municípios.
O vice-prefeito de Gramado, Luia Barbacovi, também criticou a instalação do pedágio na RS-466:
— Nós somos contrários ao pedágio do Caracol. Entendemos e precisamos de obras, mas a incompetência da EGR ou o que ela tem nos dado de retorno também é insatisfatória e todo esse tempo de pedágio nunca deu o retorno que era previsto. Nós temos em torno de oito mil trabalhadores que vêm de outros municípios. Isso vai aumentar o custo do vale-transporte, dos insumos, vai ter impacto na passagem intermunicipal. No turismo, não tem dúvida, as pessoas vão buscar outros caminhos — afirmou, reforçando o pedido para que o governo reavalie o modelo e considere os impactos econômicos locais.
Após ouvir as manifestações, o secretário Pedro Capeluppi reforçou que todas as contribuições serão avaliadas e destacou que não há divergências técnicas nos estudos apresentados:
— Temos recebido inúmeras contribuições, todas elas serão analisadas para que nós possamos aprimorar o projeto. Os cálculos estão todos disponíveis. Não há nenhum erro de cálculo. As planilhas estão todas abertas, disponíveis para qualquer um — disse.
Sobre o pedágio
O sistema de cobrança do bloco 1 será o free flow, modelo eletrônico sem cancelas, que permite cobrança proporcional à distância percorrida. O valor estimado é de R$ 0,21 por quilômetro, considerando o aporte estadual. Sem o subsídio, a tarifa seria de R$ 0,32.
O bloco 1 reúne trechos das rodovias:
- RS-020
- RS-040
- RS-115
- RS-118
- RS-235
- RS-239
- RS-466
- RS-474
- RS-010 (será construída)
Próximas audiências
Nesta terça (18), haverá a segunda audiência pública, que será realizada em Taquara, às 14h30min, na sede das Faculdades Integradas de Taquara (Av. Oscar Martins Rangel, 4500).
No dia 25 de novembro, Gravataí recebe a reunião, às 9h30min, na prefeitura (Rua Itacolomi, 3600). No mesmo dia, 15h30min, o debate será realizado em Novo Hamburgo, na Universidade Feevale, campus II (RS-239, 2755).
Números do bloco 1
- 30 anos de concessão
- 454 quilômetros concedidos
- 27 municípios impactados
- R$ 6,41 bilhões de investimento previsto total
- R$ 4,86 bilhões de investimento nos primeiros 10 anos
- R$ 1,5 bilhão de aporte do governo estadual, por meio do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), para baratear a tarifa de pedágio
Além da modernização das vias, também estão previstas estradas resilientes dentro do bloco 1, com pontes em cotas mais elevadas em trechos sujeitos a inundação, assim como obras de drenagem e medidas para prevenção de alagamentos, erosões e deslizamentos.


